Mostrando postagens com marcador cultura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cultura. Mostrar todas as postagens

domingo, 18 de março de 2012

Tochtli, a culpa por isso tudo que está aí e o que me impressionou no vídeo Kony 2012

Várias capas de Festa no Covil. Roubei do site do Villalobos


"Se jogam uma bomba atômica em você, os sabres não servem pra nada."

Gosto dessa frase que o Juan Pablo Villalobos escreve mais pro fim de seu Festa no Covil. De certa forma, esse romance curtinho que a Companhia das Letras lançou há umas semanas pode ser definido por ela. Porque o livro fala sobre (e é narrado por) esse menino, Tochtli, que vive isolado do mundo num cartel de narcotraficantes. Tão isolado que consegue contar quantas pessoas conhece (14). Filho de Yolcault, El Rey, não sabe exatamente por que vive isolado. Nem mesmo tem discernimento para entender o que se passa ali. É protegido. E se protege. Tipo o Mito da Caverna.

Tochtli é espertinho. Tem os sabres. Mas enfrenta uma bomba atômica, que é uma montanha de informações que ele desconhece. Ele nem sabe que vive no alto de um império de podridão etc. e tudo o mais que o narcotráfico é.

***

Os últimos dias foram corridos. Queria ter lido Festa no Covil em uma sentada, mas não deu. E olha que são menos de 100 páginas com uma fonte bastante razoável.

(Já volto pro Tochtli.)

Durante a semana, também não vi o Kony, aquele que todo mundo viu e que se tornou o vídeo que se viralizou mais rápido na história da internet. Só que o vídeo tem meia hora e, desculpa, é uma colagem de imagens com muitos clichês, não consegui me empolgar na primeira tentativa.

Assim:


Vi ontem.

Minha primeira reação foi "O Banksy fez isso". E não só pelo chapa Shepard Fairey, que aparece lá pelas tantas. Mas é que o autor parece alguém que entendeu o famoso "tudo isso que está aí". Banksystyle.

Aí fiquei pensando o que fez, até agora, 82 milhões de pessoas verem esse vídeo quase por inteiro (porque o Google só conta se você se aproxima do fim).

Ou melhor: o que motivou as primeiras mil ou dez mil pessoas a verem esse vídeo quase por inteiro. Porque, a partir de algum momento, a força do hype explica o fenômeno. Mas o que leva alguém que não é mais amigo do autor a dizer: "Ei, você TEM QUE ver esse vídeo" quando esse vídeo tem meia hora, é repetitivo, é em inglês, é uma colagem caseira de imagens e que, convenhamos, não é como a Susan Boyle, que você vê rapidinho, vê de novo, chama um amigo pra ver com você e, de repente, você mesmo, sozinho, percebe que foi responsável por uns dez views.

Raiva do ditador? Vontade de participar de um evento global? Desejo de ser um super-herói por um dia? Tentativa de mandar no governo? Culpa por não saber que existia um bandidão na África? Ou, somando tudo, uma forma de tentar lidar com a culpa que se sente pelo "tudo isso que está aí"?

(Na boa: adoro a ideia de prender Kony. Contudo, é a África. Um continente inteiro que é uma tragédia. Sudão. Nigéria. Líbia. Um continente inteiro que foi colonizado. E aí um rapaz americano. Enfim.)

***


Aí voltamos ao Tochtli. Que vive ao lado de um bandidão do narcotráfico mexicano. E, pelo que sabemos, o narcotráfico mexicano não é lá muito diferente de um Kony no quesito "atrocidades".

Tochtli não enxerga que seu mundo é estranho (pra nós) porque ele já nasceu imerso em todas as mentiras. Vive num mundo de fantasias, com samurais, hipopótamos anões, chapéus e palavras difíceis. Não pode sair (e aqui o poder é bem amplo). Não chega a ser muito diferente de quem tem um colar de diamantes e não sabe como a pedraria foi extraída de uma mina África.

Quer dizer: Tochtli não enxerga, mas há um subtexto que percorre o livro que indica que ele não quer ou não pode (porque não está pronto, porque tem limitações) enxergar.

Festa no Covil virou um sucesso editorial. Ganhou rapidamente edições em diversos países, e mais outros vão publicá-lo, o que não é exatamente comum para o primeiro romance de um autor latino-americano. Não é na mesma toada de Kony. Mas Festa no Covil também é um baita sucesso global.

Fiquei com a sensação de que Festa no Covil e Kony 2012 contam histórias muito parecidas sobre a tentativa de enxergar a origem do mal que está ao nosso redor.

***

Chegamos a um ponto em que tudo pode gerar culpa. Porque conseguimos enxergar a origem do mal.

A moça vai ficar noiva. Dez sudaneses morreram extraindo o diamante do anel da mina.

O cara resolve deixar de andar de carro pra pegar metrô. O sistema é hidroenergético, mas a eletricidade alagou hectares e hectares de mata pra ser gerada.

O rapaz compra um celular. Um chinês se matou.

