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domingo, 15 de junho de 2014

No cinema (5)

Exceto em jogos do Brasil, os cinemas não param de funcionar durante a Copa. Mas ficam mais vazios, e as distribuidoras lançam filmes com menos marketing – mas não necessariamente menos qualidade. Há, por exemplo, uma quantidade de documentários em cartaz que é coisa rara de se ver.

A última Copa que acompanhei tinha o Naranjito como mascote, e acho que só acompanhei os desenhos animados do Naranjito mesmo. Então estou curtindo bastante esta temporada mais amena no cinema.

Acho que já tem filme bom o suficiente pra fazer uma quinta lista de filmes legais que vi no cinema (as anteriores eu publiquei no Facebook e compilei aqui):


Transmedia storytelling: stencil ao lado de um cinema que passa Riocorrente

* Riocorrente - Há uns meses, saquei uma coisa do ato de retratar no desenho ou na pintura: o retratista revela defeitos que o retratado sabe que tem (ou que acha que tem, pois só ele atribui como defeito), mas finge que ninguém mais pode ver. Pode ser uma pinta, uma papada, o formato do rosto. A fotografia, por sua natureza, digamos, realista, segue iludindo o retratado. Com a intermediação do filme, pode parecer que o tal defeito passou batido pelo fotógrafo (mas certamente não passou, lembre-se de que estamos falando apenas do delírio do retratado). Num desenho ou numa pintura, a mediação humana é evidente: alguém desenhou / pintou aquele defeito, portanto, viu.

Recuperei essa ideia porque Paulo Sacramento (O prisioneiro da grade de ferro) fez de Riocorrente um poderoso retrato de São Paulo. E é um retrato como um desenho, como uma pintura. Mesmo sendo filme. Sacramento escolhe mostrar o Tietê. E o cara pobre sufocado pela falta de alternativas. E o crack. E a arte escondida nos cemitérios. E o clima das manifestações. É um retrato que os moradores de São Paulo talvez não gostem de ver. Quem acha que a cidade é perfeita vai se incomodar. Como bem definiu meu amigo Marcos Carlini: é desconsertante.

* O lobo atrás da porta - Quando escrevi sobre Praia do futuro, falei dessa ideia de que eu cresci num país que ou só fazia "filme ruim" ou, mais tarde, simplesmente não fazia filmes. E disse que era muito incrível viver agora num país que tinha o Karim Aÿnouz. O que eu não sabia é que teria ainda Riocorrente e este O lobo atrás da porta em cartaz simultaneamente com Praia do Futuro. Que alegria imensa ver uma coisa dessas. Que momento!

O filme do Fernando Coimbra é, digamos, um thriller conjugal: a filhinha do casal é levada por uma estranha na saída da creche, e o mistério só será resolvido quando o delegado fuçar na relação deles. Digamos: de certa forma, é uma versão dark de Nelson Rodrigues.

* Que estranho chamar-se Federico - O grande Ettore Scola estava aposentado, mas interrompeu seu descanso para fazer uma homenagem a seu amigo Fellini. Há cenas com atores recontando a vida dos dois misturadas com desenhos e trechos de filmes. Acho que classificam como documentário, mas eu partiria pra uma nova definição: é uma memória. (Escrevi sobre pro Eh,Già!, mas ainda não saiu. Está aqui.)

Mr. May

* Uma vida comum - Não sei por que traduziram assim. Still life, o título original, quer dizer "natureza morta", e tem muito mais a ver com a história de Mr. May, um dedicado funcionário público londrino encarregado de cuidar da morte de pessoas que não têm ninguém. Até porque há umas naturezas mortas espalhadas ao longo de todo o longa. É um pequeno grande filme, de sair da sessão abalado. (Vou escrever sobre pro Eh,Già! também.)

Mengele e Wakolda
* O médico alemão - Vivendo escondido no sul da Argentina, o cientista nazista Mengele se encanta com uma argentininha chamada Wakolda, que tem problemas de crescimento. E começa a fazer experimentos com ela e com sua família. É uma espécie de Lolita com doses cavalares de demência.

* Amazônia eterna - Ainda não é o grande documentário sobre a Amazônia (que está pra ser lançado), e sim um documentário mais focado na economia sustentável da floresta, que parte da interessante ideia de que a melhor forma de preservá-la no mundo atual é fazendo com que ela renda dinheiro.

* Tim Lopes - Histórias de Arcanjo - Outro documentário. Mostra Bruno Quintella em busca do pai, o jornalista Tim Lopes. Acho que especialmente os jornalistas vão curtir.

