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domingo, 8 de abril de 2018

Nos últimos dias

Exposições

Maria Auxiliadora, no Masp
Imagens do Aleijadinho, no Masp
Emanoel Araújo, no Masp
Véio, no Itaú Cultural
Esse obscuro objeto do desejo, na Fortes D'Aloia & Gabriel

Livros

Os Sertões
Entre o mundo e eu
Reflexos e Sombras

Filmes

Imagens do Estado Novo 1937-1945
Trash Humpers (no Mubi)
Let there be light
Uma mulher fantástica
Zama

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Turrell


Essa história aconteceu durante a exposição Materialidade, no Sesc Belenzinho, em 2015, que exibiu a obra acima - uma projeção de James Turrell.

Um menino viu a obra e foi com tudo em direção a ela. Bateu na parede.

A mãe disse:

- É uma parede, meu filho.

E eis que o menino, que entendeu tudo da vida, disse:

- Claro que não, mãe. É uma passagem.

E se arremessou de novo, com toda a força.

Sobre prioridades

Diante da possibilidade de adquirir uma das arlesianas de Van Gogh, o irmão de Matisse preferiu usar o dinheiro pra comprar uma bicicleta sem corrente.
Amélie, mulher de Matisse, penhorou um anel de esmeralda, um de seus favoritos, para comprar As banhistas, de Cézanne. Perdeu o prazo de resgate e nunca recuperou a joia. O casal ficou com a pintura por 37 anos. Amélie não captava muito o que tinha ali, mas sabia que era importante, e era mesmo: Matisse foi profundamente influenciado por esse convívio com o quadro.
Acho que essa historinha diz muito sobre amor e sobre prioridades.



(Essa história está no Matisse, Uma vida e foi publicada originalmente no Facebook em 9 de agosto de 2016.)

sábado, 17 de fevereiro de 2018

sábado, 27 de janeiro de 2018

Barroco

(Ouro Preto, 15 de novembro de 2016)

Vim a Minas ver o barroco. Ao menos, uma parte dele. O barroco é imenso.

Tenho visto o barroco no Brasil todo.

Ontem, o guia que me levou a Congonhas perguntou o que eu gostaria de ouvir no carro. Eu não sou muito de música. Tanto faz. Mas gosto de ouvir o que as pessoas escutam.

- Pode ser hip hop?

- Pode. Eu não falei que vim aqui pra ver barroco? Vamos ouvir!

Ele estranhou. Expliquei que barroco, como hip hop, é feito por gente periférica, gente preta e mestiça, gente que sofre pra viver e que sofre preconceito.

Na véspera, tinha visto quatro leões de essa na Igreja de São Francisco - São Francisco, imagino eu, gostaria do barroco e de hip hop. Os guias dizem que os leões têm cara de gorila, tecem desculpas de que não parecem leões dizendo que Aleijadinho nunca viu um leão na vida. Os leões são claramente quatro homens negros furiosos, ensandecidos, e com pau duro. Os guias nunca mencionam o pau duro. Nem que são negros. Tancredo Neves foi velado em cima desses quatro leões de essa de pau duro, negros furiosos, ensandecidos.

Por aqui, inventa-se muita coisa sobre Aleijadinho, de quem tão pouco se sabe. Se ainda desse tempo, iam dizer que Aleijadinho era branco, bonito e santo. Mas era mestiço, filho de escrava alforriado no batismo, doente, mulherengo, pelo pouco que se sabe.

Toda a história do Brasil está no barroco.

Eu só chamo esse barroco de barroco por hábito, porque é mais fácil. Mas isso que tem em Minas, em Pernambuco, no Rio, em boa parte do Brasil, isso é outra coisa. Isso é hip hop, é o funk, é o brega.
Mestre Ataíde faz um teto de igreja em que todos os anjos e santos são negros, e isso tem mais a ver com Mano Brown que com Bernini.


quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Últimos dias

Livros

Brasil: uma biografia, de Lilia Moritz Schwarcz e Heloísa Starling
Poemas negros, de Jorge de Lima
Fábulas completas, de Esopo

Filmes

120 batimentos por minuto, nos cinemas
Aquele querido mês de agosto, no Mubi
Antipornô, no Mubi

Exposições

Tunga: o corpo em obras, no Masp
David Claerbout, na Pinacoteca
Rodrigo Andrade e Ensaio de Tração, Estação Pinacoteca
Quilômetros, de Gustavo Speridião, na Sé

