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domingo, 18 de março de 2012

Tochtli, a culpa por isso tudo que está aí e o que me impressionou no vídeo Kony 2012

Várias capas de Festa no Covil. Roubei do site do Villalobos


"Se jogam uma bomba atômica em você, os sabres não servem pra nada."

Gosto dessa frase que o Juan Pablo Villalobos escreve mais pro fim de seu Festa no Covil. De certa forma, esse romance curtinho que a Companhia das Letras lançou há umas semanas pode ser definido por ela. Porque o livro fala sobre (e é narrado por) esse menino, Tochtli, que vive isolado do mundo num cartel de narcotraficantes. Tão isolado que consegue contar quantas pessoas conhece (14). Filho de Yolcault, El Rey, não sabe exatamente por que vive isolado. Nem mesmo tem discernimento para entender o que se passa ali. É protegido. E se protege. Tipo o Mito da Caverna.

Tochtli é espertinho. Tem os sabres. Mas enfrenta uma bomba atômica, que é uma montanha de informações que ele desconhece. Ele nem sabe que vive no alto de um império de podridão etc. e tudo o mais que o narcotráfico é.

***

Os últimos dias foram corridos. Queria ter lido Festa no Covil em uma sentada, mas não deu. E olha que são menos de 100 páginas com uma fonte bastante razoável.

(Já volto pro Tochtli.)

Durante a semana, também não vi o Kony, aquele que todo mundo viu e que se tornou o vídeo que se viralizou mais rápido na história da internet. Só que o vídeo tem meia hora e, desculpa, é uma colagem de imagens com muitos clichês, não consegui me empolgar na primeira tentativa.

Assim:


Vi ontem.

Minha primeira reação foi "O Banksy fez isso". E não só pelo chapa Shepard Fairey, que aparece lá pelas tantas. Mas é que o autor parece alguém que entendeu o famoso "tudo isso que está aí". Banksystyle.

Aí fiquei pensando o que fez, até agora, 82 milhões de pessoas verem esse vídeo quase por inteiro (porque o Google só conta se você se aproxima do fim).

Ou melhor: o que motivou as primeiras mil ou dez mil pessoas a verem esse vídeo quase por inteiro. Porque, a partir de algum momento, a força do hype explica o fenômeno. Mas o que leva alguém que não é mais amigo do autor a dizer: "Ei, você TEM QUE ver esse vídeo" quando esse vídeo tem meia hora, é repetitivo, é em inglês, é uma colagem caseira de imagens e que, convenhamos, não é como a Susan Boyle, que você vê rapidinho, vê de novo, chama um amigo pra ver com você e, de repente, você mesmo, sozinho, percebe que foi responsável por uns dez views.

Raiva do ditador? Vontade de participar de um evento global? Desejo de ser um super-herói por um dia? Tentativa de mandar no governo? Culpa por não saber que existia um bandidão na África? Ou, somando tudo, uma forma de tentar lidar com a culpa que se sente pelo "tudo isso que está aí"?

(Na boa: adoro a ideia de prender Kony. Contudo, é a África. Um continente inteiro que é uma tragédia. Sudão. Nigéria. Líbia. Um continente inteiro que foi colonizado. E aí um rapaz americano. Enfim.)

***


Aí voltamos ao Tochtli. Que vive ao lado de um bandidão do narcotráfico mexicano. E, pelo que sabemos, o narcotráfico mexicano não é lá muito diferente de um Kony no quesito "atrocidades".

Tochtli não enxerga que seu mundo é estranho (pra nós) porque ele já nasceu imerso em todas as mentiras. Vive num mundo de fantasias, com samurais, hipopótamos anões, chapéus e palavras difíceis. Não pode sair (e aqui o poder é bem amplo). Não chega a ser muito diferente de quem tem um colar de diamantes e não sabe como a pedraria foi extraída de uma mina África.

Quer dizer: Tochtli não enxerga, mas há um subtexto que percorre o livro que indica que ele não quer ou não pode (porque não está pronto, porque tem limitações) enxergar.

Festa no Covil virou um sucesso editorial. Ganhou rapidamente edições em diversos países, e mais outros vão publicá-lo, o que não é exatamente comum para o primeiro romance de um autor latino-americano. Não é na mesma toada de Kony. Mas Festa no Covil também é um baita sucesso global.