* Junho - É o documentário da TV Folha. Eu até esperava menos: achei bem amarrado, sem se esquivar da covardia da própria Folha em condenar os protestos e abrir espaço pra PM trucidar há um ano. O maior problema do filme está fora dele: parece que nós é que esquecemos de junho do ano passado.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Moebius

Moebius morreu no sábado. Foi um monstro. E foi mais que um quadrinista. Tinha refletido bastante sobre seu trabalho havia uns dias. Um jornalista havia me procurado pra falar sobre Moebius, por conta dos novos álbuns, e eu acabei saindo do eixo dos quadrinhos e indo pro eixo da produção de imagens que marcaram uma época. Foi isso que acabei tratando no texto que, a pedido do Luiz Antonio Araújo, escrevi pra Zero Hora. Saiu hoje, no Segundo Caderno.

Dá pra clicar e ler a reprodução ampliada que eu peguei do iPad. Dá pra ler a íntegra, sem edição, abaixo.

No final, conto só aqui no blog umas coisas que não couberam no jornal.


Moebius é essencial

A notícia da morte de Moebius logo cedo, na manhã de sábado, estragou o dia de muitos leitores de histórias em quadrinhos. Justo. Afinal, foi com as HQs que o artista teve uma relação mais duradoura e prestigiada. Mas sua importância transcende obras como Incal: Moebius foi antes de tudo um poderosíssimo criador de imagens e uma dos artistas mais influentes da segunda metade do século passado.


O que fez de Moebius Moebius foi uma imensa capacidade de se relacionar com o que estava acontecendo ao seu redor. A contracultura, os hippies e os eventos do mês de maio de 1968 francês ainda estavam frescos quando adotou o nome Moebius definitivamente. Lado a lado com o já conhecido faroeste Blueberry (no qual assinava seu nome de batismo, Jean Giraud, e seguiu publicando até os anos 2000), passou a produzir quadrinhos de uma forma que nunca tinham sido vista antes. Misturou ficção científica com expansão da consciência. Criou mundos imaginários que até podem estar em galáxias distantes, mas mais parecem tirados de um livro sobre o inconsciente junguiano. E deu certo: Moebius se deu muito bem com o espírito de seu tempo. Materializou em desenhos o que havia de mais contemporâneo na mente de seus leitores.

Nas páginas da revista Métal Hurlant, da qual foi cofundador, não só ele, mas também Philippe Druillet, Enki Bilal e outros autores exploravam terrenos parecidos. A publicação tornou-se um marco. Ali, Moebius influenciava boa parte da ficção científica e da fantasia que seriam criadas dali pra frente. E também cavava espaço para lançar seus livros mais importantes: Incal, O Homem É Bom? e Garagem Hermética (este, veja só, influenciou até o nome de casa noturna porto-alegrense).

A força de suas imagens logo atraiu Hollywood. Moebius fez a concepção visual de dois filmes que ajudaram a definir a ficção científica nos anos 80: Alien – O 8º Passageiro e Tron. Colaborou em mais uma dezena de longas. Foi convidado para a equipe de Blade Runner, mas recusou. Mesmo assim, a Los Angeles futurista dos replicantes foi construída a partir de seus quadrinhos. Moebius é tão onipresente no clássico de Ridley Scott quanto o tema sonoro de Vangelis.

A verdade é que a influência de Moebius na cultura mundial é imensa, mas ainda precisa ser avaliada com consistência. Olhando daqui, já parece claro que defini-lo apenas como um quadrinista que fez grandes álbuns não parece dar conta de sua produção: os indícios o colocam lado a lado com David Bowie, Kraftwerk, Rem Koolhaas e outros criadores. Eles, como Moebius, ajudaram a moldar o imaginário das décadas de 1970 a 1980.

Enfim, de volta às livrarias

O leitor brasileiro que se sentir motivado a ler a obra de Moebius a partir da notícia de sua morte pode encontrar uma parte de seus trabalhos nas livrarias. Não é tudo, mas já quebra o galho. É que, nos últimos anos, os quadrinhos europeus ganharam mais atenção do mercado editorial brasileiro. A presença de Moebius nas prateleiras é um reflexo desse fenômeno.

Talvez seu trabalho mais famoso, Incal acaba de ser publicado em um volume chamado Incal Integral (Devir, 308 p.). O roteiro é do escritor e diretor de cinema Alejandro Jodorowsky. Na história, cheia de referências ao tarô, o detetive John Difool parte em busca de um artefato chamado o Incal. Outras séries ligadas a Incal também estão em catálogo, mas sem seu desenhista original.

Além de Incal, a editora Nemo está publicando obras de Moebius. Por enquanto, saíram dois álbuns: Arzach (56 p.) e Absoluten Calfeutrail & Outras Histórias (96 p.). São antologias de histórias curtas, menos conhecidas. Mas, ao contrário do Incal, tem roteiros de Moebius. A Nemo promete publicar outros volumes da coleção destinada ao autor este ano. Entre eles, duas obras essenciais: O Homem É Bom? e A Garagem Hermética.


