A Cracolândia é um problemão, óbvio. Mas ela fica um problemão ainda maior quando a gente não entende e não faz esforço pra entender. A Fernanda Eda Paz Leite fez esse esforço, aprofundou o debate e transformou em um documentário curtinho, que dura menos de meia hora.
Aprendi um monte.
(tks, Sérgio Amadeu, que mandou o link no Twitter)
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sexta-feira, 1 de junho de 2012
domingo, 18 de março de 2012
Tochtli, a culpa por isso tudo que está aí e o que me impressionou no vídeo Kony 2012
| Várias capas de Festa no Covil. Roubei do site do Villalobos |
"Se jogam uma bomba atômica em você, os sabres não servem pra nada."
Gosto dessa frase que o Juan Pablo Villalobos escreve mais pro fim de seu Festa no Covil. De certa forma, esse romance curtinho que a Companhia das Letras lançou há umas semanas pode ser definido por ela. Porque o livro fala sobre (e é narrado por) esse menino, Tochtli, que vive isolado do mundo num cartel de narcotraficantes. Tão isolado que consegue contar quantas pessoas conhece (14). Filho de Yolcault, El Rey, não sabe exatamente por que vive isolado. Nem mesmo tem discernimento para entender o que se passa ali. É protegido. E se protege. Tipo o Mito da Caverna.
Tochtli é espertinho. Tem os sabres. Mas enfrenta uma bomba atômica, que é uma montanha de informações que ele desconhece. Ele nem sabe que vive no alto de um império de podridão etc. e tudo o mais que o narcotráfico é.
***
Os últimos dias foram corridos. Queria ter lido Festa no Covil em uma sentada, mas não deu. E olha que são menos de 100 páginas com uma fonte bastante razoável.
(Já volto pro Tochtli.)
Durante a semana, também não vi o Kony, aquele que todo mundo viu e que se tornou o vídeo que se viralizou mais rápido na história da internet. Só que o vídeo tem meia hora e, desculpa, é uma colagem de imagens com muitos clichês, não consegui me empolgar na primeira tentativa.
Assim:
Vi ontem.
Minha primeira reação foi "O Banksy fez isso". E não só pelo chapa Shepard Fairey, que aparece lá pelas tantas. Mas é que o autor parece alguém que entendeu o famoso "tudo isso que está aí". Banksystyle.
Aí fiquei pensando o que fez, até agora, 82 milhões de pessoas verem esse vídeo quase por inteiro (porque o Google só conta se você se aproxima do fim).
Ou melhor: o que motivou as primeiras mil ou dez mil pessoas a verem esse vídeo quase por inteiro. Porque, a partir de algum momento, a força do hype explica o fenômeno. Mas o que leva alguém que não é mais amigo do autor a dizer: "Ei, você TEM QUE ver esse vídeo" quando esse vídeo tem meia hora, é repetitivo, é em inglês, é uma colagem caseira de imagens e que, convenhamos, não é como a Susan Boyle, que você vê rapidinho, vê de novo, chama um amigo pra ver com você e, de repente, você mesmo, sozinho, percebe que foi responsável por uns dez views.
Raiva do ditador? Vontade de participar de um evento global? Desejo de ser um super-herói por um dia? Tentativa de mandar no governo? Culpa por não saber que existia um bandidão na África? Ou, somando tudo, uma forma de tentar lidar com a culpa que se sente pelo "tudo isso que está aí"?
(Na boa: adoro a ideia de prender Kony. Contudo, é a África. Um continente inteiro que é uma tragédia. Sudão. Nigéria. Líbia. Um continente inteiro que foi colonizado. E aí um rapaz americano. Enfim.)
***
Aí voltamos ao Tochtli. Que vive ao lado de um bandidão do narcotráfico mexicano. E, pelo que sabemos, o narcotráfico mexicano não é lá muito diferente de um Kony no quesito "atrocidades".
Tochtli não enxerga que seu mundo é estranho (pra nós) porque ele já nasceu imerso em todas as mentiras. Vive num mundo de fantasias, com samurais, hipopótamos anões, chapéus e palavras difíceis. Não pode sair (e aqui o poder é bem amplo). Não chega a ser muito diferente de quem tem um colar de diamantes e não sabe como a pedraria foi extraída de uma mina África.
Quer dizer: Tochtli não enxerga, mas há um subtexto que percorre o livro que indica que ele não quer ou não pode (porque não está pronto, porque tem limitações) enxergar.
Festa no Covil virou um sucesso editorial. Ganhou rapidamente edições em diversos países, e mais outros vão publicá-lo, o que não é exatamente comum para o primeiro romance de um autor latino-americano. Não é na mesma toada de Kony. Mas Festa no Covil também é um baita sucesso global.
Fiquei com a sensação de que Festa no Covil e Kony 2012 contam histórias muito parecidas sobre a tentativa de enxergar a origem do mal que está ao nosso redor.
***
Chegamos a um ponto em que tudo pode gerar culpa. Porque conseguimos enxergar a origem do mal.
A moça vai ficar noiva. Dez sudaneses morreram extraindo o diamante do anel da mina.
O cara resolve deixar de andar de carro pra pegar metrô. O sistema é hidroenergético, mas a eletricidade alagou hectares e hectares de mata pra ser gerada.
O rapaz compra um celular. Um chinês se matou.
O sujeito põe molho de tomate no cachorro-quente. Um agricultor do interior de São Paulo perdeu os braços porque precisou aplicar o agrotóxico sem proteção adequada.