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Nota rápida sobre o dia de ontem



Em 4 de janeiro de 1966, o artista conceitual japonês On Kawara pintou o quadro acima, e desde então, criou a série Date paintings, em que pintou datas, num trabalho tão obsessivo quanto meditativo, um exemplo emocionante de dedicação a um processo. On Kawara pintava aos domingos. Se não conseguia acabar a pintura no dia em que começou, On Kawara a destruía. Ao longo dos anos, pequenas mudanças foram se tornando perceptíveis: a cor (predominantemente tons de cinza), a fonte, a inclusão ou não de pontos, espaços, vírgulas. Há também variações geográficas, com a posição dos elementos de acordo com a cultura em que o quadro é pintado.


On Kawara também tem uma série em que envia postais carimbados com a hora em que acordou (53 deles, endereçados ao colecionador Sylvio Perlstein, estão agora no Masp, junto com duas pinturas de data, na exposição temporária A inusitada). De forma permanente e ampla, há uma grande coleção de datas no Dia:Beacon, um museu importantíssimo que fica no subúrbio de Nova York. É emocionante.

Em telegramas, On Kawara avisava aos amigos: I'M STILL ALIVE.

Nesta quinta, soubemos da morte de On Kawara.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Exposições para levar / recomendar a estrangeiros

Já vi acontecer algumas vezes: um estrangeiro chega ao Brasil, e aí o paulistano, cheio de orgulho, leva-o ao Masp.
Nada contra o Masp, pelo contrário. Vou sempre. Mas o Masp é um museu muito calcado em coleções europeias e norte-americanas. É tímido pra quem tem um Metropolitan, um Louvre ou um Prado por perto. O turista é cordial, fica feliz pela atenção, agradece.
Claro que estou generalizando, e há turistas que não são de cidades grandes e outros que são de países que não têm um Masp e nunca puderam ir a um museu etc. Ou tem um cara que é fanático por Renoir ou Van Gogh ou Turner (exemplo: hipoteticamente, eu iria no Masp, sim). Mas enfim: de forma geral, há opções que me parecem mais interessantes pra levar um turista, ou mesmo pra recomendar. Até porque, em época de Copa, um turista não tem tempo nem disposição de ir a muitos museus.
Separei algumas exposições que vi em São Paulo como sugestões:
foto roubada do site do mam
* A vontade construtiva na coleção Fadel, no MAM-SP - Essa eu acho a mais legal. Tem modernistas, tem concretistas, neoconcretistas, formalistas. Ninguém concorda com ninguém. A briga por quem trouxe realmente o modernismo pro Brasil é travada ali a tapa, a chute, com dedo no olho. Não tem tudo, mas tem tudo o que precisa pra entender a dinâmica da arte no Brasil no século passado. Mas provavelmente você vai precisar dar uma ajudinha.
* Transarquitetônica, de Henrique Oliveira + Vânia Mignone + acervo, no MAC-USP (no prédio em que era o Detran) - Acho que esse trabalho do Henrique Oliveira rende bastante pra um estrangeiro. A pintura da Vânia Mignone eu curto demais. E o acervo tá com coisas boas, como o Hudinilson Jr., Leon Ferrari, Volpi... Eu já tinha ido no novo MAC duas vezes (e mais uma em que tava faltando luz), mas agora tem mais andares preenchidos, e tá bem interessante. Mesmo pra quem mora em SP, tá merecendo uma visita atenta.

Boltanski, foto roubada por mim mesmo
* Boltanski 19 924 458 +/-, de Christian Boltanski, no Sesc Pompeia - É a mais paulistana de todas (e já ia me esquecendo dela). Num dos galpões da Lina, prédios feitos com caixas, mais sons e rios não deixam dúvida: o artista recriou São Paulo.

* Um trágico nos trópicos, de Iberê Camargo, no CCBB - Esse eu tinha até esquecido, mas a Lili lembrou nos comentários. Eu, meio como todo mundo de Porto Alegre, é meio habituado a ver muito Iberê com frequência. É incrível ver Iberê fora de lá: ao ver as pessoas fascinadas, nos lembramos do nosso próprio fascínio perdido.