***

E notas extras, só no blog...


Uns dois anos atrás, um amigo me falou que havia um cartunista francês mundialmente famoso morando em Pirassununga. Passaram-se uns dias até eu descobrir que o sujeito era, na verdade, Alain Voss, brasileiro que foi um grande colaborador da Métal Hurlant. Fui com entrevista marcada, mas só lá soube que ele não queria dar entrevista alguma. Conversamos a tarde toda, sobre assuntos variados. E aí ele me deu a sua versão para o afastamento de Moebius da revista.

Teria sido culpa de Jodorowsky, que, pra ele, afastou de vez Moebius da política, levando-o a um mergulho no misticismo. Outros sócios teriam se irritado com a presença constante de Jodô.

Eu, que tinha conhecido Jodô uns anos antes, e visto algumas pessoas se converterem à sua psicomagia diante de mim, não por que duvidar.

Jodô é um ator, um poeta e um sedutor. Cá entre nós, não sei se ele acredita na psicomagia enquanto magia. Mas tenho certeza de que ele acredita que funcione -- e que o mise en scène é essencial.

***

Lembrei muito de Moebius numa exposição que não o cita diretamente: Postmodernism - Style and Subversion, 1970-1990, que o V&A apresentou até o começo deste ano. Moebius não estava, mas Blade Runner estava, bem como vários de seus contemporâneos. O campo do pós-modernismo (o do design, da arquitetura) me parece um bom começo pra um estudo sobre a influência Moebius. 

***

Entre idas e vindas, entre noites viradas e colunas semanais, a Zero Hora foi minha casa por cinco anos. Já fazia uns cinco que não colaborava com nada. Foi bom voltar por um dia. Obrigado, Araújo, Tic, Claudia, Feix, Lari e todos os outros que eu nem sei que se envolveram.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Para saber mais: 1922 e Ho-ba-la-lá


Quando eu era moleque, lançaram a revista Superinteressante. Era bem mais científica do que hoje - embora fosse mais amigável que os livros escolares, a pegada pop só veio mais tarde. Lembro de ter passado horas tentando entender a Teoria da Relatividade que um pôster me prometia decifrar. Às vezes, achava que tinha conseguido, mas aí uma cãibra cerebral me levava de novo à estaca zero.

Uma das coisas que me chamava atenção na Super era uma box no final de cada matéria: Para saber mais, dizia, e vinha uma recomendação de livros que complementariam o tema. Supostamente, a matéria era tão interessante que provocaria a vontade de o leitor se aprofundar. Era só o primeiro passo.

Na minha fantasia, era assim que funcionava. Hoje, fico com a impressão de que é mais uma bibliografia consultada pra fazer a matéria. Talvez tenha sido sempre assim. Talvez nem seja assim. Vai saber...

Lembrei disso porque, por acaso, li duas reportagens que saíram em livro nos últimos tempos. 1922 - A semana que não terminou, de Marcos Augusto Gonçalves, e Ho-ba-la-lá - À procura de João Gilberto, de Marc Fischer. Acaso mesmo. 1922 acaba de sair. Ho-ba-la-lá eu levei pra praia não pra ler, mas pra dar de presente pra uma pessoa. Que não pode ir. E aí lá estava ele, dando sopa. Engatei.

A rigor, os dois livros não tem quase nada em comum. São, em vários aspectos, antagônicas. 1922 é uma reportagem clássica. É resultado de muita pesquisa, de algumas entrevistas. Tem uma nobreza: o autor e seus pesquisadores reviraram arquivos, lidaram com pó, confrontaram versões. É um esforço que aparece pro leitor. Ao menos, pra um leitor como eu, que perde em conhecimento sobre a Semana de Arte Moderna pra qualquer normalista.

Ho-ba-ba-lá surgiu como resultado de uma paixão: o alemão Marc Fischer tomou o fora de uma garota e se apaixonou por João Gilberto. Veio ao Brasil para ouvi-lo cantar Ho-ba-ba-lá. Arma uma busca maluca por um notório recluso. A investigação tem idas e vindas - e umas descobertas pelo caminho. Fischer fascina-se, a certa altura, a ideia (compartilhada por muita gente) de que João é um vampiro, e chega ao ponto de cobiçar dicas do casalzinho de Crepúsculo, que está filmando no Rio na época. O que 1922 tem de meticuloso, Fischer tem de turbulento: às vezes, sente-se lost in translation e deixa o leitor com a mesma dúvida. Azar. É obra de um apaixonado que aceita se perder, divagar e sonhar.