Kony 2012 e Festa no Covil falam sobre essa consciência extrema que surgiu com a proliferação de abaixo-assinados, campanhas, notícias... A informação circula mais. Estamos todos conectados. Se tudo faz mal ao mundo, todos fazemos mal. Temos que lidar com o fato de que somos todos parte do bando de Yolcault, do exército de Kony ou do board da fábrica de celulares. É um inferno. Isso significa que não basta combater milicianos africanos com vídeos no Youtube. Para fugir do inferno, também temos que aceitar a nossa própria nocividade.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
O sistema magnético disse que sou ladrão
Foi só eu atravessar a porta da livraria que o sistema de segurança apitou. Nem deu tempo de pensar “Fui eu?” que a segurança, uma moça, já veio:
– Podemos ir até a seção de atendimento ao cliente?
– Hã? – eu ainda estava tonto, tentando entender que estava sendo acusado de furto por um sistema magnético.
– Podemos ir até a seção de atendimento ao cliente? É que apitou...
Saco. Um saco. Eu tinha que ir até o atendimento ao cliente? Jura?
Pra pontuar: já era noite, estava frio, eu tinha trabalhado o dia todo, eu estava com sinusite, eu estava cheio de problemas, eu tinha acabado de gastar uma grana razoável na livraria e eu sou um bom freguês da livraria há anos (mesmo que eu tivesse roubado um livro forrado a ouro, provavelmente a rede ainda estaria lucrando com a nossa agora corrompida relação).
– Eu tenho mesmo que ir até o atendimento ao cliente?
– Não, só se o senhor quiser.
– Então eu não preciso? Isso não vai atrapalhar você?
– O senhor só vai se o senhor quiser.
Eu não estava a fim de ir mesmo. Me desculpei com a moça, só por gentileza mesmo. E fui embora.
De cara, achei bem razoável a saída. Gentil. Sei lá.
Só que logo me dei conta de que não tem como consertar um grito de pega-ladrão, mesmo quando ele é velado em forma de sistema de segurança eletrônico. Saí me sentindo mal. Porque o sistema é constrangedor. Porque é cruelmente invasivo. Porque eu não quero abrir minha mochila e ter minhas coisas revistadas.
E, afinal de contas, porque é um sistema traíra. Eu vou nessa mesma livraria três ou quatro vezes por mês, pelo menos, desde que a loja abriu. (Cheguei a ser mayor no Foursquare, se bem me lembro.) Em outras lojas da rede, vou umas dez vezes por mês. E isso, com essa frequência, há uns oito anos. Mas acho que minha primeira compra lá já tem pelo menos quinze anos.
É estatisticamente óbvio: com uma frequência tão alta, o sistema ia falhar alguma vez. Porque uma hora uma atendente não ia desmagnetizar direito. Ou outra etiqueta magnética ia interferir no sistema. Ou ia dar um bug qualquer mesmo.
Só pra comprovar que o sistema falha: uma vez, nesta mesma loja, minha mochila apitou quando eu estava ENTRANDO na loja. Um segurança foi ao meu encontro pra avisar que eu não me preocupasse, que ele já tinha avisado a central e que eu não sofreria nenhum tipo de constrangimento. Como se o apito já não fosse constrangedor o suficiente.
Não quero discutir soluções estapafúrdias (não me ocorre nenhuma justa, e livrarias devem evitar furtos de livros). Nem me fazer de vítima (não fui levado para uma sala e espancado, atitude que até recentemente era comum de se ver nos jornais).
Afinal, não é bom pra ninguém. Eu perco a paciência. A livraria perde por encher o saco do cliente – que sai falando do assunto por aí, em blog, no Twitter, ou que se irrita e não volta mais pra comprar lá. Provavelmente a livraria também ganha por evitar que alguns livros sejam roubados. E eu ganho pagando um pouco menos por um livro, porque a livraria não tem que arcar com custos de furtos nem de manter as lojas cheias de vigias e olheiros (bastam umas câmeras discretas, mais agradáveis que fiscais em cima do seu ombro).
Às vezes, parece que é porque a gente tem um blog que tem que dar solução pra tudo. Não é verdade. Tem dias em que o que resta é ficar perplexo com o fato de que o sistema magnético disse que eu sou ladrão.
– Podemos ir até a seção de atendimento ao cliente?
– Hã? – eu ainda estava tonto, tentando entender que estava sendo acusado de furto por um sistema magnético.
– Podemos ir até a seção de atendimento ao cliente? É que apitou...
Saco. Um saco. Eu tinha que ir até o atendimento ao cliente? Jura?
Pra pontuar: já era noite, estava frio, eu tinha trabalhado o dia todo, eu estava com sinusite, eu estava cheio de problemas, eu tinha acabado de gastar uma grana razoável na livraria e eu sou um bom freguês da livraria há anos (mesmo que eu tivesse roubado um livro forrado a ouro, provavelmente a rede ainda estaria lucrando com a nossa agora corrompida relação).
– Eu tenho mesmo que ir até o atendimento ao cliente?
– Não, só se o senhor quiser.
– Então eu não preciso? Isso não vai atrapalhar você?
– O senhor só vai se o senhor quiser.
Eu não estava a fim de ir mesmo. Me desculpei com a moça, só por gentileza mesmo. E fui embora.
De cara, achei bem razoável a saída. Gentil. Sei lá.
Só que logo me dei conta de que não tem como consertar um grito de pega-ladrão, mesmo quando ele é velado em forma de sistema de segurança eletrônico. Saí me sentindo mal. Porque o sistema é constrangedor. Porque é cruelmente invasivo. Porque eu não quero abrir minha mochila e ter minhas coisas revistadas.
E, afinal de contas, porque é um sistema traíra. Eu vou nessa mesma livraria três ou quatro vezes por mês, pelo menos, desde que a loja abriu. (Cheguei a ser mayor no Foursquare, se bem me lembro.) Em outras lojas da rede, vou umas dez vezes por mês. E isso, com essa frequência, há uns oito anos. Mas acho que minha primeira compra lá já tem pelo menos quinze anos.
É estatisticamente óbvio: com uma frequência tão alta, o sistema ia falhar alguma vez. Porque uma hora uma atendente não ia desmagnetizar direito. Ou outra etiqueta magnética ia interferir no sistema. Ou ia dar um bug qualquer mesmo.
