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terça-feira, 10 de abril de 2012

Seja lá o que você queira...

A primeira vez que eu ouvi falar do Derek Sivers foi quando assisti ao seu TED Talk, uns anos atrás.


Veja bem: eu já tinha visto um bom punhado de TED Talks, e acabei vendo outro punhado desde então. Mesmo assim, a palestra dele segue sendo a minha favorita. Ela dura apenas cinco minutos, é direta, fala de um tema muito contemporâneo e inverte a lógica natural do nosso pensamento. Acho genial. Mesmo.

Aí umas semanas atrás eu tava andando por aí e vi que o mesmo Derek Sivers tinha lançado um livro: Anything you want. O resumo dizia que o livro ia falar sobre a empresa que ele fundou, a CD Baby, uma distribuidora de CDs independentes, e falar um pouco de negócios. Podia ser uma cilada. Mas era o Derek Sivers, o mesmo cara do melhor TED Talk de todos os tempos, e tava barato. Eu tinha que dar uma chance.

Pois é.

Anything you want é bem legal.

Naquelas: se você acha que um bom livro é só uma novela latino-americana ou uma antologia de poemas russos, não vai ser a sua praia. É um livro de negócios. Sobre um cara que transformou um hobby em um negócio de uma forma bacana, e esse negócio se tornou uma imensa loja de CDs independentes.

O livro não tem clichês do mundo dos negócios. Não tem gráficos de pizza. Tem poucos números. Tem algumas fórmulas mágicas, mas elas são bem razoáveis e decentes. É curtinho.

Deu vontade de compartilhar, porque eu vejo muita gente boa aí tentando vender seu trabalho bacana de uma forma velha e quadrada. São escritores, quadrinistas, músicos, artistas em geral, e mais cozinheiros, doceiros... Muita gente muito criativa na hora de produzir suas obras, e muito, muito, muito careta na hora de pôr à venda. Acho que todo mundo conhece gente assim: na hora de criar, é um Pollock, um Joyce; quando vai ao mercado, veste as roupas de um vendedor de enciclopédia.

O livro do Sivers não dá um único caminho, mas mostra que você pode achar a sua forma de vender alguma coisa. Pode ser inspirador, pode servir.

Se ajudar alguém, tá ótimo pra mim.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Meu mantra para 2012


“Contrary to the belief of a small industry that has grown up around a supposed Mayan prophecy, the world won’t end in 2012. But at times it will feel as if it is about to.”

Daniel Franklin, no editorial da The Economist - The World in 2012

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Eaí? / Revista Atlântida

Volta e meia estudantes, pesquisadores e até ex-colegas me perguntam sobre onde conseguir edições de duas revistas que a gente fez lá na RBS: a Eaí? e a Revista Atlântida (2ª gestão).

Pra comprar não deve ser fácil.

Mas, pra pesquisa, a boa notícia é que, em Porto Alegre, deve ser bem fácil de encontrar esses exemplares. Ao contrário de editora, rádio não tem arquivo de revistas. E o núcleo em que a Eaí? estava alocada na RBS acabou extinto.

Ciente de que, se não fizesse nada, ninguém ia se preocupar em preservar nada disso, eu mesmo ocupei meus últimos dias na Redação em fazer quatro pacotes de revistas e distribuí-los em lugares de fácil acesso e que preservam a memória. O que eu nunca tinha feito é contar na internet onde eles estão, pra que alguém pudesse encontrar.

Só que não adianta nada eu fazer isso e não deixar a informação no Google. Então aí vai:

1. Arquivo da Zero Hora. É o mais completo de todos. Inclui todas as edições das duas revistas com CD, mais algumas provas de gráfica, mais os exemplares que tínhamos da primeira fase da Revista Atlântida (editado por uma empresa parceira da RBS um tempo antes da nossa versão). É a mais completa possível e a que tende a ser melhor preservada, mas também deve ser a mais inacessível. Por isso, se for para uma pesquisa simples, sugiro as opções abaixo:

2. Museu Hipólito José da Costa, Biblioteca da Fabico (UFRGS) e Biblioteca Central da PUCRS - Coleções completas da nossa série da Revista Atlântida e coleção completa do Eaí?. Sendo que no museu eu levei pessoalmente, e nas bibliotecas eu pedi pra levarem lá.

É isso.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Imagine (sung to the tune of John Lennon’s “Imagine”)

No seu boletim por Circuits, do New York Times, enviou hoje uma nova versão para Imagine, do John Lennon:

Imagine there’s no Apple,
No products that begin with “i,”
No monthly iPod models,
No Apple stores to get you high.
Imagine all the people
Finding other things to do!

