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domingo, 30 de outubro de 2011

"Os padres..."

"Os padres... Como os conheci? Na casa do vovô, creio; tenho a obscura lembrança de olhares fugidios, dentaduras estragadas, hábitos pesados, mãos suadas que tentavam me acariciar a nuca. Que nojo. Ociosos, pertencem às classes perigosas, como os ladrões e os vagabundos. O sujeito se faz padre ou frade só para viver no ócio, e o ócio é garantido pelo número deles. Se fossem, digamos, um em mil almas, os padres teriam tanto o que fazer que não poderiam ficar de papo para o ar comendo capões. E entre os padres mais indignos o governo escolhe os mais estúpidos, e os nomeia bispos.
Você começa a tê-los ao seu redor assim que nasce, quando o batizam; reencontra-os nma escola, se seus pais tiverem sido suficientemente carolas para confiá-lo a eles; depois, vêm a primeira comunhão, o catecismo, a crisma; lá está o padre no dia do seu casamento, a lhe dizer o que você deve fazer no quarto; e no dia seguinte, no confessionário, a lhe perguntar, para poder se excitar atrás da treliça, quantas vezes você fez aquilo. Falam-lhe do sexo com horror, mas todos os dias você os vê sair de um leito incestuoso sem sequer lavar as mãos, e vão comer e beber o seu Senhor, para depois cagá-lo e mijá-lo."
Umberto Eco, trecho de O cemitério de Praga. Tradução de Joana Angélica d'Ávila Melo. Record, 2011, p. 19-21.

***

A leitura d'O cemitério é perturbadora porque o protagonista é neurótico e paranoico, cheia de opiniões extremas: odeia italianos, franceses, alemães, judeus... Você, pra simplificar, discorda e ri. Aí, de repente, se pega concordando com algumas das ideias do amalucado. E aí a tal leitura ainda mais doentia: você se flagra na demência.

sábado, 10 de setembro de 2011

Elizete Malafaia

"Elizete [Malafaia, esposa de Silas] queria saber se eu acreditava em Deus, se era cristã, se já havia lido a Bíblia, se já havia ido a algum culto evangélico, se havia sido batizada na Igreja Católica. Respondi não a todas as perguntas. Falou-se sobre Deus e o Diabo. Ela afirmou que as forças do mal se empenham a todo instante em impedir que o mundo e o ser humano se aperfeiçoem. 'Eu não tenho problema com quem não é cristão, mas você pelo menos acredita no bem e no mal?' 'Não no sentido metafísico', respondi-lhe. Não houve mais perguntas."

Daniela Pinheiro, em momento iluminado da reportagem Vitória em Cristo, perfil do pastor Silas Malafaia que está na revista Piauí deste mês.
Aqui (pra assinantes e quando a revista estiver aberta para todos).

terça-feira, 1 de julho de 2008

Leitura de férias: Como a picaretagem conquistou o mundo

Essas horas todas passadas em aeroportos, aviões e hotéis têm sido utilíssimas para ler – algo que a vida comum teima em tirar de mim.

Um dos livros que consegui, enfim, dar cabo é Como a picaretagem conquistou o mundo, um que estava prestes a ser largado sem que eu chegasse ao fim. Mas, num esforço derradeiro, voilá: cheguei ao fim.

Confesso que esperava, ao mesmo tempo, mais e menos de Francis Wheen. Explico: achei que o sujeito se dedicaria mais a essas picaretagens que a gente vê todo dia: ocultistas, numerólogos, marqueteiros baratos, profetas da internet e quejandos. Mas a verdade é que ele trata dessas patetices (que me interessavam demais) como parte de um fenômeno maior, que é a imensa quantidade de bobagens que são ditas até por gente séria (e que, por incrível que pareça, se acha séria). Gente que, por exemplo, sai por aí pregando que o iluminismo foi uma fraude que não serviu pra nada.

Pra quem, como eu, esperava um livro belicoso e rancoroso (e tiraria prazer disso), Wheen surpreende como um ensaísta arguto, denso, com um texto impecável e idéias sólidas como rocha.