Só pra comprovar que o sistema falha: uma vez, nesta mesma loja, minha mochila apitou quando eu estava ENTRANDO na loja. Um segurança foi ao meu encontro pra avisar que eu não me preocupasse, que ele já tinha avisado a central e que eu não sofreria nenhum tipo de constrangimento. Como se o apito já não fosse constrangedor o suficiente.
Não quero discutir soluções estapafúrdias (não me ocorre nenhuma justa, e livrarias devem evitar furtos de livros). Nem me fazer de vítima (não fui levado para uma sala e espancado, atitude que até recentemente era comum de se ver nos jornais).
Afinal, não é bom pra ninguém. Eu perco a paciência. A livraria perde por encher o saco do cliente – que sai falando do assunto por aí, em blog, no Twitter, ou que se irrita e não volta mais pra comprar lá. Provavelmente a livraria também ganha por evitar que alguns livros sejam roubados. E eu ganho pagando um pouco menos por um livro, porque a livraria não tem que arcar com custos de furtos nem de manter as lojas cheias de vigias e olheiros (bastam umas câmeras discretas, mais agradáveis que fiscais em cima do seu ombro).
Às vezes, parece que é porque a gente tem um blog que tem que dar solução pra tudo. Não é verdade. Tem dias em que o que resta é ficar perplexo com o fato de que o sistema magnético disse que eu sou ladrão.
quinta-feira, 17 de julho de 2008
Jovens na Metrópole
Os retratos mais óbvios de São Paulo são vários. A gente tropeça neles todos os dias, e os jornais e revistas são pródigos em reproduzi-los: restaurantes de primeira, Daslu, PCC, trânsito, helicópteros, trânsito de helicópteros...
Por isso que é uma beleza encontrar Jovens na Metrópole, livro organizado pelo José Guilherme Magnani e pela Bruna Mantese de Souza e produzido pelos integrantes do Nau - o Núcleo de Antropologia Urbana da USP.
É uma compilação de etnografias feita por estudantes, uns de graduação, outros já doutorandos, sobre a vida social dos jovens por esta coisa imensa em que a gente mora.
Eles estudam daquele comportamento coletivo que já foi chamado de "tribo". Hoje, se fala muito disso na internet, dos orkuts e myspaces. Toda semana surge nova empresa que se diz especializada em criar e invadir esses espaços, uma maluquice total. Eu não tenho muita paciência pra isso, juro. Conceitualmente, é bacana, mas a prática dessas comunidades virtuais acaba sendo um tanto quanto chata, principalmente porque elas costumam dar conta de uma única faceta, nem sempre muito verdadeira, de uma vida bem mais rica.
Enfim, enfim...
Já as etnografias do livro do Nau (ainda que irregulares, aviso!) me contaram coisas incríveis, coisas que eu nem imaginava, sobre esta cidade -- e coisas que estão aqui ao lado de casa.
Moro mais ou menos perto da Santo Amaro, que é uma avenida grande, larga, que corta a Zona Sul e é afamada por sua feiúra. E, quando se fala da feiúra da Santo Amaro, as pichações vêm logo depois dos fios de luz baixos e da calçada estreita. Mas o capítulo sobre pichações do livro muda o jogo: dá vida às palavras incompreensíveis, dá sentido (e movimento) ao ilegível e o que era feio passou a ser um combate de letras. Hoje, quando passo pela Santo Amaro e vejo as pichações, essa brigalhada de palavras faz mais sentido.
Também moro perto da Vila Olímpia, bairro de baladas mauricinhas. Fui nelas socialmente duas ou três vezes, mas outro texto do livro me decifrou um código importante que eu nunca notaria sozinho: quem é bacana desce o vidro do carro pra circular na Vila Olímpia. Porque isso favorece a interação. Mas eu sabia que o posto de gasolina da Faria Lima, o grandão ao lado do McDonald's, era um, digamos, point. Mas não sabia que existia uma Máfia do Posto, clientes que têm como privilégio isenção do rigoroso rodízio do estacionamento e até passagem secreta para sair.
Outro exemplo que me encantou foi o da sorveteria Soroko, uma casa comercial simples da rua Augusta que, a pedido da clientela straight-edge / vegan, criou uma linha de sorvetes sem leite. Vou lá.
Mais um: pelo texto, o relacionamento dos b-boys (dançarinos do rap da periferia) com os streeteiros (dançarinos de rap da colônia japonesa) dava um puta filme.
Dava pra eu ficar aqui listando as descobertas que fiz por um tempão. Mas eu não daria conta de passar todo meu fascínio com o troço, que fica por conta de o leitor enxergar neste texto bobo, visivelmente encantado, de quem gostou muito do que leu.
Por isso que é uma beleza encontrar Jovens na Metrópole, livro organizado pelo José Guilherme Magnani e pela Bruna Mantese de Souza e produzido pelos integrantes do Nau - o Núcleo de Antropologia Urbana da USP.
É uma compilação de etnografias feita por estudantes, uns de graduação, outros já doutorandos, sobre a vida social dos jovens por esta coisa imensa em que a gente mora.
Eles estudam daquele comportamento coletivo que já foi chamado de "tribo". Hoje, se fala muito disso na internet, dos orkuts e myspaces. Toda semana surge nova empresa que se diz especializada em criar e invadir esses espaços, uma maluquice total. Eu não tenho muita paciência pra isso, juro. Conceitualmente, é bacana, mas a prática dessas comunidades virtuais acaba sendo um tanto quanto chata, principalmente porque elas costumam dar conta de uma única faceta, nem sempre muito verdadeira, de uma vida bem mais rica.
Enfim, enfim...
Já as etnografias do livro do Nau (ainda que irregulares, aviso!) me contaram coisas incríveis, coisas que eu nem imaginava, sobre esta cidade -- e coisas que estão aqui ao lado de casa.