Selfie roubadíssima no Miguel Rio Branco
* Teoria da cor, de Miguel Rio Branco, na Estação Pinacoteca - Miguel nasceu na Espanha, mas é brasileiro. É um imenso fotógrafo. Esta exposição é uma retrospectiva que parte do seu uso de cores. Tem obras antigas, outras mais novas, algumas que estão no pavilhão dedicado a ele em Inhotim. Aproveite e já emende com o acervo da Estação Pinacoteca e com o da própria Pinacoteca (e de uma olhadinha no Grupo Zero, que já estando lá não custa).
E mais:
* Se o cara tá em Porto Alegre, tem umas dicas aqui.
* Se ele vai pra BH, tem Inhotim.
* Indicando sem ter visto: Richard Serra no IMS do Rio, com a casa modernista totalmente recuperada pra abrigar os desenhos do Serra.
* Em São Paulo, ainda vai abrir a exposição dOsgemeos.

Se quiser deixar dicas, os comentários tão aí pra isso.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Cinco exposições em Porto Alegre

Post que escrevi no Facebook há duas semanas. Dentro do possível, atualizei pro blog, mas não mexi muito, pra ficar como registro.

Amigos de Porto Alegre eventualmente reclamam que as coisas de que falo aqui nem sempre servem, que vários filmes que comento nunca estreiam nos cinemas de lá, que não é fácil vir pra São Paulo toda hora. Pois vou aproveitar que Porto Alegre está com uma agenda de exposições absolutamente incrível pra compensar as reclamações.

Jailton Moreira, Rotação
1) Percevejo, de Jailton Moreira, no glorioso Museu do Trabalho
Vou começar pela mais complicada, porque, pra resumir, gosto demais do Jailton e sou muito grato a ele por coisas que vão de orientações a respeito de Ticianos do começo da carreira em um refeitório de uma igreja em Padova até dicas de sabores de tramezzini. E aí eu poderia dizer "descontem", mas nesse caso não vale. O Jailton é um cara que usa o mundo como atelier, então me parece que tanto os Ticianos quanto os tramezzini fazem parte desse processo de criação, que depois é editado (uma palavra bem feliz que surgiu num debate sobre a exposição que rolou sábado. Eu não sei como definir e, na verdade, não tenho o menor interesse em definir o que tem na exposição. Só quero dizer que é comovente.

2) O tamanho do mundo, de Vik Muniz (curadoria de Lígia Canongia), no Santander Cultural.
Eu gosto do Vik Muniz. É verdade que já tive mais entusiasmo com o trabalho dele. Hoje, me incomoda que, depois de entender a sacada, eu não tenha muito pra onde ir na obra. Deve ser a velhice. Mas ainda assim essa é uma grande exposição. Tem bastantes trabalhos novos - e me encanta especialmente a série de castelos de areia. E tem trabalhos antigos - entre eles, Cloud Cloud, primeiro trabalho de Muniz que conheci, em um programa de TV da época, e que continuo achando arrebatador.

3) Ensaio sobre a Dávida, de Nuno Ramos (curadoria de Alberto Tassinari), na Fundação Iberê Camargo

Dois filmes - Dádiva 1 - copod'águaporvioloncelo e Dádiva 2 - cavaloporPierrô - falam sobre a dádiva no sentido proposto por Marcel Mauss, em que as trocas ocorrem em um sistema sem valor monetário, e portanto trocar um copo d'água por um violoncelo ou um cavalo por um pierrô são atitudes absolutamente cabíveis. Achei bom demais. Bom demais mesmo.


Em tempo: as outras duas exposições que estão na Fundação valem muito a pena.


EXPOSIÇÕES QUE FECHARAM ANTES DE EU PUBLICAR ESTE TEXTO NO BLOG:

4) A força do tempo, de Ricardo Chaves, na Casa De Cultura Mario Quintana
O Kadão é editor de fotografia da Zero Hora. Trabalhei com ele lá. É um imenso fotógrafo: era certo que, se ele entrava no jogo, a foto seria um acontecimento. Ver esse trabalho reunido é bastante impressionante. Por conta da qualidade do seu trabalho no fotojornalismo, Kadão estava nos lugares que importavam. E, às vezes, em ocasiões ainda mais especiais, fez os lugares em que estava se tornarem importantes.