Imagine there’s no bloggers...
It isn’t hard to do!
No viruses or spyware,
No weekly Windows patches, too
Imagine all the people
Learning to get a life...

(You-hoo-hoo!)

You may say it’d be a nightmare
Without Google, Mac or Dell
We might have real conversations--
But the world would be dull as hell!
Imagine no new cellphones;
Kiss console games goodbye.
No David Pogue or Mossberg
To tell us what to buy.
Imagine all the people
Getting some exercise!

(You-hoo-hoo!)

You may say that I’m a loony
But rest assured I’m almost done.
I’m pretty sure it’ll never happen
So we nerds can live as one!

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

MacAir

Na boa, vai: usar finura como suposto atributo de inovação em tecnologia é déjà vu desde que a Motorola lançou o Razr.

Melhor sorte na próxima, Steve.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Phone Home

Não sou muito de repercutir as notícias do Blue Bus, até porque fico com a impressão de que todo mundo já leu. Por isso, não leiam este post como uma notícia, por favor, e sim como um louvor a uma idéia sensacional.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Desconfiômetro ligado, coração tranqüilo



Tá rolando um stress por causa da nova campanha do Estadão, cujo polêmico filme está aí em cima.

Tudo porque, na cabeça dos blogueiros, trata-se de uma campanha anti-blog, em que o jornalão estaria detratando todas as conquistas e vitórias digitais dos últimos anos.

O que, naturalmente, é uma bobagem.

Na minha cabeça, tá mais pra velha história da carapuça que veste bem. A campanha fala evidentemente do 99% de lixo que é a internet. Nem a agência nem o jornal me parecem capazes de acreditar que blogs são feitos por habilidosos macacos copistas.

Fiquei surpreso com o espanto generalizado. Surpreso mesmo, porque eu, com esse meu imenso coração sincero, esperava mais das cabeças digitais pensantes. Parece até que algo ali mexeu com a culpa de quem anda postando bobagem por aí -- e daí o fenômeno foi contaminando os outros.

E digo isso na boa, porque até então eu tava achando a campanha superbacana. Até porque, pra mim, a carapuça serviu: não vejo por que alguém beberia um dos vinhos recomendados na tag etílica aí ao lado. Eu não entendo lhufas de vinho. É óbvio que o caderno Paladar tem muito mais moral pra falar sobre vinhos do que eu.

Mas o jogo viraria, por exemplo, se eu fizesse um blog de quadrinhos. Eu daria um banho no Estadão, e também digo isso na boa, sem querer ofender ninguém. O fato é que, ainda que eu tivesse uma coluna sobre quadrinhos no Estadão, o meu suposto blog seria melhor que a coluna, por conta de tamanho e da maleabilidade de um blog.

O Universo HQ, por exemplo, dá um banho na cobertura de quadrinhos de qualquer jornal do país. E olha que tem uns jornalistas de HQ bons por aí.

Mas, se eu gosto de quadrinhos, o Estadão é um puta jornal para eu me informar sobre política, economia, informática e culinária. Não são assuntos que eu acompanho com voracidade, então, ele supre as minhas necessidades superbem. Verdade seja dita: o Estadão é, de fato, o melhor generalista de informação nacional diária do mercado.

Quando o Estadão mostra o macaco, ele solta um alerta: "Amigo leitor, tome cuidado com o senhor que lê por aí". E vende seu peixe: "Se porventura quiser uma informação mais confiável, eu tenho aqui". Quando separa informação boa da ruim, fica claro que ele conquista uns leitores. Mas, mais que isso, põe uma pulga atrás da orelha do leitor. Liga o desconfiômetro.

E, afinal de contas, ler qualquer coisa com o desconfiômetro ligado é, desde sempre, pré-requisito para a vida civilizada. Algo de que ninguém deveria ter medo.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Harry Potter veste Prada

O admirável velho mundo das editoras não contava com um fatorzinho pequeno, mas significativo, na hora de esconder os segredos do novo Harry Potter: a humanidade não é feita só por gente que concorda com as restrições impostas pelos contratos.

Além disso, os contratos de embargo são garantidos pelo dono das livrarias, não pelo mocinho contratado anteontem para ser guarda do depósito. Quem cuida das caixas lacradas pode até ser demitido, o que provavelmente não seja bom, mas ele tem muito menos a perder do que um Jeff Bezos da vida, que terá que pagar multas e ouvir encheção de saco da Scholastic pelo resto da vida. Com o sistema de seguro-desemprego de alguns países desenvolvidos, o sujeito pode até sair lucrando.