O sujeito põe molho de tomate no cachorro-quente. Um agricultor do interior de São Paulo perdeu os braços porque precisou aplicar o agrotóxico sem proteção adequada.

Kony 2012 e Festa no Covil falam sobre essa consciência extrema que surgiu com a proliferação de abaixo-assinados, campanhas, notícias... A informação circula mais. Estamos todos conectados. Se tudo faz mal ao mundo, todos fazemos mal. Temos que lidar com o fato de que somos todos parte do bando de Yolcault, do exército de Kony ou do board da fábrica de celulares. É um inferno. Isso significa que não basta combater milicianos africanos com vídeos no Youtube. Para fugir do inferno, também temos que aceitar a nossa própria nocividade.

domingo, 11 de setembro de 2011

Últimos dias

"E o reboot da DC, hm?"

Filmes
Submarino
Um conto chinês

Programa duplo Nelson Leirner
Assim é se lhe parece (documentário)
Nelson Leirner 1961 - 2011 - 50 anos (retrospectiva)

Instalação
Rio Oir, de Cildo Meirelles

HQ
Animal Man # 1
Action Comics # 1
Les yeux du chat

Evento
Lygia Fagundes Telles no Encontros de Interrogação

Revista
Vitória em Cristo, perfil de Silas Malafaia na Piauí (ver post anterior)

(Obrigado, Lielson, pela imagem.)

segunda-feira, 7 de março de 2011

Notas sobre Berlin Alexanderplatz



Foi motivado por uns dias que passei em Berlim no fim do ano passado que comecei a ver Berlin Alexanderplatz, a magistral série feita para TV pelo grande diretor alemão Rainer Werner Fassbinder.

Achei que seria difícil de encontrar. Mesmo em Berlim, havia apenas uma caixa - sem legendas em nenhuma língua que servisse pra mim. Nas lojas, vendedores garantiam que não havia nenhuma outra versão em parte alguma do mundo.

Mas há.

Uma delas é a caixa da Criterion, aquele selo americano que lança maravilhas do cinema. Essa é para colecionadores e em quem tem fetiche pela coleção da Criterion. Não é o meu caso.

A surpresa pra mim é que havia esse tempo todo uma edição brasileira, bem mais em conta, pela Versátil. Minha busca inicial por aqui deve ter sido bem displicente, porque não havia encontrado.

Então cá estou eu assistindo a Berlin Alexanderplatz em DVD com legendas em português e a um preço equivalente ao da caixa alemã.

***

Ainda não acabei. Comecei em janeiro e ontem vi o capítulo 11. Não é uma série pra se ver de uma sentada. Tipo Lost, que você assiste a uma temporada em um fim de semana.

Em tese, daria. São 13 episódios e um epílogo, cada um com um pouco mais de uma hora. Total: 15 horas, divididas em seis DVDs -- com extras.

Mas não dá. Acho difícil aguentar. E Berlin Alexanderplatz demanda um tempo pra ser digerido. Porque Fassbinder faz uma obra densa e profundamente reflexiva.

A vida do ex-presidiário Franz Biberkopf na Berlin da década de 1920 é sofrida. E doída. Bieberkopf tenta se reeguer. Não consegue. Se filia a todo tipo de canalha, de nazistas a assaltantes. Não consegue.

As relações de Bieberkopf com as mulheres é penosa. Intensas e violentas. Só roubada, diria o outro.


***

Outro dia, assistindo apenas ao episódio 9, tuitei umas frases da série. Busquei lá, colo aqui:


"Às vezes a vida é curta demais pra eternidade dos sofrimentos."

"Acho isso estranho. Que se possa falar a favor e contra uma coisa ao mesmo tempo."

"Não viu que não tenho um braço? Esse é o preço que paguei por trabalhar."

"Os socialistas não conquistaram o poder político. Foi o poder político que conquistou os socialistas."



***


Em termos de série: Berlin Alexanderplatz está entre as melhores que já vi. Brigando com Twin Peaks.

O Franz Bieberkopf de Günter Lamprecht me lembra Tony Soprano, até fisicamente, pela opulência.

Pra alguém aí, outro dia, defini que Berlin Alexanderplatz é como se fosse Sopranos ou Mad Men, mas só com as melhores cenas.


***


Saiu em português o livro que serviu de base para Fassbinder, de Alfred Döblin. Pela Martins Fontes. Fiquei curioso.


***


Também me perguntam sobre Berlin Alexanderplatz em si, a real, a de verdade. Que é uma praça bastante central em Berlim.

Há várias imagens dela aqui no Google.

Há uma estação de trem e acesso às duas redes de metrô da cidade - U-Bahn e S-Bahn, uma atendia à antiga Berlim Oriental e outra à Ocidental.

Há uma série de magazines e um shopping center, além de pequenas lojas e uns vendedores ambulantes.

Há a antena de TV que, na falta de outros cartões postais, ganha destaque no horizonte de Berlim.

E é uma ligação entre dois pontos centrais dessa cidade que foi dividida por décadas: o bairro de Mitte, cool e tal, que os guias hão de descrever como "de vida noturna agitada", e os lados da Ilha dos Museus e da avenida sofisticada Unter den Linden.