5) Território da Folha - Paisagens de Teresa Poester (curadoria de Eduardo Veras), no MACRS (que fica na CCMQ)
O Edu Veras também trabalhou comigo na ZH. Se trabalhar numa redação é legal pelas pessoas em volta, o Edu era uma das pessoas que fazia o trabalho valer a pena. Nos encontramos por acaso na exposição do Jailton, e ele me contou que tinha feito essa curadoria da Teresa Poester pro MAC. Só trabalhos com paisagens, de várias fases, de muitos anos. Corri pra ver. Eu não lembrava direito do trabalho da Teresa, tinha mais uma lembrança meio amorfa. Desta vez, os trabalhos bateram com uma força imensa. Ainda vou ver o que vai sair daí.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Thomas Demand e o artista que não se reinventa todo dia



"The standard, canonized approach would have been to invent art each day anew - to change these things every day whenever the rule became visible. But for me, this also meant that if I could do everything, I could choose to do only one thing. It's similar to language: if you use a different language every day, you lose the nuances and colors that are possible when you speak a language particularly well. And when it happens, it basically means that you're only able to employ headlines, because you're picking a new language every day. However, it's the nuances that are important to me."

Thomas Demand, em entrevista a Hans Ulrich Obrist, no livro dedicado a ele na The Conversation Series.

***

Colei as duas imagens neste post para contextualizar o trabalho de Thomas Demand, que não é muito conhecido fora do universo da arte contemporânea.

As imagens são, a rigor, as obras. Demand expõe as fotografias. São imagens feitas a partir de outras imagens, que não só já existiam, mas também tiveram alguma circulação nos meios de comunicação de massa. A janela acima, por exemplo, é feita a partir da foto de uma loja em que um garoto foi assassinado depois de ser explorado sexualmente. A imagem ao lado foi criada a partir do quarto de hotel em que Whitney Houston foi encontrada morta.

Não é por acaso ou preciosismo que digo que as imagens foram criadas a partir de outras imagens. É que elas foram mesmo. Demand reconstrói em estúdio esses espaços, em tamanho natural. Tudo em papel colorido, de diversas cores e formato. Isso mesmo: tudo que você vê na imagem é papel.

Em junho, visitei seu estúdio de Berlim com um grupo de estudos. Vi isso tudo ao vivo, o que não é comum: o trabalho de Demand é a imagem gerada. É isso que aparece na exposição. Depois da fotografia, todo o modelo é descartado. Ainda assim, ver esse modelo é fascinante. Até as dobras da toalha são feitas em papel. Para parecer tecido, Demand usa uma técnica que aprendeu na Itália, numa paróquia sem dinheiro que fazia as vestimentas de seus santos com papel.

Foram anos de pesquisa até encontrar a técnica. Não me parece que sejam anos de repetição, mas de trabalho intenso, de pesquisa séria, de aprofundamento. Por isso, destaquei o trecho durante a leitura, e decidi compartilhá-lo. Eu diria até que essa consistência não é algo que eu costume ter no meu próprio trabalho, ou que me interesse na hora de criar. Mas ao menos é alguém que vai um pouco na contramão do discurso corrente e chato que reduz a importância de artistas que não são novidadeiros.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Marina Abramović e o erro no processo criativo

"Failure is incredibly important. I put so much attention on failure, because it's so easy with artists doing the work that is repeating, repeating, repeating and you know that if you have a certain amount of success with the public, you are doing these things over and over again and that's so boring. It's really important to look into new territory, to look at things you have never done and things that you are afraid of; things you are not sure of. They are the things that really matter. If you experiment it means you have the possibility to fail and if you fail an experiment it's a really valuable experience. It's much more valuable than just the having success. I think failure is the one of the most important experiences to have as an artist. When I look to see how good an artist is, it's always important for me to see how many times they fail. It's really important that you make a great work of art and then after that you have to make at least three really shitty things."

Marina Abramović em depoimento a Hans Ulrich Obrist, no livro da The Conversation Series.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Crumb fala sobre música

The modern world - it’s just like with architecture - something has really gone wrong with the music. It’s partly result of electronic medias; people don’t actively participate in musical culture the way they did before. I met an old man in Paris years ago, he’s dead now, in the 1980s. He was young in the 1920s and 1930s. He said he and his wife would go out dancing five nights a week because it was in the neighborhood, it was cheap, it was social and the music was live. Imagine a culture in which this goes on every night in the neighborhood. Imagine what that is going to do with the musician. He is part of the scene; the dancers are as important to him as his instrument. I played for dancing myself. It’s very inspiring when people are dancing to your music; it inspires you to give it more rhytimic drive, you see the people moving, you become part of something, you lose your ego. All that old music has that for me, the music I like.