Moro mais ou menos perto da Santo Amaro, que é uma avenida grande, larga, que corta a Zona Sul e é afamada por sua feiúra. E, quando se fala da feiúra da Santo Amaro, as pichações vêm logo depois dos fios de luz baixos e da calçada estreita. Mas o capítulo sobre pichações do livro muda o jogo: dá vida às palavras incompreensíveis, dá sentido (e movimento) ao ilegível e o que era feio passou a ser um combate de letras. Hoje, quando passo pela Santo Amaro e vejo as pichações, essa brigalhada de palavras faz mais sentido.
Também moro perto da Vila Olímpia, bairro de baladas mauricinhas. Fui nelas socialmente duas ou três vezes, mas outro texto do livro me decifrou um código importante que eu nunca notaria sozinho: quem é bacana desce o vidro do carro pra circular na Vila Olímpia. Porque isso favorece a interação. Mas eu sabia que o posto de gasolina da Faria Lima, o grandão ao lado do McDonald's, era um, digamos, point. Mas não sabia que existia uma Máfia do Posto, clientes que têm como privilégio isenção do rigoroso rodízio do estacionamento e até passagem secreta para sair.
Outro exemplo que me encantou foi o da sorveteria Soroko, uma casa comercial simples da rua Augusta que, a pedido da clientela straight-edge / vegan, criou uma linha de sorvetes sem leite. Vou lá.
Mais um: pelo texto, o relacionamento dos b-boys (dançarinos do rap da periferia) com os streeteiros (dançarinos de rap da colônia japonesa) dava um puta filme.
Dava pra eu ficar aqui listando as descobertas que fiz por um tempão. Mas eu não daria conta de passar todo meu fascínio com o troço, que fica por conta de o leitor enxergar neste texto bobo, visivelmente encantado, de quem gostou muito do que leu.
terça-feira, 1 de julho de 2008
Leitura de férias: Como a picaretagem conquistou o mundo
Essas horas todas passadas em aeroportos, aviões e hotéis têm sido utilíssimas para ler – algo que a vida comum teima em tirar de mim.
Um dos livros que consegui, enfim, dar cabo é Como a picaretagem conquistou o mundo, um que estava prestes a ser largado sem que eu chegasse ao fim. Mas, num esforço derradeiro, voilá: cheguei ao fim.
Confesso que esperava, ao mesmo tempo, mais e menos de Francis Wheen. Explico: achei que o sujeito se dedicaria mais a essas picaretagens que a gente vê todo dia: ocultistas, numerólogos, marqueteiros baratos, profetas da internet e quejandos. Mas a verdade é que ele trata dessas patetices (que me interessavam demais) como parte de um fenômeno maior, que é a imensa quantidade de bobagens que são ditas até por gente séria (e que, por incrível que pareça, se acha séria). Gente que, por exemplo, sai por aí pregando que o iluminismo foi uma fraude que não serviu pra nada.
Pra quem, como eu, esperava um livro belicoso e rancoroso (e tiraria prazer disso), Wheen surpreende como um ensaísta arguto, denso, com um texto impecável e idéias sólidas como rocha.
*
Bem, não se pode ter tudo. Deixei o livro em casa antes de partir pra Madri, o que me impede de consultá-lo para fazer comentários mais espertos sem correr o risco de sair por aí falando bobagem. Desculpaí.
Um dos livros que consegui, enfim, dar cabo é Como a picaretagem conquistou o mundo, um que estava prestes a ser largado sem que eu chegasse ao fim. Mas, num esforço derradeiro, voilá: cheguei ao fim.
Confesso que esperava, ao mesmo tempo, mais e menos de Francis Wheen. Explico: achei que o sujeito se dedicaria mais a essas picaretagens que a gente vê todo dia: ocultistas, numerólogos, marqueteiros baratos, profetas da internet e quejandos. Mas a verdade é que ele trata dessas patetices (que me interessavam demais) como parte de um fenômeno maior, que é a imensa quantidade de bobagens que são ditas até por gente séria (e que, por incrível que pareça, se acha séria). Gente que, por exemplo, sai por aí pregando que o iluminismo foi uma fraude que não serviu pra nada.
Pra quem, como eu, esperava um livro belicoso e rancoroso (e tiraria prazer disso), Wheen surpreende como um ensaísta arguto, denso, com um texto impecável e idéias sólidas como rocha.
*
Bem, não se pode ter tudo. Deixei o livro em casa antes de partir pra Madri, o que me impede de consultá-lo para fazer comentários mais espertos sem correr o risco de sair por aí falando bobagem. Desculpaí.
sábado, 31 de maio de 2008
Policiais torturam jornalistas. Você apoiou?
"O interrogatório e as torturas duraram sete horas e meia, período em que a equipe foi submetida a socos e pontapés, choques elétricos, sufocamento com saco plástico, roleta-russa, tortura psicológica e todo tipo de situação vexatória. Em um dos intervalos entre as sessões de agressões, a equipe identificou o barulho de sirenes iguais às das patrulhas policiais rondando o cativeiro. Mas os homens que chegavam ao local, em vez de socorrer as vítimas, eram solidários aos carrascos."
A milícia da Favela do Batan, em Realengo, no Rio, torturou uma repórter, um fotógrafo e o motorista da equipe, todos do jornal O Dia. A história está contada em detalhes na edição de hoje do jornal.
Milícia, no caso, é a reunião de policiais, bombeiros e funcionários da Segurança Pública, um grupo que, em tese, defende a favela dos traficantes. Seriam a lei onde a lei de fato não chega. E faria com quem rompe essa falsa lei o que a ler de verdade não permite: torturar e matar.