Num mundo em que piratear virou cool, espalhar um segredo milionário como Harry Potter incendeia a vocação de alpinista de reality show emprenhada na população. Esse carinha que fotografou o Potter virou o fodão da turma, com certeza.

E o ego de um único sujeito arrasou com uma estratégia milionária anti-pirataria.

Harry Potter não só vazou na internet, como também já está à disposição pra quem souber procurar, e talvez essa seja a maior lição que O Diabo Veste Prada nos deixou. O New York Times de hoje saiu com resenha e tudo, feita a partir de um exemplar comprado em Nova York. E a verdade é que, mais uma vez, o velho jornalão mostra que não é o que é por acaso: sumo-sacerdote da imprensa escrita, lida com o admirável mundo novo melhor do que muito site por aí.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Ganhe dinheiro com seu blog

Um dos dilemas a respeito da pirataria de livros na vindoura (e bem-vinda) era do texto digital é a remuneração dos autores. Eles não são como os músicos, dizem por aí, eles não podem fazer shows. É um fato. Mas podem fazer blogs, certo? Ainda mais se forem bons autores e conseguirem algum reconhecimento.

Outro dia, falei de formas de remuneração para auto-publicação a partir do que o Warren Ellis diz que já rola nos Estados Unidos e na Inglaterra. Hoje, fiquei sabendo de outro modelo.

Deu no Springwise (aqui): a versão sueca do Metro (esse mesmo jornal gratuito que circula em São Paulo) lançou um sistema de blogs em que qualquer um pode se cadastrar e fazer seu blog. Quem fizer mais de 5 mil pageviews por mês ganha 16 euros.

A migração para o blog do Metro é veloz e eficiente. Não duvido que seja um piloto para ser transplantado para outros países -- Brasil inclusive. Com o hype, provavelmente a audiência aumenta. Idem para os lucros. A reação dos demais serviços de blog, e do Blogger do Google inclusive, não deve demorar.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Jon is Tio

Um dia, a Mariane mandou um e-mail para o planejamento lá da agência pedindo idéias pra uma camiseta para o Grupo de Planejamento, no qual ela milita furiosamente. A idéia era algo que fosse representativo do cotidiano desse povo que se alimenta de coxinha, vive atrás de um espelho sem se chamar Alice e, apesar do que todo mundo pensa, luta por powerpoints mais limpos e objetivos.

Aí eu mandei uma bobagem: peguei uma foto do Jon Steel. O Steel é autor de um livro já clássico nos dias de hoje: A Arte do Planejamento. E olha que não é algo tão em vão, não. Além disso, acaba de lançar outro, igualmente bacana: Perfect Pitch. Mas, mais importante que isso, ele tem mó cara de tiozinho.

Daí, JON IS TIO.

Era pra ser bobagem. Era pra ser só uma coisa infame pra deixar as quinze pessoas do departamento rirem um pouco da minha cara. Por um tempo, foi isso que aconteceu: a frase acompanhada da foto do Steel foi vista como uma idéia estúpida que deveria ser esquecida depois que todo mundo risse de mim.

Mas a Mari acabou levando a idéia pra mais gente rir de mim. E eis que:



Sim, a camiseta existe.

Foi lançada ontem (desculpaí, Mari, saí tarde demais, tinha que chegar cedo demais, não deu pra ir), junto com outras duas.

Dá pra pedir até terça, dia 19. Tem um prazo, sim, porque elas serão sob encomenda. A minha, soube hoje, vendeu bem. Pra pegar uma, é simples:

* São seis tamanhos: P, M, G, GG, Baby-Look M e Baby-Look G. E só sai em preto.

* Cada camiseta sai por R$49, fora o Sedex. Para SP Capital, o Sedex sai por R$10, comportando até 4 camisetas. Para outras localidades, consulte o site dos Correios.

* Para não pagar Sedex, você pode optar também por retirar nas seguintes agências paulistanas: na AlmapBBDO, com a Mariane Maciel, na JWT, com o João Gabriel, e na W/Brasil, com Newton Nagumo.

* O pedido deve ser feito por e-mail (gp@grupodeplanejamento.com.br), até terça, 19 de junho. Faça o seu pedido e o GP envia o procedimento para o pagamento da camiseta.

* A grana arrecadada ajuda o GP, que é sempre uma boa causa. É sério: com planejamento, o mundo terá propagandas mais bacanas e mais sinceras. Vai dizer que não é tudo que você sempre quis?