Tudo isso em volta de um imenso de piso de laje, com pouco verde e poucas árvores.

É na crueza espartana que as duas Berlin Alexanderplatz, a série e a praça, se unem.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Tim Burton no MoMA


Hoje faz um ano que visitei o MoMA e vi a exposição do Tim Burton - aquela que chegaram a anunciar que vinha pro Brasil, mas depois desapareceu do mapa. Procurando umas fotos, achei essa matéria que escrevi pra revista Movie. Resolvi republicar aqui.

Se bem me lembro (provavelmente me lembro mal), o André Forastieri decidiu me pedir uma colaboração poucos dias antes de eu embarcar pra Nova York, e acabamos achando que era uma boa ideia. Por conta dos prazos de fechamento, acabei escrevendo a matéria no aeroporto, num teclado minúsculo de um EEE PC. Por isso, acabei dando uns tapas nessa versão aqui, que deve ser diferente dos tapas que a Maria Beatriz deu na versão que s
aiu na Movie # 5.


Parecia shopping em véspera de Natal – dez pessoas por metro quadrado, empurra-empurra pra caminhar e um calor dos infernos. Só que não era shopping, e sim a exposição dos trabalhos de Tim Burton no Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA. Tem gente por todo lado. Mal dava pra ver as obras – que vão desde desenhos feitos para um concurso dos bombeiros de sua cidade-natal até uma escultura com movimentos robóticos do personagem Robot Boy.


A mostra, que inaugurou no fim de novembro e fica em cartaz até abril, é uma das mais populares do ano. Por lá, as filas constantes e o movimento forte marcaram as primeiras semanas da exposição (Nota: na época, eu não sabia que isso era fichinha. Semanas depois, amigos passaram mais de uma semana na cidade e não conseguiram comprar ingressos). No resto do mundo, a imprensa repercutiu os desenhos do criador de filmes como Peixe Grande, Edward Mãos de Tesoura e da nova versão de Alice no País das Maravilhas.


A filmografia de Burton por si só já justificaria toda essa atração que a exposição vem provocando. O diretor é um dos mais cultuados das últimas décadas. Suas criações saíram do mundo do cinema e passaram a ocupar uma posição de destaque na cultura pop. Por exemplo: Jack Skellington, de O Estranho Mundo de Jack, virou figura onipresente na cultura emo. Até hoje há bonecos de Edward Mãos de Tesoura nas lojas de brinquedos mais sofisticadas.


Mas a real é que a exposição cria um marco. Há um Tim Burton pré-MoMA: um diretor de cinema que faz filmes visualmente impressionantes e que havia lançado um livro de poemas. E há um Tim Burton pós-MoMA: um artista completo, que expressa sua visão de mundo gótica e lúdica em filmes, mas também em outros meios.


O Burton pós-MoMA é aquele que, num dos textos da exposição, se define não como um roterista, mas como um produtor de imagens – que podem se manifestar em qualquer meio.


Faz desenhos simples em guardanapos, mas também concepções visuais elaboradas com giz e aquarela. Faz esculturas que se mexem e encomenda outras para ajudar a pensar em filmes. Para consumo próprio, produziu uma série de fotografias em polaróide, que rendeu uma sala do museu dedicada apenas a elas, com a esposa, Helena Bohan-Carter e pedaços de bonecos de Jack Skellington. Escreve e ilustra poemas. Faz pinturas de seus personagens. Desenha muito. E também, claro, faz seus filmes.


Esse novo Burton, aliás, é um artista obsessivo – desenha muito, cria cada detalhe de seus filmes. E isso reflete na mostra: depois da seleção da curadoria, ficaram mais de 700 peças espalhadas pelo espaço. Entre elas, está a série Surviving Burbank, em que estão os desenhos feitos pelo Burton adolescente, leitor da revista Mad, morador de um subúrbio norte-americano. E os esboços para projetos nunca realizados, como o longa-metragem de Superman. E o clipe de Bones, da banda The Killers. E um estudo de animação em 3D para o personagem Stainless Boy. E máscara de Batman, capacete do Planeta dos Macacos, esboços de Alice...


Boa parte dessa produção visual também acaba de ser compilada em The Art of Tim Burton, um luxuoso livro de arte com quase 500 páginas (vendido apenas no site da editora). Não é um catálogo da exposição: vários trabalhos expostos no MoMA não constam do livro e vice-versa.

Na introdução, curta, Burton explica: toda a sua arte era pra ajudar a criar seus filmes ou apenas para ele mesmo. Nunca tinha pensado em torná-la pública – e só aceitou porque amigos e colaboradores davam sempre a mesma ideia: que tinha que mostrar.