*


A lot of guys I know like 1950s rhythm and blues (R&B) but it’s too slick for me. All the musicians start to try to imitate the slick, professional guys after a while, so the whole thing becomes no longer interesting. Musicians became self-conscious. In the old times, before mass media, people sang, people would get together and sing just for enjoyment. They couldn’t turn on their radio or television and nowadays most people say: “I can’t sing. I dion’t have a good voice,” because all they hear is the most professionally trained singers on radio, or TV or CD or whatever. So music has become a highly professionalized thing, which to me spoils it. I would rather hear somebody that is amateurish, even crude, but still has a sincere, authentic connection. I would rather hear that than some virtuoso.

Robert Crumb, em dois trechos da entrevista conduzida por Hans Ulrich Obrist.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Para saber mais: 1922 e Ho-ba-la-lá


Quando eu era moleque, lançaram a revista Superinteressante. Era bem mais científica do que hoje - embora fosse mais amigável que os livros escolares, a pegada pop só veio mais tarde. Lembro de ter passado horas tentando entender a Teoria da Relatividade que um pôster me prometia decifrar. Às vezes, achava que tinha conseguido, mas aí uma cãibra cerebral me levava de novo à estaca zero.

Uma das coisas que me chamava atenção na Super era uma box no final de cada matéria: Para saber mais, dizia, e vinha uma recomendação de livros que complementariam o tema. Supostamente, a matéria era tão interessante que provocaria a vontade de o leitor se aprofundar. Era só o primeiro passo.

Na minha fantasia, era assim que funcionava. Hoje, fico com a impressão de que é mais uma bibliografia consultada pra fazer a matéria. Talvez tenha sido sempre assim. Talvez nem seja assim. Vai saber...

Lembrei disso porque, por acaso, li duas reportagens que saíram em livro nos últimos tempos. 1922 - A semana que não terminou, de Marcos Augusto Gonçalves, e Ho-ba-la-lá - À procura de João Gilberto, de Marc Fischer. Acaso mesmo. 1922 acaba de sair. Ho-ba-la-lá eu levei pra praia não pra ler, mas pra dar de presente pra uma pessoa. Que não pode ir. E aí lá estava ele, dando sopa. Engatei.

A rigor, os dois livros não tem quase nada em comum. São, em vários aspectos, antagônicas. 1922 é uma reportagem clássica. É resultado de muita pesquisa, de algumas entrevistas. Tem uma nobreza: o autor e seus pesquisadores reviraram arquivos, lidaram com pó, confrontaram versões. É um esforço que aparece pro leitor. Ao menos, pra um leitor como eu, que perde em conhecimento sobre a Semana de Arte Moderna pra qualquer normalista.

Ho-ba-ba-lá surgiu como resultado de uma paixão: o alemão Marc Fischer tomou o fora de uma garota e se apaixonou por João Gilberto. Veio ao Brasil para ouvi-lo cantar Ho-ba-ba-lá. Arma uma busca maluca por um notório recluso. A investigação tem idas e vindas - e umas descobertas pelo caminho. Fischer fascina-se, a certa altura, a ideia (compartilhada por muita gente) de que João é um vampiro, e chega ao ponto de cobiçar dicas do casalzinho de Crepúsculo, que está filmando no Rio na época. O que 1922 tem de meticuloso, Fischer tem de turbulento: às vezes, sente-se lost in translation e deixa o leitor com a mesma dúvida. Azar. É obra de um apaixonado que aceita se perder, divagar e sonhar.

A comparação entre os dois livros, insisto, vem do acaso. Não quero forçar um elo entre duas obras que se conectam apenas pelo rótulo de livro-reportagem e por tratarem de temas canônicos da cultura brasileira. Mas, em mim, os dois livros criaram um efeito bom: o de querer saber mais.

Em uma reportagem sobre movimentos culturais brasileiros na Super, os dois livros poderiam constar dos boxes. Mas isso é o de menos. O que me encanta é que, de certa forma, os dois livros encerram-se com seus próprios boxes nos apêndices.