*

Bem, não se pode ter tudo. Deixei o livro em casa antes de partir pra Madri, o que me impede de consultá-lo para fazer comentários mais espertos sem correr o risco de sair por aí falando bobagem. Desculpaí.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Imbecilidade sem fronteiras


Nada de crise econômica, nada de greve dos professores (a primeira na Inglaterra em anos): a matéria sobre os balões do Padre Adelir foi a terceira mais lida do site do Guardian ontem, conforme indica o ranking do jornal.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Deus do céu

O Padre Adelir é, hoje, uma figura central do catolicismo. A história bombou no feriadão, mas só fiquei sabendo dela graças a essa maravilhosa rede de informações inúteis que é o escritório de trabalho: o religioso decidiu voar preso a balões cheios de gás hélio, o tempo não estava bom, a bateria do celular pifou e o padre se perdeu. Até agora, só os balões foram encontrados.

Que eu lembre de cabeça, não tivemos, na História recente, nenhuma oportunidade como essa para provar a existência (ou mesmo a inexistência) de Deus, o deus católico. É uma momento de uma riqueza ímpar para crentes e ateus.

O motivo é simples: se o deus católico, vulgo Deus, existe, não tem por que deixar morrer um velhinho bacana e bonachão, que estava a seu serviço, voando lépido e faceiro pelos céus. Não há motivo nenhum, e não é como Joana D'Arc ou São Sebastião. Esse sujeito não vai virar mártir de coisa nenhuma, até porque seria estúpido canonizar um perfeito idiota com tendências suicidas. O deus católico deveria soprar seu vento e fazer o padrezinho encerrar sua viagem em uma planície cheia de flores.

Mas, se o velhinho aparece vivo, sem rádio, sem saber operar o GPS, depois de cair no meio do Atlântico, então quase que dá pra afirmar que foi um milagre, e um milagre quase inexplicável.

De todo jeito, olhando o caso agora, é inevitável afirmar que a fé faz, de fato, coisas incríveis. Como, por exemplo, não terem dado as buscas por encerradas.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Meu vizinho é um druida


No dia em que se comemoram (2008 - 33 =) 1975 anos da crucificação que acabou dizimando o paganismo da Europa, o Guardian publica um ensaio fotográfico bacana sobre os druidas contemporâneos.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

A era das trevas

Eu vou mais longe nessa história da Igreja Universal versus jornalistas. Sou a favor de que se retire a importância que a liberdade de credo tem na constituição. Quero fim de privilégios para todas as igrejas, inclusive a sua, seja ela qual for. Quero ter o direito de processar os charlatões por charlatanismo.

Porque, minha senhora, a gente sempre soube que a corja dos dogmas ia longe demais, e agora essa gente decidiu intimidar jornalistas e fazer ações em massa para obstruir ainda mais a atrolhada justiça.

Nem preciso dizer que isso é um desserviço para o país e até para os coitadinhos que os cultos, todos eles, declaram querer ajudar. O simples gesto de um juiz ler um processo desses e levantar o traseiro da cadeira pra ir ao armário arquivar um processo inútil desses toma tempo do cara. Juízes têm mais o que fazer do que servir aos caprichos messiânicos de religiosos e seus rebanhos.

E se essa gente intimida jornalista de jornalão, imagina só o que faria com o jornalinho da cidadezinha. Eles querem calar a boca para que ninguém mais revele as barbaridades deles. E querem instaurar uma Guerra Santa.

(Pra apoiar uma idéia dessas tem que ser alguém do quilate do Lula e do PT, por sinal, porque a catrefa rubro-escarlate agora quer fazer o mesmo!)

Amigos da Record, da Guaíba e do Correio do Povo, me desculpem, mas eu não tou do lado de vocês, porque vocês estão entre os que crêem, e eu não creio.

Não é certo que alguém diga a uma criança que deve se submeter a um conceito abstrato como um deus - se um adulto cai nessa, é um imbecil, mas ao menos é vacinado. Não se pode mais admitir que um punhado de gente ocupe as TVs para transmitir milagres a preço de dízimo que são verdadeiras piadas médicas e científicas.

Venham, me processem! É o que falta pra eu entrar numa jornada de processos sobre charlatanismo.

Crentes do Brasil, os comentários estão abertos aos seus xingamentos. Deus todo-poderoso, send in the clowns.