* Não adianta pedir pra mim, ok? Mandem pro GP.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

O Culto do Amador

The Cult of the Amateur, dizem por aí, é o livro que veio detonar com a Cauda Longa. O meu ainda não chegou, mas tenho lido bastante o Andrew Keen por aí, principalmente no seu blog.

Sei lá quem está certo ou errado, mas Keen tem um ponto: a grosso e grosseiro modo, essa cambada de vagabundo que escreve em blogs e posta vídeos do YouTube está fodendo com a cultura.

Mais quando a Amazon entregar meu exemplar.

(Mas tem na Cultura também)

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Adsense e os concorrentes - ops!

Outro dia, falei bobagem sobre o Adsense -- esse sistema de propaganda que tem aí ao lado e supostamente me renderia alguns trocados (mas ninguém nunca clica neles).

Foi quando achei o site da Panini num anúncio estampado no site de sua concorrente, a Pixel.

Hoje, fuçando no Adsense, descobri que tem um serviço que bloqueia os seus concorrentes de anunciarem em seu site. É uma tarefa hercúlea: por exemplo, tem que saber que www.assinepanini.com.br é um site da Panini. Mas enfim, faz parte. E vale se precaver.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Adsense e os concorrentes


Uma das possibilidades mais estranhas do Google AdSense, o sistema de publicidade que mantém o Google (tem aí na barra ao lado há anos, nunca me rendeu nada), é você anunciar justamente no site da concorrência.

É o que se vê na imagem acima.

Herói é um site da editora Futuro, que é sócio da Ediouro na Pixel Media.

O anúncio à direita é da Panini, empresa italiana que está nas bancas brasileiras com Marvel, DC, Turma da Mônica, mangás e outros. Uma concorre com a outra. Teve até um rolo no fim do ano passado, quando a DC quase passou os direitos de Superman & Cia para a Pixel.

Não é acaso. Os dois sites, pela lógica do Google, falam sobre o mesmo assunto. No caso, o site da Herói fala de super-heróis e está cadastrado no Adsense. A Panini vende super-heróis. O Google só une as pontas.

Simples assim.

Ou nem tanto: uma hora dessas, esse troço vai ser discutido. Anunciar no site da concorrência, por mais divertido e tentador que possa parecer a alguns no começo, não é lá tão legal assim. Principalmente quando nenhum dos lados tem culpa.

terça-feira, 5 de junho de 2007

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Bezos x Jobs

É bom para a Apple que o iPhone caia no gosto e caiba nos bolsos dos consumidores. Não que a tarefa seja simples: a N Series da Nokia está cada vez melhor. E a Motorola anunciou hoje seus Razr2, sua tentativa de ter um sucessinho depois do feio, mas devastador, Razr V3.

Mas é que outro flanco de Steve Jobs acaba de levar uma bordoada. A Amazon anunciou hoje que começa a vender em breve MP3 sem bloqueios nem proteções de direitos autorais. MP3 limpinhos, comuns, que tocam em qualquer lugar, podem ser repassados sem limites, viram CDs etc. Como a Apple, uma empresa supostamente cool, deveria fazer, mas não faz. Seu iTunes - que sequer vende para o Brasil - é todo travado, assim como os bonitinhos e ordinários iPod. Pelo menos uma major, a EMI, está com a loja de Jeff Bezos.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Classificados e a transformação da leitura

A princípio, parece que o desinteresse dos leitores em ler notícias no jornal impresso é um grande perigo para os veículos, principalmente porque a web ainda não dá conta de sustentar uma redação com sua propaganda mais barata e dispersa. Mas tem uma área fundamental dos jornais que corre ainda mais perigo: os rentáveis classificados. O E-Bay e seus similares já são um pepino, bem como o Google Adsense.

Mas vem uma verdadeira revolução dos classificados vindo por aí. O Facebook anuncia hoje, no New York Times, que vai oferecer classificados grátis.

O Estadão está preparando uma grande revolução no seu serviço. Mas a competição vai ser bem maior.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Primeira efeméride

Dia 19, os Simpsons completaram 20 anos. A família vem da época pré-internet, pré-YouTube, em que as revistas importadas ainda eram caras e pouco acessíveis. Mas a contaminação, dentro dos limites possíveis naqueles dias, foi impressionante.

A série começou como uma série de vinhetas em the Tracey Ullman Show -- que estão disponíveis no box da primeira temporada, em traços ainda mais toscos que aqueles que marcaram a série de Matt Groening em seus anos iniciais.

Quando cheguei nos Estados Unidos, em dezembro de 1989, vi as lojas tomadas pelos Simpsons. Eu não sabia o que era aquilo -- mas aqueles bichos amarelos estavam em capas de revistas, brinquedos e até num telefone na forma do Bart tosco que até hoje me arrependo de não ter comprado.