Acabei 1922 com uma vontade imensa de chafurdar na bibliografia em busca de mais informações sobre a Semana de Arte Moderna (e de ir na exposição da Tarsila no CCBB do Rio, ela que não participou da Semana, mas é modernista e antropofágica). Ho-ba-ba-lá me deu vontade de ouvir mais João imediatamente - eu estava no avião mas, por sorte, tinha dois álbuns no meu celular.

Não lembro se cheguei algum dia a ir atrás dos livros da Super. Mas agora me parece que esse é um bom critério para avaliar uma reportagem: que ela não seja autocontida, que seja instigante, que leve o leitor adiante.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Your cosmic fire




Gravei um videozinho na instalação Your cosmic fire, do Olafur Eliasson, que está no Sesc Belenzinho.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Últimos dias

Marina Abramovic em "The artist is present"


Exposições
As aventuras da linha, de Saul Steinberg
Oneness, de Mariko Mori

Livro
Tree of Codes, de Jonathan Safran Foer

Quadrinhos
Optic Nerve # 12, de Adrian Tomine

Álbum
Fôlego, de Filipe Catto

Game
The artist is present

sábado, 17 de setembro de 2011

Steinberg fala sobre o Brasil


"Certa vez, estive no Brasil e subi o rio Amazonas e estive em lugares muito curiosos, como Pernambuco, Rio, São Paulo. O que mais me impressionou aconteceu numa praia distante, acho que foi em Pernambuco, talvez no Recife. Primeiro, vi um bode verde, depois vi uma galinha verde, depois um cachorro verde. Era uma coisa misteriosa ver tantos bichos verdes. Acabei descobrindo a razão. Havia uma cerca recém-pintada. E os bichos tinham se esfregado na tinta da cerca. Foi o que mais me impressionou. Eu devia falar sobre a injustiça social no Brasil, sobre a arte, o clima, sobre situações glamurosas, como a minha exposição por lá. Mas o cachorro verde, a galinha verde, foram as coisas realmente essenciais."
Saul Steinberg, c. 1954
(da exposição em cartaz na Pinacoteca)

domingo, 11 de setembro de 2011

Últimos dias

"E o reboot da DC, hm?"

Filmes
Submarino
Um conto chinês

Programa duplo Nelson Leirner
Assim é se lhe parece (documentário)
Nelson Leirner 1961 - 2011 - 50 anos (retrospectiva)

Instalação
Rio Oir, de Cildo Meirelles

HQ
Animal Man # 1
Action Comics # 1
Les yeux du chat

Evento
Lygia Fagundes Telles no Encontros de Interrogação

Revista
Vitória em Cristo, perfil de Silas Malafaia na Piauí (ver post anterior)

(Obrigado, Lielson, pela imagem.)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Tim Burton no MoMA


Hoje faz um ano que visitei o MoMA e vi a exposição do Tim Burton - aquela que chegaram a anunciar que vinha pro Brasil, mas depois desapareceu do mapa. Procurando umas fotos, achei essa matéria que escrevi pra revista Movie. Resolvi republicar aqui.

Se bem me lembro (provavelmente me lembro mal), o André Forastieri decidiu me pedir uma colaboração poucos dias antes de eu embarcar pra Nova York, e acabamos achando que era uma boa ideia. Por conta dos prazos de fechamento, acabei escrevendo a matéria no aeroporto, num teclado minúsculo de um EEE PC. Por isso, acabei dando uns tapas nessa versão aqui, que deve ser diferente dos tapas que a Maria Beatriz deu na versão que s
aiu na Movie # 5.


Parecia shopping em véspera de Natal – dez pessoas por metro quadrado, empurra-empurra pra caminhar e um calor dos infernos. Só que não era shopping, e sim a exposição dos trabalhos de Tim Burton no Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA. Tem gente por todo lado. Mal dava pra ver as obras – que vão desde desenhos feitos para um concurso dos bombeiros de sua cidade-natal até uma escultura com movimentos robóticos do personagem Robot Boy.


A mostra, que inaugurou no fim de novembro e fica em cartaz até abril, é uma das mais populares do ano. Por lá, as filas constantes e o movimento forte marcaram as primeiras semanas da exposição (Nota: na época, eu não sabia que isso era fichinha. Semanas depois, amigos passaram mais de uma semana na cidade e não conseguiram comprar ingressos). No resto do mundo, a imprensa repercutiu os desenhos do criador de filmes como Peixe Grande, Edward Mãos de Tesoura e da nova versão de Alice no País das Maravilhas.