A comparação entre os dois livros, insisto, vem do acaso. Não quero forçar um elo entre duas obras que se conectam apenas pelo rótulo de livro-reportagem e por tratarem de temas canônicos da cultura brasileira. Mas, em mim, os dois livros criaram um efeito bom: o de querer saber mais.

Em uma reportagem sobre movimentos culturais brasileiros na Super, os dois livros poderiam constar dos boxes. Mas isso é o de menos. O que me encanta é que, de certa forma, os dois livros encerram-se com seus próprios boxes nos apêndices.

Acabei 1922 com uma vontade imensa de chafurdar na bibliografia em busca de mais informações sobre a Semana de Arte Moderna (e de ir na exposição da Tarsila no CCBB do Rio, ela que não participou da Semana, mas é modernista e antropofágica). Ho-ba-ba-lá me deu vontade de ouvir mais João imediatamente - eu estava no avião mas, por sorte, tinha dois álbuns no meu celular.

Não lembro se cheguei algum dia a ir atrás dos livros da Super. Mas agora me parece que esse é um bom critério para avaliar uma reportagem: que ela não seja autocontida, que seja instigante, que leve o leitor adiante.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Meu mantra para 2012


“Contrary to the belief of a small industry that has grown up around a supposed Mayan prophecy, the world won’t end in 2012. But at times it will feel as if it is about to.”

Daniel Franklin, no editorial da The Economist - The World in 2012

domingo, 11 de setembro de 2011

Últimos dias

"E o reboot da DC, hm?"

Filmes
Submarino
Um conto chinês

Programa duplo Nelson Leirner
Assim é se lhe parece (documentário)
Nelson Leirner 1961 - 2011 - 50 anos (retrospectiva)

Instalação
Rio Oir, de Cildo Meirelles

HQ
Animal Man # 1
Action Comics # 1
Les yeux du chat

Evento
Lygia Fagundes Telles no Encontros de Interrogação

Revista
Vitória em Cristo, perfil de Silas Malafaia na Piauí (ver post anterior)

(Obrigado, Lielson, pela imagem.)

sábado, 10 de setembro de 2011

Elizete Malafaia

"Elizete [Malafaia, esposa de Silas] queria saber se eu acreditava em Deus, se era cristã, se já havia lido a Bíblia, se já havia ido a algum culto evangélico, se havia sido batizada na Igreja Católica. Respondi não a todas as perguntas. Falou-se sobre Deus e o Diabo. Ela afirmou que as forças do mal se empenham a todo instante em impedir que o mundo e o ser humano se aperfeiçoem. 'Eu não tenho problema com quem não é cristão, mas você pelo menos acredita no bem e no mal?' 'Não no sentido metafísico', respondi-lhe. Não houve mais perguntas."

Daniela Pinheiro, em momento iluminado da reportagem Vitória em Cristo, perfil do pastor Silas Malafaia que está na revista Piauí deste mês.
Aqui (pra assinantes e quando a revista estiver aberta para todos).

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Comic-Con Strikes Again!

San Diego Comic-Con 2011 - Day 3

Douglas Wolk me conquistou há uns anos, quando li seu Reading Comics. Encontrei ali um poço de sensatez sobre histórias em quadrinhos. Não é sempre que isso acontece. Num mundo dominado por fãs, trabalho e paixão se confundem com muita facilidade. As coisas se misturam demais - editores viram jornalistas, jornalistas viram criadores, criadores viram donos de lojas e por aí vai. É uma promiscuidade que, verdade seja dita, faz parte desse universo - e que, no fim das contas, traz mais benefícios que prejuízos. Mas que, de qualquer forma, acaba minando a objetividade. (Eu estava falando do mercado americano, mas, ao reler, me dei conta de que a descrição se encaixa direitinho pro Brasil.)

Mas Wolk era sensato. Tinha opiniões decentes. Não se deixava impressionar pelo sucesso de mercado. Tinha um bom gosto invejável pra selecionar bons quadrinhos (não me arrependi de nenhuma das dicas que peguei dele). Suas críticas não só comentavam a HQ mas, como deveria ser sempre, iluminavam a leitura.

Comecei a acompanhar o trabalho de Wolk - principalmente no New York Times, jornal no qual volta e meia ele escreve sobre quadrinhos no caderno dominical sobre livros. Também gosto muito de seus trabalhos hercúleos - como os blogs sobre a complexa série Final Crisis e sobre todas as HQs já publicadas do Judge Dredd.

Comic-Con strikes again! é seu novo livro. Um livrinho, na verdade, mais precisamente um Kindle Single, que é o formato de publicações rápidas para leitura digital, e que só estão à venda na Amazon mesmo.