Fiquei com a sensação de que Festa no Covil e Kony 2012 contam histórias muito parecidas sobre a tentativa de enxergar a origem do mal que está ao nosso redor.

***

Chegamos a um ponto em que tudo pode gerar culpa. Porque conseguimos enxergar a origem do mal.

A moça vai ficar noiva. Dez sudaneses morreram extraindo o diamante do anel da mina.

O cara resolve deixar de andar de carro pra pegar metrô. O sistema é hidroenergético, mas a eletricidade alagou hectares e hectares de mata pra ser gerada.

O rapaz compra um celular. Um chinês se matou.

O sujeito põe molho de tomate no cachorro-quente. Um agricultor do interior de São Paulo perdeu os braços porque precisou aplicar o agrotóxico sem proteção adequada.

Kony 2012 e Festa no Covil falam sobre essa consciência extrema que surgiu com a proliferação de abaixo-assinados, campanhas, notícias... A informação circula mais. Estamos todos conectados. Se tudo faz mal ao mundo, todos fazemos mal. Temos que lidar com o fato de que somos todos parte do bando de Yolcault, do exército de Kony ou do board da fábrica de celulares. É um inferno. Isso significa que não basta combater milicianos africanos com vídeos no Youtube. Para fugir do inferno, também temos que aceitar a nossa própria nocividade.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

"As Gas Costs Soar, Buyers Are Flocking to Small Cars"


Olhe bem pra manchete do New York Times de hoje: "As Gas Costs Soar, Buyers Are Flocking to Small Cars". Ela é histórica: nossos amigos norte-americanos estão deixando de lado os poluidores SUV e as picapes de lado, optando pelos compactos.

Em abril, um a cada cinco carros vendidos na América foram compactos ou subcompactos. "Quase uma década atrás, no pico dos veículos utilitários esportivos, só um em cada oito eram compactos", diz o texto de Bill Vlasic.

Os motivos apontados seriam econômicos: o aumento do preço do galão. Nãoparece ser uma onda de conscientização a respeito da mudança climática global, aspecto que a reportagem mal tangencia. Mas não é nada desprezível.

"É fácil a mais dramática alteração de segmentos do mercado que testemunhei em meus 31 anos aqui", disse ao Times George Pipas, analista-chefe de vendas da Ford.

Michael Jackson, executivo-chefe da AutoNation, maior varejista de automóveis de lá, é taxativo:

"A era das SUVs grandes com base de caminhão acabou."

Alguns impactos da mudança de hábito já pipocam aqui e ali. Os californianos já compraram 4% menos de gasolina em janeiro deste ano do que em um ano atrás.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Comida em tempo de guerra


Jamie Oliver, o Orlando Silva dos chefs, quer comprar uma briga: ele pretende sugerir que a população passe a viver como se estivesse em guerra. Ou seja: que coma em casa, que poupe comida, que cultive o que vai comer no jardim.

A proposta é o mote de um novo programa do mestre cuca e apresentador que foi anunciado pelo Channel 4 nesta semana -- e repercutiu um monte, inclusive no Guardian.

Se pega, sei lá. Mas é bom lembrar que os ingleses amam os orgânicos, os smoothies da Innocent (e não sem razão), os sanduíches da EAT e todas essas coisas verdes.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Desculpa, mas não dá

Andam dizendo por aí que dá pra ser ecológico sem ser chato. Até deve dar. Depende do que o sujeito acha que é chato.

Geralmente, o ecochato é um cara que muda a própria vida. Que faz algo simples, mas que os outros não fariam, como fechar a torneira ao se ensaboar no banho. Bobo, quase estúpido, mas muita gente não fecha a torneira.

Ou então o cara separa o lixo. Coisa que muita gente não faz, que coisa!

Aí esse sujeito, mesmo sem abrir a boca, fica lá. Sua própria existência é uma prova inconteste de que a gente não tá nem aí pro planeta. As suas ações simples denunciam a nossa preguiça. Cada gesto dele equivale a uma inação nossa e, portanto, à nossa contribuição diária pro aquecimento global.

Fato é que não dá pra mudar o mundo mantendo os mesmos hábitos e vivendo numa vida cômoda. Tem que desligar o ar condicionado do carro também nos dias quentes, e não só quando está agradável. Tem que pagar um pouco mais por uma embalagem de vidro e por um tomate orgânico da região. Tem que ir a pé até a esquina. Tem que ir ao trabalho de ônibus e metrô.