Tinha mesmo: o Burton pós-MoMA não é um artista diferente. Mas é um artista melhor, mais completo, mais complexo e mais fascinante.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O Barbeiro de Sevilha

O Barbeiro de Sevilha (The Barber of Seville), by Rossini. Stage concept and direction: Pier Francesco Maestrini; graphic concept and animation: Joshua Held

Ontem, vi a última apresentação da ópera O Barbeiro de Sevilha em São Paulo. E, por acaso, uma das últimas do ano: depois de passar por várias cidades em um semestre, estão programados apenas mais um fim de semana em Ribeirão Preto e uns dias no Rio. E aí acabou.

O Barbeiro de Sevilha, no caso, é a primeira montagem da Cia. Brasileira de Ópera, montada pelo maestro John Neschling depois que ele foi demitido da Osesp. Muita coisa foi escrita tanto sobre a demissão da orquestra quanto sobre a criação da companhia. Não preciso repetir tudo aqui. Mas, de tudo que vi, uma ideia ficou, e nela eu queria pedir licença para insistir: Neschling declarou que não tinha interesse em assumir uma outra orquestra porque o Brasil não precisaria de uma outra Osesp; preferia fazer algo novo, que não existia por estas bandas.

Passam-se uns meses, mas não muitos, ainda mais no tempo que se pensa que é necessário para montar uma companhia, e não só um espetáculo - a mim, parece que é um esforço que exige um bom tempo. Aí a montagem estreia. Primeiro em Belo Horizonte, depois itinerando pelo Brasil, até chegar na apresentação de ontem.

Comprei ingresso com medo.

Fui com medo.

E não me torrem a paciência com meus medos, não temo sem motivos: já vi algumas montagens razoáveis no Brasil, mas também já vi algumas coisas medonhas, de sentar nas primeiras filas e mesmo assim a voz da cantora não chegar até mim. Mesmo um diletante como eu, um flâneur desse mundo, percebe que tem algo muito errado nessas horas.

O Barbeiro de Sevilha (The Barber of Seville), by Rossini. Stage concept and direction: Pier Francesco Maestrini; graphic concept and animation: Joshua Held

Só que o Barbeiro me encantou. Saí com a sensação de que tinha algo de muito especial nascendo ali. E essa é a ideia que eu queria que ficasse pra vocês de tudo que falo neste post.

Como sou absolutamente leigo em música erudita (aliás, em quase tudo), não vou tomar o tempo de ninguém com uma crítica impressionista sobre a música que não vai levar a lugar nenhum.

Mas é evidente que Neschling e sua companhia fizeram um esforço monumental para fazer uma ópera explicitamente acessível e generosa. Partiram de uma peça bem popular. Até o Pica-Pau já cantou esse Rossini, pô:



Aí vem a opção de usar um desenho animado como cenário, o que torna a montagem fácil de transportar e, portanto, itinerar - porque não há uma Sevilha inteira de compensado, apenas uma tela e um projetor. E a escolha de usar esse desenho animado não só como um recurso de cenário, mas também pra dar o tom da linguagem.

O elenco interage com a animação o tempo todo. Usa roupas coloridas, perucas, tem uma atuação que lembra as criaturas de Hanna-Barbera - o Barbeiro definitivamente está mais para a dupla que para Disney. Ficou um barato: o clima sisudo se quebra em minutos e as pessoas riem o tempo todo, aplaudem, se divertem mesmo.

Ok, admito que em alguns momentos - mas só alguns - fiquei com a impressão de que o humor fica escrachado demais e para de funcionar. Aposto que é meu lado ranzinza se manifestando, porque o público não parou de rir. Eu nunca gostei de Chaves, né?

Não vi as récitas infantis, apresentadas à tarde, encurtadas para 50 minutos de duração (versus as quase três horas do espetáculo regular), mas aposto que foram fabulosas e que as crianças amaram.

O fato é que a Cia. Brasileira de Ópera chegou num Barbeiro fácil de se gostar. Facílimo. Tão fácil que imaginei apresentações relâmpago de árias em parques, em prédios, em shoppings, em centros comunitários, em qualquer lugar. Popular mesmo, sem ser precário nem primário nem vulgar, mas que é generoso com seu público, que é convidativo. E que é fresco e novidadeiro num mundo que parece empoeirado pra quem está longe.

Se a ideia de Neschling é mesmo ter uma companhia de ópera permanente no Brasil, me parece um começo cheio de boas escolhas.

###


O Barbeiro de Sevilha (The Barber of Seville), by Rossini. Stage concept and direction: Pier Francesco Maestrini; graphic concept and animation: Joshua Held

Pra mim, é fato que a Cia. encerra esta primeira temporada com bastantes méritos. Mas também com uma lista de tarefas para cumprir para as próximas temporadas. E, note, são tarefas que ela não pode cumprir sozinha.

1. Não sei como foi nas outras cidades, mas, em São Paulo, havia dois elencos se revezando nas apresentações, sem contar o elenco das récitas infantis. Num o Bartolo é o Pepes do Valle; noutro, o Sávio Sperandio, dentre outras diferenças. Não sei qual o melhor elenco, nem se há um melhor. Não sei se vi o espetáculo com o elenco certo. Mas tenho uma amiga que sabe. O problema é que eu não soube que havia dois elencos até chegar no Teatro Alfa e olhar o programa. Não soube disso no site da companhia, nem no site extra-oficial, nem no site de vendas de ingresso. Se isso saiu em algum jornal, passou batido por mim. Não pude perguntar pra minha amiga. Em tempo: a imprensa bem que poderia se empenhar em indicar qual o melhor elenco, se houver um.