A filmografia de Burton por si só já justificaria toda essa atração que a exposição vem provocando. O diretor é um dos mais cultuados das últimas décadas. Suas criações saíram do mundo do cinema e passaram a ocupar uma posição de destaque na cultura pop. Por exemplo: Jack Skellington, de O Estranho Mundo de Jack, virou figura onipresente na cultura emo. Até hoje há bonecos de Edward Mãos de Tesoura nas lojas de brinquedos mais sofisticadas.


Mas a real é que a exposição cria um marco. Há um Tim Burton pré-MoMA: um diretor de cinema que faz filmes visualmente impressionantes e que havia lançado um livro de poemas. E há um Tim Burton pós-MoMA: um artista completo, que expressa sua visão de mundo gótica e lúdica em filmes, mas também em outros meios.


O Burton pós-MoMA é aquele que, num dos textos da exposição, se define não como um roterista, mas como um produtor de imagens – que podem se manifestar em qualquer meio.


Faz desenhos simples em guardanapos, mas também concepções visuais elaboradas com giz e aquarela. Faz esculturas que se mexem e encomenda outras para ajudar a pensar em filmes. Para consumo próprio, produziu uma série de fotografias em polaróide, que rendeu uma sala do museu dedicada apenas a elas, com a esposa, Helena Bohan-Carter e pedaços de bonecos de Jack Skellington. Escreve e ilustra poemas. Faz pinturas de seus personagens. Desenha muito. E também, claro, faz seus filmes.


Esse novo Burton, aliás, é um artista obsessivo – desenha muito, cria cada detalhe de seus filmes. E isso reflete na mostra: depois da seleção da curadoria, ficaram mais de 700 peças espalhadas pelo espaço. Entre elas, está a série Surviving Burbank, em que estão os desenhos feitos pelo Burton adolescente, leitor da revista Mad, morador de um subúrbio norte-americano. E os esboços para projetos nunca realizados, como o longa-metragem de Superman. E o clipe de Bones, da banda The Killers. E um estudo de animação em 3D para o personagem Stainless Boy. E máscara de Batman, capacete do Planeta dos Macacos, esboços de Alice...


Boa parte dessa produção visual também acaba de ser compilada em The Art of Tim Burton, um luxuoso livro de arte com quase 500 páginas (vendido apenas no site da editora). Não é um catálogo da exposição: vários trabalhos expostos no MoMA não constam do livro e vice-versa.

Na introdução, curta, Burton explica: toda a sua arte era pra ajudar a criar seus filmes ou apenas para ele mesmo. Nunca tinha pensado em torná-la pública – e só aceitou porque amigos e colaboradores davam sempre a mesma ideia: que tinha que mostrar.


Tinha mesmo: o Burton pós-MoMA não é um artista diferente. Mas é um artista melhor, mais completo, mais complexo e mais fascinante.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Oca Maloca / A Soma dos Dias

Juntei aí embaixo dois vídeos que fiz. Juntei porque os dois mostram passeios por obras de arte em que a gente entra e fica lá dentro, as duas em exibição em São Paulo.

São obras com 20 anos de diferença -- sem falar de todas as outras diferenças: branca / colorida, luz natural / lâmpada de maloca, tecido translúcido / madeira de demolição. Mas há outra similiridade entre elas: a parceria. Numa, com um exímio carpinteiro e dezenas de artistas. Noutra, com um músico renomado internacionalmente.

Filmei sem pretensão, ponto de vista de quem está entrando com uma câmera vagabunda na mão (e foi isso mesmo), tentando e fracassando em transmitir a ideia da obra para quem não a viu. Claro que é impossível.

Não abri os segredos da Oca Maloca, porque essa é a natureza dos segredos. A trilha do Philip Glass de A Soma dos Dias é quase inaudível, porque a Pinacoteca sábado é um barulho só - e lá também as falas se sobrepõem à música.

Os vídeos, enfim, são só isso mesmo.