O que Wolk faz é levar o leitor a um passeio pela San Diego Comic-Con. Eu nunca fui e, sinceramente, não tenho vontade de ir a passeio, como alguns amigos eventualmente sugerem. A trabalho, como todo mundo que eu conheço vai, seriam outros quinhentos. Mas como turismo me parece mais roubada que a 25 de Março em véspera de Natal. Wolk confirma minha intuição: descreve os horrores das filas, os cosplayers mais medonhos, os fanatismos que certamente me deixariam irritado. Mas também fala de novidades - mesmo pra quem, como eu, leio sobre a Comic-Con hpa anos. Foi pelo livro que fiquei sabendo de várias sutilezas que, provavelmente, nem estando lá eu veria, como a mesa dos primeiros colecionadores de gibis (algo que me lembrou dos leitores brasileiros de Tex).

Tenho a impressão de que o livrinho rápido e barato vai encantar tanto os leitores de quadrinhos quanto os espectadores de cinema, já que os dois acompanham cada vez mais de perto a Comic-Con. Também me parece que será uma leitura proveitosa pros jornalistas que cobrem entretenimento, porque dá uma ideia geral de um evento cada vez mais importante.

Dito tudo isso, chegamos ao que importa no post: os trechos de Comic-Con strikes again que separei pra compartilhar aqui:

"Comic-Con is a bacchanalian 100-hour orgy of fandom, and fandom is all about cathexis: investing one’s energy and identity in a particular idea or person or thing. The genius of the pop culture of the past century is that it’s turned extendable brands into the objects of cathexis. A piece of popular entertainment is almost never only itself: if you find yourself attracted to it, it leads you to invest yourself into it with the promise that there’s more where that comes from."

"There are lines to get into the building, lines to get into panels and screenings, lines to buy 'limited-edition collectibles,' lines to get autographs, lines to get tickets to get autographs, lines to get food, lines to get across the street. There are lines to buy tickets for next year’s show. The first line you encounter is the very long one at the end of which you hand over your ticket. In return, they give you four things: a badge that gets you into the convention center; a 192-page catalogue of events, with a bound-in section of maps; a magazine with articles about a handful of show guests and media anniversaries; and the biggest goddamned shopping bag you have ever seen in your life, with a strap to convert it into a backpack so as to better display its billboard-sized ad for some movie or game or show."

"If you’re making the kind of media that people wear T-shirts about, you need fans, and you need the biggest fans first."

"These are the people who seek out their favorite artifacts of culture, and glom onto them, and live the life: reading, discussing, watching, rereading, thinking, decorating, dressing, collecting, rewatching, quoting, accessorizing. They post on message boards. They tweet. They tell their friends what they like.  The fact that it’s now harder than ever to buy tickets to the show and get a flight to San Diego and arrange for a place to stay just means that the people who pull it off are the most committed of all, and the most valuable tastemakers."

"These days, turning a comic book into a movie isn't enough; that happens all the time. The buzzword of Comic-Con 2011, the thing everybody in the business is talking about, is 'transmedia'."

"Star Wars is our holy writ. Star Trek, oddly, has become camp now--the sort of thing that old-school fans used to like--especially thanks to William Shatner’s slow slide into cheerful self-parody. But Star Wars holds us together."

"Every entertainment professional I know dreads Comic-Con at least a little bit, and most of them go anyway."

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Eaí? / Revista Atlântida

Volta e meia estudantes, pesquisadores e até ex-colegas me perguntam sobre onde conseguir edições de duas revistas que a gente fez lá na RBS: a Eaí? e a Revista Atlântida (2ª gestão).

Pra comprar não deve ser fácil.

Mas, pra pesquisa, a boa notícia é que, em Porto Alegre, deve ser bem fácil de encontrar esses exemplares. Ao contrário de editora, rádio não tem arquivo de revistas. E o núcleo em que a Eaí? estava alocada na RBS acabou extinto.

Ciente de que, se não fizesse nada, ninguém ia se preocupar em preservar nada disso, eu mesmo ocupei meus últimos dias na Redação em fazer quatro pacotes de revistas e distribuí-los em lugares de fácil acesso e que preservam a memória. O que eu nunca tinha feito é contar na internet onde eles estão, pra que alguém pudesse encontrar.

Só que não adianta nada eu fazer isso e não deixar a informação no Google. Então aí vai:

1. Arquivo da Zero Hora. É o mais completo de todos. Inclui todas as edições das duas revistas com CD, mais algumas provas de gráfica, mais os exemplares que tínhamos da primeira fase da Revista Atlântida (editado por uma empresa parceira da RBS um tempo antes da nossa versão). É a mais completa possível e a que tende a ser melhor preservada, mas também deve ser a mais inacessível. Por isso, se for para uma pesquisa simples, sugiro as opções abaixo:

2. Museu Hipólito José da Costa, Biblioteca da Fabico (UFRGS) e Biblioteca Central da PUCRS - Coleções completas da nossa série da Revista Atlântida e coleção completa do Eaí?. Sendo que no museu eu levei pessoalmente, e nas bibliotecas eu pedi pra levarem lá.