2. Mesmo em cima do laço, comprei um lugar ótimo na quarta fileira, bem central. Mas o programa não trazia o libreto nem mesmo um resuminho da ópera. Isso porque havia a legendagem - e, como ocorre no teatro às vezes, a legenda fica lá no alto. Só que isso eu só soube disso ao entrar no teatro. O meu até então ótimo lugar virou uma fábrica de torcicolo. A sorte é que a sessão não estava lotada, e eu consegui me acomodar em um lugar algumas fileiras mais para trás. Divulgar esse tipo de informação é um serviço utilíssimo. Se a companhia não faz isso para não se melindrar com os teatros, os jornais, as revistas e os sites poderiam fazer.

3. Não vi em nenhum lugar a informação de que havia um intervalo na apresentação de 150 minutos. Havia. Também é um serviço importante.

E digo tudo isso porque tenho certeza de que há muita gente como eu, que está começando a ir a óperas agora, e porque nitidamente a Cia. tem olhos voltados para atrair esse público e um outro, que nunca na vida foi a uma ópera. Metade do público de ontem tinha menos de 40 anos - ou seja, é bem mais jovem do que qualquer ópera a que tenha ido na vida, mesmo as do Metropolitan transmitidas nos cinemas.

###


O Barbeiro de Sevilha (The Barber of Seville), by Rossini. Stage concept and direction: Pier Francesco Maestrini; graphic concept and animation: Joshua Held

Claro, tudo isso passa por uma questão central: se a gente acha que é realmente importante o Brasil ter uma companhia permanente de ópera e uma cultura de ópera. Porque de nada adianta fazer tudo isso se não for relevante.

Pra falar a verdade, do alto da minha capacidade de pensar bobagens sobre assuntos que desconheço por completo, eu tinha sérias dúvidas a respeito dessa necessidade. Ópera é um troço caríssimo de produzir, de manter, de preparar elenco, e que é fácil de deixar tosco. Pra mim, em um curto prazo, não valeria a pena fazer tudo isso só pra atrair quem vai pros Estados Unidos e pra Europa pra ver montagens de fôlego e ficar falando mal dos similares nacionais. Talvez fosse melhor usar essa grana em um plano de fomento pra jovens e velhos talentos, bolsas, iniciativas menores e pontuais, preparando o terreno.

Posso estar enganado. Provavelmente é cedo pra dizer o que vai acontecer. Mas o fato é que o Barbeiro me pegou. Neschling parece ter encontrado um caminho que põe essa visão de investir num milagre a longo prazo em xeque. Me deixou curioso pra ver no que vai dar. E eu gosto disso. Que venha a temporada 2011.

(Fotos deste post extraídas do Flickr de Joshua Held, responsável pela concepção gráfica e pela animação do Barbeiro.)

sábado, 9 de agosto de 2008

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Jovens na Metrópole

Os retratos mais óbvios de São Paulo são vários. A gente tropeça neles todos os dias, e os jornais e revistas são pródigos em reproduzi-los: restaurantes de primeira, Daslu, PCC, trânsito, helicópteros, trânsito de helicópteros...

Por isso que é uma beleza encontrar Jovens na Metrópole, livro organizado pelo José Guilherme Magnani e pela Bruna Mantese de Souza e produzido pelos integrantes do Nau - o Núcleo de Antropologia Urbana da USP.

É uma compilação de etnografias feita por estudantes, uns de graduação, outros já doutorandos, sobre a vida social dos jovens por esta coisa imensa em que a gente mora.

Eles estudam daquele comportamento coletivo que já foi chamado de "tribo". Hoje, se fala muito disso na internet, dos orkuts e myspaces. Toda semana surge nova empresa que se diz especializada em criar e invadir esses espaços, uma maluquice total. Eu não tenho muita paciência pra isso, juro. Conceitualmente, é bacana, mas a prática dessas comunidades virtuais acaba sendo um tanto quanto chata, principalmente porque elas costumam dar conta de uma única faceta, nem sempre muito verdadeira, de uma vida bem mais rica.

Enfim, enfim...

Já as etnografias do livro do Nau (ainda que irregulares, aviso!) me contaram coisas incríveis, coisas que eu nem imaginava, sobre esta cidade -- e coisas que estão aqui ao lado de casa.

Moro mais ou menos perto da Santo Amaro, que é uma avenida grande, larga, que corta a Zona Sul e é afamada por sua feiúra. E, quando se fala da feiúra da Santo Amaro, as pichações vêm logo depois dos fios de luz baixos e da calçada estreita. Mas o capítulo sobre pichações do livro muda o jogo: dá vida às palavras incompreensíveis, dá sentido (e movimento) ao ilegível e o que era feio passou a ser um combate de letras. Hoje, quando passo pela Santo Amaro e vejo as pichações, essa brigalhada de palavras faz mais sentido.