A lógica é torta. Uma frase de um dos torturadores, reproduzida na reportagem, é de lascar: "Existem muitos policiais corruptos, mas nós não somos corruptos. A gente se mata de trabalhar aqui, leva tiro de vagabundo para vocês chegarem e estragar o projeto social que estamos fazendo. Nós não somos bandidos".
São, sim. Claro que são.
Não por coincidência, tudo isso lembra os métodos do Capitão Nascimento, personagem do filme Tropa de Elite -- que virou herói nacional. Ano passado, a classe média aplaudiu de pé nos cinemas a tortura e a morte indiscriminada de "bandidos" pela banda podre da polícia. Na votação do site de cinema Omelete que elegeu "os melhores de 2007", por exemplo, o policial corrompido foi indicado (pela equipe do site) e eleito (pelos leitores) o herói do ano. O caso do Omelete não foi o único caso. Só o exemplo de que lembrei, justamente porque acompanho o trabalho do site -- que se deixou levar, quero crer, pela onda.
É esse tipo de pensamento inocente, que não avalia as conseqüências éticas dos aplausos, que fomenta a lógica torpe do mundo do crime. E leva, por tabela, a situações como essa, é endêmica.
O caso dos jornalistas d'O Dia tem que servir para alguma coisa. Alguém tem que dar um basta nessa palhaçada.
A milícia da Favela do Batan, em Realengo, no Rio, torturou uma repórter, um fotógrafo e o motorista da equipe, todos do jornal O Dia. A história está contada em detalhes na edição de hoje do jornal.
Milícia, no caso, é a reunião de policiais, bombeiros e funcionários da Segurança Pública, um grupo que, em tese, defende a favela dos traficantes. Seriam a lei onde a lei de fato não chega. E faria com quem rompe essa falsa lei o que a ler de verdade não permite: torturar e matar.
A lógica é torta. Uma frase de um dos torturadores, reproduzida na reportagem, é de lascar: "Existem muitos policiais corruptos, mas nós não somos corruptos. A gente se mata de trabalhar aqui, leva tiro de vagabundo para vocês chegarem e estragar o projeto social que estamos fazendo. Nós não somos bandidos".
São, sim. Claro que são.
Não por coincidência, tudo isso lembra os métodos do Capitão Nascimento, personagem do filme Tropa de Elite -- que virou herói nacional. Ano passado, a classe média aplaudiu de pé nos cinemas a tortura e a morte indiscriminada de "bandidos" pela banda podre da polícia. Na votação do site de cinema Omelete que elegeu "os melhores de 2007", por exemplo, o policial corrompido foi indicado (pela equipe do site) e eleito (pelos leitores) o herói do ano. O caso do Omelete não foi o único caso. Só o exemplo de que lembrei, justamente porque acompanho o trabalho do site -- que se deixou levar, quero crer, pela onda.
É esse tipo de pensamento inocente, que não avalia as conseqüências éticas dos aplausos, que fomenta a lógica torpe do mundo do crime. E leva, por tabela, a situações como essa, é endêmica.
O caso dos jornalistas d'O Dia tem que servir para alguma coisa. Alguém tem que dar um basta nessa palhaçada.
domingo, 4 de maio de 2008
Homem de Ferro

Esse sujeito de armadura é o super-herói do momento, o Homem de Ferro. Seu filme está passando nos cinemas, e tem recebido elogios, ainda que moderados, da crítica.
A culpa é do moço logo abaixo, Robert Downey Jr. O ator passou uns anos no ostracismo depois de montar uma memorável coleção de merdas realizadas. É uma seleção tão primorosa que suas merdas estavam expostas em uma sala especial, como se fossem troféus, e todo mundo que pensava no cara logo lembrava das suas muitas merdas.
Homem de Ferro é sua redenção. No filme, nosso Downey Junior interpreta Tony Stark, um bilionário, mulherengo, ególatra, a dois passos do alcoolismo e, pra encerrar a lista dos adjetivos pejoraticos, dono da fábrica de armamentos que está fodendo com a população afegã porque supre também para as milícias terroristas. Mas Stark é seqüestrado e aprende que, a exemplo de Downey Júnior, estava fazendo uma coleção memorável de merda. E resolve se redimir usando a armadura para combater os bandidos que vendem armas (ou seja, sua própria firma) e as milícias terroristas afegãs.

Tenho uma hipótese que Downey Junior só funciona porque está apoiado em uma atriz que mata a pau, Gwyneth Paltrow -- por sinal, também sumida. Como Pepper Potts, assistente pessoal de Tony Stark, ela ressurge num papel delicioso. É ela quem faz a ponte entre o bilionário excêntrico e o resto do mundo.
A dupla, ou casal, sei lá, atua num roteiro com boas sacadas, que servem de contraponto à arrastada história da origem do super-herói de ferro -- ou melhor, uma liga de ouro e titânio.
Mas, e sempre tem um "mas", nem tudo é uma duplinha de velhos galãs em climinhazinho de romance.
Há uma cena que me incomoda desde o momento que eu vi, na tarde de sexta, mas que a parafernália do filme ofuscou até ontem.
Depois de se redimir e virar super-herói, Stark vai até o Afeganistão, mata uns terroristas, salva uns miseráveis de um bandidão e, no fim da cena, entrega o sujeito para os aldeões, dizendo:
-- Agora é com vocês!
Macacos em mordam se isso não é uma apologia ao linchamento, como se linchar e fazer justiça com as próprias mãos fosse uma coisa bacana.
Não é.
Há uma boa discussão sobre o tema na bela entrevista que a Flávia Tavares, do Estadão, fez com o sociólogo José de Souza Martins há alguns domingos.
Mas é o que o filme mostra: depois de se redimir e (quase) virar um modelo a ser seguido, ele passa a acreditar na justiça do olho por olho, no toma lá, dá cá, na vingança insana da coletividade e no fim da civilização.