É isso.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Bienvenido de volta


Cada vez que escrevo no blog, tenho que dizer que estou de volta, o que é uma chatice pra mim e pra vocês. Mais fácil assumir que este é um blog bissexto mesmo.

Mas o fato é que voltei pra avisar que nesta quinta, dia 20, vou mediar um papo entre dois caras muito bacanas: o Paulo Ramos, jornalista especializado em quadrinhos, e o Claudio Martini, editor da fabulosa Zarabatana Books.

O mote da mesa é Bienvenido (capa acima), baita livro sobre os quadrinhos argentinos escrito pelo Paulo, editado pelo Claudio e encapado com essa imagem matadora do Liniers. Claro que a ideia é falar dos quadrinhos argentinos como um todo.

Começa às 19h, na Fnac da Av. Paulista.

domingo, 3 de agosto de 2008

Mojica e o medo

ÉPOCA - De onde surgiu a vontade de fazer filmes para causar medo nas pessoas?

Marins - Um dia o projecionista do cinema que meu pai gerenciava caiu na besteira de liberar minha entrada durante uma sessão para alertar mulheres sobre doenças venéreas. A primeira coisa que vi na telona foi uma vagina com gonorréia. Aquilo me assustou muito! Comecei a chorar. Até hoje tento reproduzir aquele terror que senti.

(Entrevista completa, por Rodrigo Turrer, aqui. O filme do Zé do Caixão estréia logo mais. E pra mim cria mais expectativa do que um Batman do Nolan ou qualquer dessas coisas assim.)

terça-feira, 1 de julho de 2008

Leitura de férias: Como a picaretagem conquistou o mundo

Essas horas todas passadas em aeroportos, aviões e hotéis têm sido utilíssimas para ler – algo que a vida comum teima em tirar de mim.

Um dos livros que consegui, enfim, dar cabo é Como a picaretagem conquistou o mundo, um que estava prestes a ser largado sem que eu chegasse ao fim. Mas, num esforço derradeiro, voilá: cheguei ao fim.

Confesso que esperava, ao mesmo tempo, mais e menos de Francis Wheen. Explico: achei que o sujeito se dedicaria mais a essas picaretagens que a gente vê todo dia: ocultistas, numerólogos, marqueteiros baratos, profetas da internet e quejandos. Mas a verdade é que ele trata dessas patetices (que me interessavam demais) como parte de um fenômeno maior, que é a imensa quantidade de bobagens que são ditas até por gente séria (e que, por incrível que pareça, se acha séria). Gente que, por exemplo, sai por aí pregando que o iluminismo foi uma fraude que não serviu pra nada.

Pra quem, como eu, esperava um livro belicoso e rancoroso (e tiraria prazer disso), Wheen surpreende como um ensaísta arguto, denso, com um texto impecável e idéias sólidas como rocha.

*

Bem, não se pode ter tudo. Deixei o livro em casa antes de partir pra Madri, o que me impede de consultá-lo para fazer comentários mais espertos sem correr o risco de sair por aí falando bobagem. Desculpaí.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

O fascinante ornitorrinco

Sempre tem aquele conhecido que volta da Austrália se achando o máximo por conta de pele bronzeada e carcomida, à moda Crocodilo Dundee.

Entusiasmado, pergunto:

-- Você viu um ornitorrinco?

A resposta, pô, é sempre "não".

Acho muito esquisito que alguém voe meio mundo, se sujeite a um jet lag monumental, corra um baita risco de ter uma trombose venosa e depois sequer se dê ao trabalho de ir ver esses bichinhos tão fascinantes.



lost platypus, originally uploaded by popvulture.

Aliás, os ornitorrincos ficaram ainda mais bacanas hoje, com a divulgação da nova edição da revista de ciências Nature. A capa não esconde a novidade: o ornitorrinco é a atração principal da publicação.
O tema é que o genoma dos ornitorrincos acaba de ser completamente decifrado. E o resultado, como era de se esperar, é alucinante.

A doce criaturinha não só é um mamífero esquisito com bico de pato e cauda de castor que põe ovos, mas também é uma mistura de mamífero, ave e réptil no canto mais recôndido de seu DNA.