Também moro perto da Vila Olímpia, bairro de baladas mauricinhas. Fui nelas socialmente duas ou três vezes, mas outro texto do livro me decifrou um código importante que eu nunca notaria sozinho: quem é bacana desce o vidro do carro pra circular na Vila Olímpia. Porque isso favorece a interação. Mas eu sabia que o posto de gasolina da Faria Lima, o grandão ao lado do McDonald's, era um, digamos, point. Mas não sabia que existia uma Máfia do Posto, clientes que têm como privilégio isenção do rigoroso rodízio do estacionamento e até passagem secreta para sair.

Outro exemplo que me encantou foi o da sorveteria Soroko, uma casa comercial simples da rua Augusta que, a pedido da clientela straight-edge / vegan, criou uma linha de sorvetes sem leite. Vou lá.

Mais um: pelo texto, o relacionamento dos b-boys (dançarinos do rap da periferia) com os streeteiros (dançarinos de rap da colônia japonesa) dava um puta filme.

Dava pra eu ficar aqui listando as descobertas que fiz por um tempão. Mas eu não daria conta de passar todo meu fascínio com o troço, que fica por conta de o leitor enxergar neste texto bobo, visivelmente encantado, de quem gostou muito do que leu.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Cultura

"Por essas e por outras é que eu sou mais o Rio. Lá não tem essa frescura de 'cultura'. É praia, morenas e bala perdida em busca de destinatário merecedor", conclui Ivan Lessa.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Alô, Chics

Li ontem todo o Alô, Chics que a minha querida sogra ganhou de Natal de seu irmão. Como fã de livros de etiqueta e civilidade, gosto que credito à queridíssima Célia Ribeiro, foi uma leitura de grande prazer.

Concordo com quase tudo, discordo de umas coisas* e aprendi uma grande regra de bom convívio que passarei a adotar doravante: só se pede emprestado aquilo que pode ser reposto caso estrague.

* A Gloria acha que homens sobem e descem escadas sempre à frente das senhoras, para impedir visões das pernas e da calcinha. Eu continuo fiel à vertente que prega homens descendo à frente, mas subindo atrás, para o caso de ter que servir de apoio se a senhora sofrer uma eventual queda.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Ubu

Vocês conheciam o Ubu e não me disseram nada ou é uma novidade pra todos nós? Fato é que o Carlão Reichenbach recomendou o site ontem: tem filmes surrealistas aos montes pra baixar.

Tem do Fluxus. Do John Cage (incluindo 4'33"), do William Burroughs. Tem O Cão Andaluz! E até o Yves Klein (deus me segure pra eu não usar três exclamações).

Festival Jodorowsky

Ontem passei a tarde e um bocado da noite no Centro Cultural Banco do Brasil, assistindo à programação do Festival Jodorowsky. Daqui a pouco me toco pra lá de novo -- quero ver ao menos O Ladrão de Arco-Íris, que é o filme mais comercial dele.

Jodorowsky é um desses autores supercultuados por pouquíssima gente e completamente ignorado pela multidão. Transita com certa desenvoltura por diversas áreas.

Na literatura, faz poemas e romances -- o único que saiu no Brasil é o excelente Quando Teresa Brigou com Deus.
Nos quadrinhos, fez a série Incal e seus derivados (Antes do Incal 2 ganha sessão de autógrafos na quarta). Um de seus trabalhos mais recentes é a excepcional Bórgia, com desenhos de Mil Manara.

Jodorowsky também é ocultista. Restaurou o Tarot de Marselha, por exemplo.

Também foi fundador do Teatro Pânico, com Fernando Arrabal.

Seu cinema, foco maior dessa mostra do CCBB, é uma junção de tudo isso, de certa forma. Se suas obras espalhadas ajudam a construir um mundo jodorowskiano, o cinema é a concretização mais completa disso: ele atua, compõe, escreve e dirige. Mas, mais que isso, impõe o seu ritmo. Não acompanhar Jodorowsky e perder-se no Incal, por exemplo, é natural. Mas a HQ permite a releitura imediata e fragmentada. O cinema e sua necessidade de um fluxo narrativo contínuo me parece mais próximo da forma como o artista de fato se comunica.

Bem, vou lá. Só não chamo vocês porque não precisa: as sessões de ontem estavam absolutamente lotadas. ;)

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Contos do Quintal


Taí um convite (clique para ler) meio sem sentido, porque domingo eu nem vou estar em São Paulo e, portanto, não irei ao lançamento.

Mas o fato é que há um desenho meu no livro Contos do Quintal, que sai neste sábado pela Editora Globo. O volume reúne histórias escritas por vários escritores, cada uma acompanhada de uma ilustração de um artista diferente. O projeto é da Revista Crescer.

Meu desenho foi feito para uma história do mano Fabrício Carpinejar e repete o clima do outro livro que fizemos juntos, Porto Alegre e o Dia em que a Cidade Fugiu de Casa, que por sinal está à venda de novo (aproveite que não é sempre que tem!). Esse sim é todo escrito pelo Fabrício e desenhado por mim de alto a baixo com as adoráveis tintas nanquim escolar.