Diferentemente de outras obras que retratam a violência, como Oldboy, Homem de Ferro não abre um fórum para a discussão do linchamento. Embora muitos assuntos sejam debatidos, não há nenhuma reflexão sobre o tema no subtexto do longa.
*
Voltando ao tema da classificação indicativa da MPAA, já discutido no post sobre o documentário This film is not yet rated, Homem de Ferro é, segundo a MPAA, PG-13. "For action violence and some sensuality", diz a avaliação.
*
Ontem, caminhando na Paulista, percebi que os camelôs de DVDs piratas anunciavam Homem de Ferro como o grande lançamento do feriadão.
segunda-feira, 28 de abril de 2008
This film is not yet rated
Já fazia uns meses que eu estava para ver This Film Is Not Yet Rated
, um documentário bem elogiado sobre os bastidores da classificação etária dos filmes de Hollywood. Assisti ontem à tarde. O longa-metragem fala daquele sistema da MPAA que vai do G, de General Audiences (ou seja, pra todo mundo), ao NC-17, dado aos filmes a que nenhum ser menor de 17 anos deveria assistir de forma nenhuma.
O tema é polêmico por si só. Afinal, o que a MPAA de Jack Valenti faz é uma espécie de censura. E, ainda por cima, é um gesto que pode acabar com a carreira de um filme no mercado norte-americano.
É justamente na classificação mais amaldiçoada pelos produtores que o filme se debruça: a temível NC-17. Um filme com uma avaliação dessas fica praticamente fora do mundo supostamente mágico do multiplex, justamente onde vão os freqüentadores assíduos das salas norte-americanas. Pior que isso, só X, que nem entra na lista, porque Hollywood e a pornografia não se nada dão bem.
Um dos pontos que o documentário de Kirby Dick levanta é o peso desproporcional que a MPAA daria aos dois fatores centrais da classificação: sexo e violência.
Haveria, pelo visto, uma permissividade maior em relação à violência -- em especial a mortes por tiro estranhamente sem sangue. Sexo já é mais difícil, ainda mais se envolver algum tipo de homossexualismo e nu frontal masculino.
Daí que Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci, é um filme NC-17, exceto em sua versão reeditada (que deve ter uns 15 minutos).
Mas uma sangria desatada como Sexta-Feira 13 é R.
Claro, a escolha tem um fundo cultural tipicamente norte-americano, em que a sexualidade é vista de uma forma que soa estranha para quem está de fora. E essa perspectiva distorcida está em todo lugar. Basta ver os super-heróis -- falei um pouco sobre isso na resenha da série Omac, que sai no Brasil na revista Universo DC.
Falando assim, até dá para ficar com a impressão de que isso não afeta nossa vidinha aqui do outro lado do Equador. Mas não é bem assim. A carreira internacional de muitos filmes está diretamente relacionada com o seu desempenho no mercado norte-americano. Além disso, os produtores acabam realizando mais filmes com tiroteio do que com sexo saudável. O resultado está na programação dos cinemas deles, mas também nos nossos.
A categorização é feita por um comitê designado pela MPAA. Sem especialistas, o grupo seria formado apenas por pais de crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos. A avaliação é secreta, e o nome dos jurados não é divulgado ao público.
E é aí que vem a sacada do filme: Kirby Dick contrata uma dupla de detetives (a propósito, duas senhoras homossexuais) para descobrir quem de fato faz parte do comitê e decide o que os norte-americanos podem ou não assistir. O resultado é pra lá de suspeito: tem pais de filhos mais velhos do que a faixa etária divulgada, além de um sujeito que não tem filhos!
No fim do processo (mas não do filme!), o documentário é enviado para avaliação do MPAA.
This film is not yet rated ainda traz outras coisas interessantes. Há depoimentos de diretores e produtores (entre eles, Kevin Smith, Matt Stone e o mais que polêmico John Waters) e alguns mergulhos rasos na relação dos estúdios com Washington.
domingo, 20 de abril de 2008
Prevenir e remediar
A pílula anticoncepcional mudou mais do que os costumes. Ela transformou também um velho ditado popular. Hoje em dia, no caso de gravidez, prevenir é remediar.
sábado, 19 de abril de 2008
Paranóia
Vi ontem. No pára-choque traseiro do carrinho de um catador de lixo, pichado em tinta preta, estava escrito:
"NÃO ME SIGA"
Eu ia tirar uma foto. Mas fiquei com medo.
"NÃO ME SIGA"
Eu ia tirar uma foto. Mas fiquei com medo.
Espírito jovem
Teen Spirit é o nome de um desodorante norte-americano. É a ele que cheira o single responsável pelo estouro do Nirvana, Smells like Teen Spirit. Em 1991, parecia que Kurt Cobain tinha feito o deboche definitivo a respeito da busca pelo espírito jovem, mais um Santo Graal dos nossos dias. Mas não foi suficiente.
A Cássia reportou ontem em seu blog que, em Porto Alegre, alguns ônibus teriam trocado a tradicional plaquinha que diz "Assento reservado para idosos, gestantes e deficientes etc." por "Os assentos vermelhos são preferenciais para jovens de espírito. Com idade acima de 60 anos".
Nem preciso dizer o quanto isso é ridículo -- e provavelmente ilegal, mas mais do que tudo, imoral. Quando eu era mais moço, o normal era dizer que ao menos o envelhecimento nos conduziria a uma idade da razão. Hoje, a quem passa dos 30, não resta valor sequer no espírito da maturidade.
A Cássia reportou ontem em seu blog que, em Porto Alegre, alguns ônibus teriam trocado a tradicional plaquinha que diz "Assento reservado para idosos, gestantes e deficientes etc." por "Os assentos vermelhos são preferenciais para jovens de espírito. Com idade acima de 60 anos".