É um texto imperdível. Doce como as próprias criaturinhas.

domingo, 4 de maio de 2008

Tchau, Tuio

Ia escrever sobre o Falsa loura, esse puta filme, filmaço, do Carlão Reichenbach. Fui ver se tinha algo no Reduto do Comodoro que se pudesse aproveitar de alguma forma: uma foto bonita, uma citação qualquer.

Tinha. Tinha a notícia da morte do Tuio Becker.

O Tuio foi meu colega na Zero Hora. Era o crítico de cinema. Convivemos pouco na redação, mas foi o suficiente pra eu ver como o baita crítico que eu já lia no jornal trabalhava. E era uma coisa bonita de se ver.

Lembro especialmente de uma sexta. Eram 11h30min, e o caderno Cultura de sábado fechava ao meio-dia. Aí entrou, por agência, a notícia da morte de um diretor europeu importante, mas relativamente obscuro. O Tuio quis homenageá-lo. Com o aval e o apoio do Eduardo Veras, a contracapa do caderno, então pronta, foi derrubada para que o tal cineasta pudesse ser enterrado dignamente. Tuio sentou-se para escrever enquanto nós, os desocupados, nos mexemos para fazer os outros procedimentos necessários, tais como achar e baixar foto do cara, pré-diagramar a página e caçar nos livros referências sobre o morto.

Uns vinte minutos depois, Tuio tinha acabado o texto, coisa grande, de uns 80 centímetros (na medida do jornal, é um texto bem grandinho). Estavam citados no artigo os maiores filmes do cara, com o devido ano de produção entre parênteses. E estava tudo certo. Conferimos com os livros, pra ver se não tinha erro. Mas não tinha. No sábado de manhã, sem saber de nada disso, os eventuais leitores encontraram um artigo precioso. E quem leu nem sabia que por trás dele estava uma baita aventura.

Também lembro de um Festival de Cinema de Gramado que cobrimos, eu, ele e o Roger, talvez a mais enxuta equipe da redação a subir para a Serra nesta década. Agora me ocorre que talvez tenha sido o último ano em que Tuio foi a Gramado pelo jornal. Não lembro.

Saímos do jornal na mesma época, em 2001, ele se aposentando, eu indo fazer as revistas da RBS.

Continuamos nos falando, principalmente em cabines e em encontros por acaso no Centro, onde eu morava e ele ia ao cinema, por uns meses. Na época, dizia:

-- Agora que me aposentei, só vejo filme bom.

Tuio foi desaparecendo na medida em que o Alzheimer tomou conta. Eu também fui sumindo. De vez em quando, vinha uma notícia sobre ele, sobre a doença, sobre a internação.

Mais comum é eu lembrar do Tuio vendo um filme. Outro dia mesmo, vi Pequenos espiões, que ele tinha achado divertidíssimo. Na época, ele recomendou:

-- Mas espera pra ver em DVD, porque a distribuidora só trouxe cópias dubladas para Porto Alegre.

É isso: o Tuio vai continuar indo ao cinema comigo. E com muita gente. Principalmente se os filmes forem bons.

*


Quando vi que o Tuio morreu, fui correndo ler a coluna da Cláudia Laitano. Eles eram muito próximos. Mesmo sabendo que o Tuio rende incontáveis textos bons, eu tive a sensação de que o melhor texto viria dela.

E eu estava certo:

"Tuio distribuiu generosamente sua cultura e seu bom humor até o último dia de trabalho no jornal, há sete anos, quando se aposentou. Formou e informou todos os que tiveram o privilégio de conviver com ele ao longo de mais de 30 anos de jornalismo."

*


Fico pensando não no que o Tuio escreveria sobre Falsa loura, mas no que ele falaria. O universo que Carlão criou é uma dádiva para o humor sarcástico que Tuio tinha nos bastidores.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Imbecilidade sem fronteiras


Nada de crise econômica, nada de greve dos professores (a primeira na Inglaterra em anos): a matéria sobre os balões do Padre Adelir foi a terceira mais lida do site do Guardian ontem, conforme indica o ranking do jornal.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Google x O Mundo - round 669

À sua maneira, o Google ganha dinheiro a custas de conteúdo alheio. A lógica, veja bem, é sutil. Um jornal tem um esforço milionário para produzir uma notícia, publica num site, sustenta uma estrutura monstruosa para vender anúncios e, de repente, perde os míseros centavos que o clique do leitor rende para o Adsense. O lance é sutil e ainda não ficou claro quem ganha mais nessa tal de nova realidade. Tanto que alguns jornais adotam o AdSense como ferramenta de publicidade online para áreas não-comercializadas.

O debate já é comum em congressos de jornalismo. Que eu saiba, o tema é mais candente nos encontros dirigidos aos donos de jornais, embora, na minha cabeça, seria uma área interessante até para os famigerados sindicatos, se tentassem levantar uns trocados para o bolso de seus associados.