O Contos do Quintal ainda não está nas livrarias, mas, assim que entrar, eu aviso.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

C-3PO não enferruja na garoa

Anthony Daniels, ator que viveu o robô C-3PO em Star Wars, anda por São Paulo (foto ao lado). Ele veio divulgar alguns DVDs que estão saindo. Passou por algumas livrarias, entre elas, a Saraiva do Shopping Morumbi, onde tirei essas fotos ontem, por volta das 13h.

A presença do cara gera cenas como essa aí do alto: um soldado da guarda imperial passeando pela seção de CDs. Mas foi mais que isso: filas imensas para autógrafos, hordas de gente com ou sem fantasia comprando (de novo) um filme que já tem 30 anos.

Star Wars é como todas essas mitologias recentes: não basta acompanhar, tem que participar.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Feliz Dia dos Gaúchos

Hoje é, mais uma vez, 20 de Setembro, dia em que o Rio Grande do Sul, esse estado ímpar, comemora a humilhante derrota na Guerra dos Farrapos.

Por lá, pra celebrar a guerra perdida, é feriado.

Mais que isso: tem desfiles em vias públicas, com cavalos e tudo o mais, tipo um 7 de setembro mais humilde, seguindo os preceitos rituais fabulosos e mitológicos inventados pelos queridos Barbosa Lessa e Paixão Cortes no 35 CTG no grêmio estudantil do Julinho.

E quem disse que gaúcho não é macho? Tem que ter muito culhão pra celebrar uma derrota a partir de uma cultura falsa, inventada por dois secundaristas.

Eu, gaúcho que sou, apresento aqui a descoberta recente feita pela Sabrina -- um filme publicitário que exalta a cultura gaúcha de forma inédita.

Bom Dia do Gaúcho a todos.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Intelligent Life


Ora, vejam!
A Economist, uma das revistas que valem a pena no mundo, acaba de transformar em quaterly o suplemento até então anual Intelligent Life -- uma tentativa de mostrar como os leitores da revista passam o tempo fora do escritório.
A capa é linda. O design é matador. Há algumas páginas em PDF para degustação no site que já insinuam que o troço é incrível. Entre elas, o editorial, no qual Edward Carr conclui algo que a gente já sabe, mas que é sempre bom ver que tem mais alguém pensando assim: "The more you know, the better it is. Knowledge is pleasure".

domingo, 9 de setembro de 2007

CreateSpace

O CreateSpace é a editora de livros on demand da Amazon. Mais que isso: produz também CDs, DVDs e HD DVD, vende espaço de download de filmes e promete, para breve, distribuir discos Blu-Ray.

Os produtos, a rigor, não têm nada de novo: acabamento mais tosco com custos um pouco altos, que só compensam se você precisa de uma tiragem realmente pequena.

Os criadores também continuam sem recursos para chegar à imprensa e aos demais filtros que podem fazer a diferença entre não vender nada e ser um sucesso.

Mas o sistema dá uma vantagem tremenda, como contou o Warren Ellis num boletim lançado neste feriadão: a distribuição da Amazon é gigantesca. E isso, sim, pode fazer uma senhora diferença.

quinta-feira, 19 de julho de 2007

Harry Potter veste Prada

O admirável velho mundo das editoras não contava com um fatorzinho pequeno, mas significativo, na hora de esconder os segredos do novo Harry Potter: a humanidade não é feita só por gente que concorda com as restrições impostas pelos contratos.

Além disso, os contratos de embargo são garantidos pelo dono das livrarias, não pelo mocinho contratado anteontem para ser guarda do depósito. Quem cuida das caixas lacradas pode até ser demitido, o que provavelmente não seja bom, mas ele tem muito menos a perder do que um Jeff Bezos da vida, que terá que pagar multas e ouvir encheção de saco da Scholastic pelo resto da vida. Com o sistema de seguro-desemprego de alguns países desenvolvidos, o sujeito pode até sair lucrando.

Num mundo em que piratear virou cool, espalhar um segredo milionário como Harry Potter incendeia a vocação de alpinista de reality show emprenhada na população. Esse carinha que fotografou o Potter virou o fodão da turma, com certeza.

E o ego de um único sujeito arrasou com uma estratégia milionária anti-pirataria.

Harry Potter não só vazou na internet, como também já está à disposição pra quem souber procurar, e talvez essa seja a maior lição que O Diabo Veste Prada nos deixou. O New York Times de hoje saiu com resenha e tudo, feita a partir de um exemplar comprado em Nova York. E a verdade é que, mais uma vez, o velho jornalão mostra que não é o que é por acaso: sumo-sacerdote da imprensa escrita, lida com o admirável mundo novo melhor do que muito site por aí.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Bruno Tolentino

E morreu o Bruno Tolentino, figura que conheci numa Feira do Livro ainda nos anos 90, quando eu era editor da Aplauso e ele, da Bravo! e, principalmente, da República -- em sua fase mais bonita, grandona, com fotos arrasadoras em P&B e textos realmente bacanas.