Em março de 1990, Os Simpsons estrearam na Globo. Foi quando entendi o que era a febre amarela. Também fui contaminado. Agora, passados 20 anos, falta pouco para a estréia do longa.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Desperate Housewives e a lógica das séries

Ontem à noite, com anos de atraso, acabamos de assistir à primeira temporada de Desperate Housewives, série que é volta e meia apontada como uma dessas que valoriza o roteiro e torna a TV norte-americana mais interessante que o cinema de Hollywood (visão que eu acho meio boba: há bons filmes e boas séries cercadas de muito lixo, como é típico de qualquer país do mundo).

Desperate Housewives não escapa à regra de criar uma trama que serve de metáfora para o que seus espectadores estão vivendo. Lost é sobre pessoas que escondem segredos -- e todo mundo esconde alguma coisa. Heroes é sobre um sujeito qualquer ficar especial -- e, na era do YouTube, os 15 minutos de fama dependem apenas de fazer o vídeo certo. (Já escrevi sobre isso num outro artigo, publicado no site Pop Balões.)

Desperate Housewives é sobre os medos que as mulheres de classe média sentem. Mas já falo sobre isso.

O segredo dessas séries parece ser a união entre pesquisa e roteiro na medida certa. A pesquisa chega a um insight devastador sobre o que se passa na cabeça da audiência. O roteiro transforma o insight em um programa que vale a pena ser visto, mas sem ignorar as motivações do público.

Já escrevi por aí minha hipótese de que Lost não perdeu audiência na terceira temporada porque ficou complexa ou porque não resolvia seus mistérios, e sim porque a série começou a mostrar gente sendo punida sem motivo algum. Quando um pecador sofre, o público sabe decodificar o motivo do sofrimento. O castigo divino é basilar na cultura mundial. Quando um herói sofre por uma causa, vira mártir. Quando um sujeito comum é torturado sem motivo algum, esse elo se rompe. E as pessoas começam a ver uma grande injustiça -- e ninguém se planeja para assistir a uma injustiça na quarta às 21h. Injustiças não são um programa imperdível.

Desperate Housewives é baseada em uma segmentação de público. São quatro mulheres de subúrbio, cada uma representando um perfil. Bree é a WASP anal retentiva. Susan Meyer é a bobinha. Lynette é a dona de casa. Gabrielle é a bonitona esperta. A primeira temporada é assim: Edie não está elencada entre as protagonistas, o que, pelo que entendi, muda a partir da segunda.

Edie, dentre as Donas de Casa Desesperadas, é a única que não é uma mulher de verdade, ou seja, não tem uma correspondência na vida real. Fora da TV, a mulher sexy seria a latina Gabrielle. Ser vadia nunca é um perfil, apenas um ponto de vista de um interlocutor. Ninguém se acha vadia. Edie é apenas um dos medos das mulheres -- e em especial da bobinha Susan.

Há outros medos. Bree, WASP e ainda por cima republicana, tem um filho gay, um marido sadomasoquista que é pego com prostitutas e perdeu o controle da situação. Susan tem uma filha mais esperta e madura que ela mesma. Quando encontra o homem perfeito, descobre que ele é assassino e traficante de drogas. Lynette abriu mão da carreira pelos filhos, tem um marido bobo e certinho, mas, por ficar feia, suja e desajeitada, não tem auto-confiança a ponto de acreditar que ele não está com outra. Gabrielle conseguiu subir na vida, mas perde tudo porque o marido fazia falcatruas em sua vida profissional.

Para Desperate Housewives, o grande medo de seu público é descobrir que as pessoas próximas têm uma vida paralela. É natural se a gente pensa nos terroristas de 11 de Setembro, que até o dia 10 eram vizinhos amáveis e bons colegas. O clima de desconfiança norte-americano ajuda, mas funciona até mesmo no Brasil. Não só porque as pessoas traem no escritório, mas porque seu vizinho pode ser um traficante de drogas ou seu colega de aula, de repente, está pegando a garota de quem você está a fim.

O mistério da morte de Mary Alice Young é potencialização máxima disso: um até pouco tempo pacato vizinho que de repente surge com um segredo realmente cabuloso.

Mesmo sem ver a segunda temporada, e sem nenhuma pista sobre ela, eu já diria que um dos fatores que fez com que ela fosse considerada mais fraca é a alteração do jogo de medos. Se, por um lado, a série precisa se renovar, por outro uma mexida substancial é complicada de ser feita quando se acertou o rumo.