Nem preciso dizer o quanto isso é ridículo -- e provavelmente ilegal, mas mais do que tudo, imoral. Quando eu era mais moço, o normal era dizer que ao menos o envelhecimento nos conduziria a uma idade da razão. Hoje, a quem passa dos 30, não resta valor sequer no espírito da maturidade.
quarta-feira, 16 de abril de 2008
Fatos da idade avançada
Outro dia, andando pela rua, vinham em minha direção três garotas, todas assim From UK, definitivamente jovens. Quando nos cruzamos, ouvi uma frase da conversa:
-- Hoje em dia é raro achar homem que não se depila.
-- Hoje em dia é raro achar homem que não se depila.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
A era das trevas
Eu vou mais longe nessa história da Igreja Universal versus jornalistas. Sou a favor de que se retire a importância que a liberdade de credo tem na constituição. Quero fim de privilégios para todas as igrejas, inclusive a sua, seja ela qual for. Quero ter o direito de processar os charlatões por charlatanismo.
Porque, minha senhora, a gente sempre soube que a corja dos dogmas ia longe demais, e agora essa gente decidiu intimidar jornalistas e fazer ações em massa para obstruir ainda mais a atrolhada justiça.
Nem preciso dizer que isso é um desserviço para o país e até para os coitadinhos que os cultos, todos eles, declaram querer ajudar. O simples gesto de um juiz ler um processo desses e levantar o traseiro da cadeira pra ir ao armário arquivar um processo inútil desses toma tempo do cara. Juízes têm mais o que fazer do que servir aos caprichos messiânicos de religiosos e seus rebanhos.
E se essa gente intimida jornalista de jornalão, imagina só o que faria com o jornalinho da cidadezinha. Eles querem calar a boca para que ninguém mais revele as barbaridades deles. E querem instaurar uma Guerra Santa.
(Pra apoiar uma idéia dessas tem que ser alguém do quilate do Lula e do PT, por sinal, porque a catrefa rubro-escarlate agora quer fazer o mesmo!)
Amigos da Record, da Guaíba e do Correio do Povo, me desculpem, mas eu não tou do lado de vocês, porque vocês estão entre os que crêem, e eu não creio.
Não é certo que alguém diga a uma criança que deve se submeter a um conceito abstrato como um deus - se um adulto cai nessa, é um imbecil, mas ao menos é vacinado. Não se pode mais admitir que um punhado de gente ocupe as TVs para transmitir milagres a preço de dízimo que são verdadeiras piadas médicas e científicas.
Venham, me processem! É o que falta pra eu entrar numa jornada de processos sobre charlatanismo.
Crentes do Brasil, os comentários estão abertos aos seus xingamentos. Deus todo-poderoso, send in the clowns.
Porque, minha senhora, a gente sempre soube que a corja dos dogmas ia longe demais, e agora essa gente decidiu intimidar jornalistas e fazer ações em massa para obstruir ainda mais a atrolhada justiça.
Nem preciso dizer que isso é um desserviço para o país e até para os coitadinhos que os cultos, todos eles, declaram querer ajudar. O simples gesto de um juiz ler um processo desses e levantar o traseiro da cadeira pra ir ao armário arquivar um processo inútil desses toma tempo do cara. Juízes têm mais o que fazer do que servir aos caprichos messiânicos de religiosos e seus rebanhos.
E se essa gente intimida jornalista de jornalão, imagina só o que faria com o jornalinho da cidadezinha. Eles querem calar a boca para que ninguém mais revele as barbaridades deles. E querem instaurar uma Guerra Santa.
(Pra apoiar uma idéia dessas tem que ser alguém do quilate do Lula e do PT, por sinal, porque a catrefa rubro-escarlate agora quer fazer o mesmo!)
Amigos da Record, da Guaíba e do Correio do Povo, me desculpem, mas eu não tou do lado de vocês, porque vocês estão entre os que crêem, e eu não creio.
Não é certo que alguém diga a uma criança que deve se submeter a um conceito abstrato como um deus - se um adulto cai nessa, é um imbecil, mas ao menos é vacinado. Não se pode mais admitir que um punhado de gente ocupe as TVs para transmitir milagres a preço de dízimo que são verdadeiras piadas médicas e científicas.
Venham, me processem! É o que falta pra eu entrar numa jornada de processos sobre charlatanismo.
Crentes do Brasil, os comentários estão abertos aos seus xingamentos. Deus todo-poderoso, send in the clowns.
sexta-feira, 7 de dezembro de 2007
Arroz grátis
Viciante e virtuoso, o Free Rice é um site em que você doa um punhado de arroz a pessoas pobres cada vez que acerta o significado de uma palavra. Em inglês, sim.
quinta-feira, 29 de novembro de 2007
Capitão Nascimento é moleque
No meio de todo o bafafá de Tropa de Elite, pega até mal que não se fale mais do lançamento de O Bandido da Luz Vermelha em DVD. A obra-prima de Rogério Sganzerla é de certa maneira o avô do Tropa de Elite, porque esfregou na nossa cara o que éramos lá atrás -- e de onde viramos o que somos e como tudo isso deu no que deu.Em um manifesto feito na época (republicado aqui pela Contracampo), o diretor escreveu: "Orson Welles me ensinou a não separar a política do crime".
Não vejo como uma discussão possa ser mais atual.
quarta-feira, 28 de novembro de 2007
O trem e o cinema
Quando eu conto que andei de trem pela Europa nos últimos dias, uma das reações mais comuns no Brasil é falar sobre a impressionante (sic) honestidade dos europeus, que pagam a passagem correta sabendo que, muitas vezes, em muitos trechos, não haverá conferência. E é fato: na linha do Thalys entre Amsterdã e Paris, nossos bilhetes foram checados logo na saída e um pouco antes da chegada. Dava pra viajar na boa entre Bruxelas e toda a Antuérpia sem pagar nada.
Sem se dar conta, a gente fala como se isso fosse coisa de outro mundo, o que é um pouco surreal e um tanto revelador sobre o país em que vivemos.