Oca Maloca - Maria Tomaselli com João Melquíades
Caixa Cultural da Sé - até 17 de outubro



A Soma dos Dias - Carlito Carvalhosa com Philip Glass
Pinacoteca do Estado de São Paulo - até 7 de novembro

sábado, 14 de agosto de 2010

Uns DVDs que vi


Conversas noturnas - Lançamento da Biscoito Fino, é um documentário sobre a pianista argentina Martha Argerich. Quem já a viu tocar sabe que Martha é uma figuraça, que ela deixa o público com uma vontade louca de saber o que passa em sua cabeça. No filme, o diretor Georges Gachot consegue ser muito revelador a respeito de Martha, mas de uma forma sutil e muito elegante. O resultado não é uma caricatura. Pelo contrário: é de uma riqueza admirável.

O amor - Uma nora muito generosa tem que esconder de sua sogra, uma velhinha moribunda, que o marido está preso. Mais um filme de que eu nunca tinha ouvido falar, que era inédito por aqui em qualquer formato, mas que vi por conta do selo da Lume Filmes. Não tem erro: nunca vi um filme ruim lançado pela Lume.

Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia - Só pra confirmar o que eu tava falando: também da Lume. Até onde sei, é o único filme em que Sam Peckinpah fez o corte final, sem sofrer interferências do estúdio.

Por uma vida melhor - É um Sam Mendes (Beleza americana, Foi apenas um sonho) menor, e acabou saindo direto em DVD, sem passar pelo circuito. É o tipo de coisa que acontece, mas não faz muito sentido: um Sam Mendes menor está longe de ser ruim. Em vez de passar como um filme mediano nos cinemas, acabou se tornando um dos mais interessantes dos filmes direto para DVD do ano até agora.

Neblina e sombras - Outro filme menor na filmografia do diretor. Mas não chega a ser desprezível por isso. Até porque, como se sabe, um Woody Allen menor é melhor que quase tudo. Melhor até do que dizem sobre ele por aí. É que esse é um dos filmes mais achincalhados do diretor, dizem que é pesado e chato, que Allen perdeu a mão em sua homenagem ao expressionismo alemão. Mas agora que saiu em DVD, como parte de uma caixa com outros "filmes menores", revi e me dei conta de que Neblina e sombras tem o seu charme, o seu humor. Não é encantador e envolvente como Whatever works. Mas é bacana.

Coração louco - Se estou falando de filmes muito esquisitos pra você, arrisque este Coração Louco, história de um cantor country decadente chamado Bad Blake - um Jeff Bridges que atua loucamente e ganha Oscar por isso. Com Maggie Gyllenhaal, que é sempre uma satisfação de ver.

Capitalismo - Uma história de amor - Eu gosto de como o Michael Moore conta suas histórias. Para ser bem claro: gosto de como ele constrói a narrativa para nos envolver na sua cruzada para salvar o mundo. Eu não gosto da forma como ele pega a realidade e distorce de uma forma bizarra, para fazer jus à trama que quer contar. Esse é o problema desse novo documentário do cara - que também saiu direto em DVD. Mesmo que eu simpatize com algumas das ideias de Moore, não simpatizo em nada com a distorção. Moore não é burro. Ele sabe que está manipulando, e isso é irritante: se ele está fazendo isso conscientemente, e eu acho que está, Moore é um picareta. Mas, de novo, gosto da forma como ele monta suas histórias. E é isso, e não uma suposta verdade, que me interessa na sua obra.

Vida e arte de Georgia O'Keeffe - Veja bem: esta é uma recomendação muito específica. Porque o filme não é nada demais. E porque Georgia O'Keeffe não é uma artista que me interessa - não consigo entrar naquele mundo feminino leve e delicado dela. Nem consigo ver a agressividade contida que alguns espectadores veem em seu trabalho. Mas tem quem goste, e muita gente gosta. No ano passado, a mostra de suas abstrações no Whitney Museum foi um baita sucesso. E consta que esse telefilme deu um empurrão pra mostra. Então o meu interesse no DVD foi justamente esse: sou um espectador de artes visuais muito insistente e queria tentar entender mais uma vez o que motiva as pessoas a gostarem tanto de Georgia O'Keeffe. No filme, encontrei uma Joan Allen fazendo uma Georgia O'Keeffe chata e um Jeromy Irons matando a pau como o fotógrafo, galerista, jet set, amante e marido Alfred Stieglitz. Mas nenhum dos dois conseguiu me convencer ainda. Talvez você consiga. Aí me ajude aí nos comentários. Boa sorte.