Foi um dia, digamos, peculiar, que começou pra valer quando conheci o Tolentino nos estúdios da FM Cultura, em Porto Alegre, em um programa que, salvo engano, na época era apresentado pela Mary Mezzari ao meio-dia. Era época de Feira do Livro de Porto Alegre. Ao final da tarde, iríamos participar daquelas palestras no Clube do Comércio, sobre revistas de cultura. Era eu, o Tolentino, um cara da tradicional Revista de Cultura Vozes de quem não lembro o nome e talvez mais alguém da Palavra, que ainda existia. A Cult já era editada, mas não tinha representantes, pra alegria do Tolentino. Ele odiava a Cult daqueles dias, achava desprezível, comandada por uma panelinha uspiana sórdida e puxa-saco de seus algozes declarados, os Irmãos Campos. Lembro que ele comemorou a ausência da Cult várias vezes, já a partir daquela manhã. E se declarou muito interessado por várias figuras de Porto Alegre.

Eu, claro, era moleque, achava aquilo tudo muito fascinante. Não conseguia concordar nem discordar com muito entusiasmo, o que poderia soar covarde da minha parte, mas não era o caso, definitivamente, porque o Tolentino simplesmente não dava tempo de ninguém mais falar. Ele tinha voltado ao Brasil fazia pouco, tinha dado uma entrevista desancando Caetano e os construtivistas nas páginas amarelas da Veja, um troço violento, provocador, fascinante, porque naquela época não era lá tão comum aquela turma ter uma contestação tão grandiosa e com tanta repercussão.

Voltando da rádio, o Tolentino falou que queria muito conhecer uma poeta de quem havia lido uns livros anos atrás e achava excelente, que era a Martha Medeiros. Naqueles dias, a Martha já tinha trocado a sua poesia gostosa por crônicas de muito sucesso na Zero Hora. E eu tinha recém entrevistado-a pra Aplauso, o que fez com que eu tivesse o número do telefone dela no meu celular. Liguei pra Martha que, naturalmente, demonstrou uma curiosidade em conhecê-lo. O encontro ficou marcado para o Sarau Elétrico, naquela noite, onde ela faria uma leitura como convidada, se bem me lembro.

Rolou a palestra, que seguiu no mesmo clima do programa de rádio, mas nem chegou a ter o mesmo brilho do resto do dia. Pra falar a verdade, nem lembro muito do que foi dito. Só sei que minha memória registrou como a parte mais tediosa do dia.

Saindo da Feira, fomos para um restaurante fuleiro no Bonfim e comemos algum lixo qualquer. E eis que chegamos no Ocidente, que estava lotado -- eu disse, a Martha já era muito popular, arrastava multidões e tal.

Só que o Tolentino não conhecia as idiossincrasias do Sarau Elétrico, que é cheio de normas. Na real, não há muito espaço para participações de não-convidados -- não é regra declarada, mas é tácita entre os freqüentadores mais assíduos, cabendo aos demais seguirem os ritos dos demais.

E o Tolentino pegou o microfone, sem se apresentar, e começou a ler. A ler sem parar. Foi apoteótico. Foi como ele me pareceu naquela noite. Foi como o Tolentino ficou na minha cabeça: gentil, amável, apoteótico.

E, como toda apoteose, sumiu de repente. A última de nós a vê-lo foi a Cintia Moscovich, que trocou meia dúzia de palavras com ele no dia seguinte. O poeta dizia estar duplamente doente. Tomou umas pílulas e foi embora. Em seguida, saiu da Bravo. A República acabou.

Ouvimos falar dele mais algumas vezes: um livro aqui ou acolá. E só isso.

Até hoje, quando li que ele morreu e vi fotos dele ainda mais magro, agora sem barba. Li, mas não só no jornal, de manhã. Li também no jornal de um sujeito que sentou a duas mesas da minha no Café Suplicy, que sacudia a contracapa da Ilustrada como se fosse uma bandeira.

Devia ser um poeta concreto, coitado.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

O Culto do Amador

The Cult of the Amateur, dizem por aí, é o livro que veio detonar com a Cauda Longa. O meu ainda não chegou, mas tenho lido bastante o Andrew Keen por aí, principalmente no seu blog.

Sei lá quem está certo ou errado, mas Keen tem um ponto: a grosso e grosseiro modo, essa cambada de vagabundo que escreve em blogs e posta vídeos do YouTube está fodendo com a cultura.

Mais quando a Amazon entregar meu exemplar.

(Mas tem na Cultura também)

quarta-feira, 11 de abril de 2007

No one belongs here more than you

Miranda July, artista, autora de alguns trabalhos em vídeos fantásticos, diretora do longa-metragem Eu, Você e Todos Nós etc. etc. lança logo mais seu primeiro livro de contos. O título é o mesmo deste post. O site é o melhor que já vi para um livro.

Qual a chance de não ser bom? Qual?