E sempre vem o comentário arrebatador: dizem que um sistema tão livre jamais funcionaria aqui. O que, convenhamos, é verdade. Nossa tendência, porém, é creditar a culpa ao pobre coitado que passa por baixo da roleta do ônibus, e não àqueles que estão mais próximos de nós e que usam carteirinha de estudante falsificada (e por favor notem que me refiro apenas às falsas).
Sei que arregimento pequenas hordas de detratores a cada vez que toco nesse assunto. Sei que sôo antipático. Mas é um fato: por que esperar que gente com bom salário pague uma passagem de ônibus se não paga sequer a outra metade do ingresso do Cinemark? A lógica, me desculpem os pilantras, é a mesma. E quem paga mais caro pra ver um filme sou eu e o pequeno punhado de gente que acha que vive num país que merece ter solução.
Sem se dar conta, a gente fala como se isso fosse coisa de outro mundo, o que é um pouco surreal e um tanto revelador sobre o país em que vivemos.
E sempre vem o comentário arrebatador: dizem que um sistema tão livre jamais funcionaria aqui. O que, convenhamos, é verdade. Nossa tendência, porém, é creditar a culpa ao pobre coitado que passa por baixo da roleta do ônibus, e não àqueles que estão mais próximos de nós e que usam carteirinha de estudante falsificada (e por favor notem que me refiro apenas às falsas).
Sei que arregimento pequenas hordas de detratores a cada vez que toco nesse assunto. Sei que sôo antipático. Mas é um fato: por que esperar que gente com bom salário pague uma passagem de ônibus se não paga sequer a outra metade do ingresso do Cinemark? A lógica, me desculpem os pilantras, é a mesma. E quem paga mais caro pra ver um filme sou eu e o pequeno punhado de gente que acha que vive num país que merece ter solução.
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
Greenpeace no Pará
Está rolando a maior treta no Pará: o Greenpeace tentou tirar uma tora de madeira queimada de 13 metros para excursionar pelo país e denunciar a devastação da Amazonia. Não deu: umas 300 pessoas cercaram os oito ativistas, informa o site da ONG. Eles estão cercados na sede do Ibama.
Para dar uma noção a vocês do que está rolando, o Ibama chegou a cancelar a autorização de transporte da árvore para "não agravar o conflito". Coisa de governo. Não tem exército por lá, não?
É surreal.
Mas mostra ao menos que quem está depredando a Amazônia está se sentindo ameaçado.
Para dar uma noção a vocês do que está rolando, o Ibama chegou a cancelar a autorização de transporte da árvore para "não agravar o conflito". Coisa de governo. Não tem exército por lá, não?
É surreal.
Mas mostra ao menos que quem está depredando a Amazônia está se sentindo ameaçado.
domingo, 14 de outubro de 2007
CQD: Tropa de Elite e os piratas
"Nas apreensões, vimos que drogas, munições e componentes de armamentos estavam nos mesmos carregamentos de produtos piratas."
Alexandre Cruz, presidente do Fórum Nacional Contra a Pirataria e a Ilegalidade, em matéria da Folha que fala sobre o esquema do tráfico de DVDs vendidos em camelô.
Também saiu um texto bacaninha sobre o roubo de Rolex organizado.
A riqueza também é tema da New York Times Magazine de hoje.
sexta-feira, 5 de outubro de 2007
Tropa de Elite no cinema
Acabei de chegar de uma sessão do Tropa de Elite no cinema. Não tinha visto em DVD. Nem naquele link do Youtube -- que saiu do ar, mas antes reuniu toda a sorte de comentários medonhos que falavam muito sobre este Brasilzinho.
É curioso: todo mundo fala das drogas, do quanto o tráfico fode com tudo, mas passou meio batido o fato de que os vendedores de DVDs piratas, responsáveis pela divulgação precoce e acelerada do filme, alimentam o mesmíssimo sistema criminoso.
Logo, não adianta só o amigo aí parar de se chapar. O troço se alastra pelo simpático barzinho que faz o jogo do bicho, pela loja de grife bacanésima que lava dinheiro, pelos iPods baratinhos do site de leilões, pelo cursinho que faz vista grossa pro ecônomo do bar que vende maconha e por aí vai.
E, enfim, o problema é que, neste país, a sensação que dá é que a gente tem é que parar com o país todo pra resolver a situação.
É curioso: todo mundo fala das drogas, do quanto o tráfico fode com tudo, mas passou meio batido o fato de que os vendedores de DVDs piratas, responsáveis pela divulgação precoce e acelerada do filme, alimentam o mesmíssimo sistema criminoso.
Logo, não adianta só o amigo aí parar de se chapar. O troço se alastra pelo simpático barzinho que faz o jogo do bicho, pela loja de grife bacanésima que lava dinheiro, pelos iPods baratinhos do site de leilões, pelo cursinho que faz vista grossa pro ecônomo do bar que vende maconha e por aí vai.
E, enfim, o problema é que, neste país, a sensação que dá é que a gente tem é que parar com o país todo pra resolver a situação.
terça-feira, 2 de outubro de 2007
Ainda Orangotangos
Semana que vem começa a temporada de lançamentos de Ainda Orangotangos, livro do Paulo Scott que era do catálogo da Livros do Mal, mas ganha nova edição pela Bertrand. Os dados estão todos no convite aí em cima -- clica que aumenta.
Quando esses contos saíram pela primeira vez, escrevi na Zero Hora sobre a importância deles: está ali o primeiro registro ficcional de que a noite de Porto Alegre se mudou do Bonfim para a Cidade Baixa. É o Êxodus da literatura gaúcha contemporânea, até porque trocar a Lancheria do Parque pelo Ossip é um processo social bem mais complexo do que parece.
(A propósito: o Gustavo Spolidoro fez um filme baseado no livro. Já está rolando pelos festivais.)
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