E, a propósito, tem que ligar na prefeitura e dizer que o sistema de transporte tá uma merda.

Não adianta não mudar os hábitos. Nem dizer que é mais legal andar de táxi, passar calor ou fechar a torneira. Porque não é. É chato, sim. Mas tem que fazer.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Greenpeace no Pará

Está rolando a maior treta no Pará: o Greenpeace tentou tirar uma tora de madeira queimada de 13 metros para excursionar pelo país e denunciar a devastação da Amazonia. Não deu: umas 300 pessoas cercaram os oito ativistas, informa o site da ONG. Eles estão cercados na sede do Ibama.

Para dar uma noção a vocês do que está rolando, o Ibama chegou a cancelar a autorização de transporte da árvore para "não agravar o conflito". Coisa de governo. Não tem exército por lá, não?

É surreal.

Mas mostra ao menos que quem está depredando a Amazônia está se sentindo ameaçado.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Innocent 100% reciclada

A Innocent acaba de lançar a primeira garrafa de plástico 100% reciclado (e 100% reciclável) do mundo. Por enquanto, são quatro sucos vendidos na embalagem, que é completamente revolucionária. Mas, ano que vem, todos os produtos da empresa inglesa sairão da fábrica nessas garrafinhas.

Depois o povo olha estranho quando eu digo que Innocent é a marca mais foda que surgiu nos últimos anos.

sábado, 22 de setembro de 2007

Vamos a la Vörland, ô ô ô ô ô



A nova edição da Colors é um guia de turismo de Vörland produzido em 2057. É uma brincadeira para mostrar o quanto o mundo pode mudar em 50 anos. Pelo que se depreende, Vörland seria hoje em dia um lugar remoto e gélido no norte do hemisfério norte. Mas, na revista, é um destino turístico muito admirado por seus praias e seu calor.

O aquecimento promovido pelas mudanças climáticas tem conseqüências direta na vida das pessoas -- protetor solar de fator 200, fim do uso do petróleo como combustível, compensação de carbono obrigatória para recém-nascidos e cartão de crédito de carbono, por exemplo. Nadar no mar é perigoso por causa das mães-d'água e a malária se tornou epidêmica

O bacana é que a revista não fica fazendo discurso. Ela só esfrega na sua cara, sem dó, que você nunca mais vai tomar banho de mar se não mudar o seu comportamento agora mesmo.

Hoje em dia, é raro encontrar a Colors no Brasil. Muitas edições simplesmente não são trazidas pelos importadores. Mas a edição Welcome to Vörland está nas prateleiras. Comprei a minha na Livraria Cultura. Eles não vendem revistas no sistema online, mas se você mora numa cidade que tem Cultura e não achar a revista por lá pode pedir que eles mandam buscar de outra filial.

sábado, 18 de agosto de 2007

Freeganistas: você ainda vai ouvir falar deles

Os freeganistas vão, ironicamente, provocar uma gastança de papel incomensurável nas próximas semanas. É que amanhã eles serão destaque no Observer. E o jornal inglês é um pauteiro danado de bom para a imprensa mundial. Se ele fala, pode ter certeza de que até a imprensa brasileira vai tratar do assunto uma hora dessas.

Cá entre nós, é bom ficar de olho nos freegans (há uma definição bem precisa aqui). A idéia tende a colar porque não soa tão estranha para os nossos dias. Se, de um lado, tem gente que não muda seus hábitos de jeito maneira, do outro tem até celebridades como o Al Gore e o Bono Vox dizendo que o caminho é por aí.

Os freegans radicalizam (com uma pitada ideológica) uma idéia que está no meio de nós, que aparece na TV, que o taxista comenta com a gente. E que, em sua exacerbação, acaba virando bandeira.

Mas é inegável que algumas de suas ações são mais que bem-vindas: transformar terrenos baldios em hortas, caminhar e recuperar coisas desperdiçadas são coisas simples que todos nós podíamos implantar no nosso cotidiano.

sábado, 7 de julho de 2007

Dead Earth

"Next year I am going to launch a festival called DEAD EARTH. Andyet, weirdly, it will have a smaller carbon footprint than Live Earth.Because the only way I could achieve a larger carbon footprint than Live Earth would be to drop an asteroid on Australia. And that's justa little outside the range of my capabilities right now.Still, it's good to have ambitions."

Warren Ellis, autor de Planetary, entre outros quadrinhos, em seu adorável boletim por e-mail.