Agora, anuncia o New York Tines de hoje, há um novo capítulo na novela mexicana de amor e ódio: uma ferramenta em que o Google se oferece para pesquisar dentro do site de terceiros e, de quebra, joga anúncios da concorrência na página de resultados. Por exemplo: quem procura anúncios de emprego no Washington Post, conta o Times, vê links de AdSense para a agência Monster.com.

A briga, mais uma vez, é boa.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Meu vizinho é um druida


No dia em que se comemoram (2008 - 33 =) 1975 anos da crucificação que acabou dizimando o paganismo da Europa, o Guardian publica um ensaio fotográfico bacana sobre os druidas contemporâneos.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Entrevista com Pratchett

"I don't for certain. I'm nearly 60 and I've never been nearly 60 before so
I'm not sure if some of the things happening to me are Alzheimer's or getting
older. Nor is anyone else. If I say, 'I keep losing my keys,' someone will say,
'That's me!' And, again, sometimes, I do find days really hard. If you have a
really complex day with lots of fans ringing up or emailing, lots of meetings,
by the end of it I just want to go and sit down quietly. But that in itself is
not an Alzheimer's thing. Everyone feels like that after a difficult day."

O escritor Terry Pratchett está com Alzheimer. Ontem, o Guardian publicou uma entrevista de dar nó na garganta com ele.

quinta-feira, 13 de março de 2008

quarta-feira, 12 de março de 2008

Pilhas e listas

Simplesmente não dou conta de fazer tudo. Ontem à noite, saí da agência com uma lista de quinze tarefas por fazer. Ao longo do dia, cumpri duas. Saldo no começo da noite: vinte itens. Me dou conta agora que tenho que incluir mais dois livros (300 páginas cada) na lista. Prognóstico: vamos, eu e a lista, entrar em colapso nos próximos dias.

Fora da agência, ainda tem um projeto que vai começar a rolar. São mais dois livros que chegaram aqui. Nem comecei.

Estou na página 40 de Na pior em Paris e Londres, o proto-blog literário que George Orwell fez enquanto passava fome em meados do século passado.

As pilhas de livros só aumentam.

As de quadrinhos, pior ainda.

Aliás, nem comentei aqui as últimas resenhas que fiz. E olha que tinha coisas bacanas no meio, como A força da vida, do Will Eisner, e Pride of Baghdad, que é uma espécie de Persépolis com leões falantes.

E Persépolis é um filme bacana, hein?

Enfim, enfim. Nem eu agüento mais esses posts cheios de desculpas para a escassez de posts. Mas é a vida. E é assim que eu gosto.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

A era das trevas

Eu vou mais longe nessa história da Igreja Universal versus jornalistas. Sou a favor de que se retire a importância que a liberdade de credo tem na constituição. Quero fim de privilégios para todas as igrejas, inclusive a sua, seja ela qual for. Quero ter o direito de processar os charlatões por charlatanismo.

Porque, minha senhora, a gente sempre soube que a corja dos dogmas ia longe demais, e agora essa gente decidiu intimidar jornalistas e fazer ações em massa para obstruir ainda mais a atrolhada justiça.

Nem preciso dizer que isso é um desserviço para o país e até para os coitadinhos que os cultos, todos eles, declaram querer ajudar. O simples gesto de um juiz ler um processo desses e levantar o traseiro da cadeira pra ir ao armário arquivar um processo inútil desses toma tempo do cara. Juízes têm mais o que fazer do que servir aos caprichos messiânicos de religiosos e seus rebanhos.

E se essa gente intimida jornalista de jornalão, imagina só o que faria com o jornalinho da cidadezinha. Eles querem calar a boca para que ninguém mais revele as barbaridades deles. E querem instaurar uma Guerra Santa.

(Pra apoiar uma idéia dessas tem que ser alguém do quilate do Lula e do PT, por sinal, porque a catrefa rubro-escarlate agora quer fazer o mesmo!)

Amigos da Record, da Guaíba e do Correio do Povo, me desculpem, mas eu não tou do lado de vocês, porque vocês estão entre os que crêem, e eu não creio.

Não é certo que alguém diga a uma criança que deve se submeter a um conceito abstrato como um deus - se um adulto cai nessa, é um imbecil, mas ao menos é vacinado. Não se pode mais admitir que um punhado de gente ocupe as TVs para transmitir milagres a preço de dízimo que são verdadeiras piadas médicas e científicas.

Venham, me processem! É o que falta pra eu entrar numa jornada de processos sobre charlatanismo.

Crentes do Brasil, os comentários estão abertos aos seus xingamentos. Deus todo-poderoso, send in the clowns.