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segunda-feira, 9 de abril de 2018

Entre o mundo e eu

Li Entre o mundo e eu, livro em que Ta-Nahesi Coates escreve uma longa carta a seu filho de 15 anos sobre o que é ser negro nos Estados Unidos.

(De uma forma resumida: ser negro é não ter direito pleno a seu próprio corpo, uma herança escravocrata. Imagino que no Brasil o sentimento de um negro seja parecido ou, talvez, ainda pior.)

Em Os Sertões, que acabara de ler imediatamente antes, a frase que me bateu foi "Canudos nunca se rendeu". Entre o mundo e eu é cheio de frases potentes, como citarei abaixo, mas a frase que ficou não é de Coates, e sim do jornalista Ralph Wiley, rebatendo um questionamento de Saul Bellow. O romancista tinha dado uma patada nos negros e na arte africana como um todo ao perguntar quem seria o Tolstói dos zulus.

“Tolstói é o Tolstói dos zulus”, respondeu, mais tarde, Wiley. “A menos que você ache por bem cercar propriedades universais da humanidade para uma posse tribal exclusiva.”

Tolstói é o Tolstói dos zulus.

Óbvio que é.

A arte fica mais fraca, e mais frágil, se é só de um pequeno grupo.

Seria uma pena que Coates fosse o Tolstói dos zulus, e não pudéssemos lê-lo e sermos impactado por ele fora de uma dada etnia ou comunidade.

Deixo aqui alguns trechos que selecionei. A edição é da Companhia das Letras, com uma ótima tradução de Paulo Geiger:

"Eu não podia encontrar um refúgio, como faziam muitos, na igreja e em seus mistérios. Meus pais rejeitavam quaisquer dogmas. Desprezávamos os feriados impingidos pelos que queriam ser brancos. Não suportávamos seus hinos. Não nos ajoelharíamos ante seu Deus. E assim eu não tinha o sentimento de que havia um Deus justo ao meu lado. 'Os mansos herdarão a terra' não significava nada para mim. Os mansos eram surrados no oeste de Baltimore, pisoteados na Walbrook Junction, espancados em Park Heights e estuprados nos chuveiros da prisão municipal. Meu entendimento do universo era físico, e seu arco moral se inclinava para o caos e terminava numa caixa."

"Sou negro, fui saqueado e perdi meu corpo. Mas talvez também possa saquear, pegar o corpo de outro humano para me afirmar numa comunidade. Talvez já tenha feito isso. O ódio confere uma identidade. O crioulo, a bicha, a puta iluminam a fronteira, iluminam o que ostensivamente não somos, iluminam o Sonho de ser branco, de ser um Homem. Damos nomes aos odiados estranhos e assim somos confirmados na tribo."

"A nenhum de nós foi prometido que estaremos de pé ao final da luta, os punhos erguidos para o céu. Não podemos controlar o número de inimigos que temos, sua força ou armamento. Às vezes nos deparamos com uma situação bem ruim. Mas quer se lute, quer se corra, devemos fazer isso juntos, porque essa é a parte que está sob nosso controle. O que nunca devemos fazer é entregar voluntariamente nossos corpos ou os corpos dos nossos amigos. Esta é a sabedoria: sabemos que não fomos nós que estabelecemos a direção da rua, mas apesar disso podemos — e devemos — conceber o rumo de nossa caminhada. E é este o sentido mais profundo do seu nome — o de que a luta, em si mesma e por si mesma, tem significado."

"Agora entendo meu pai e o velho mantra: 'Ou eu bato nele, ou bate a polícia'."

"Os negros amam seus filhos com uma espécie de obsessão. Você é tudo que temos, e já nos chega em perigo. Penso que preferiríamos matá-lo nós mesmos a vê-lo morto pelas ruas que a América criou. Esta é a filosofia dos descorporificados, das pessoas que nada controlam, que nada podem proteger, que estão destinadas a temer não apenas os criminosos entre elas, mas também a polícia que age soberana acima delas com toda a autoridade moral de uma gangue de proteção."

"'Eu poderia mandar prender você!'. O que corresponde a dizer: 'Eu poderia tomar o seu corpo'."

"No início da Guerra Civil, nossos corpos roubados valiam 4 bilhões de dólares, mais do que toda a indústria, todas as ferrovias, oficinas e fábricas americanas combinadas, e o primeiro produto fornecido por nossos corpos roubados — o algodão — era a principal exportação da América. Os homens mais ricos da América viviam no vale do rio Mississippi, e sua riqueza provinha de nossos corpos roubados. Nossos corpos foram mantidos na servidão por nossos primeiros presidentes. Nossos corpos eram negociados a partir da Casa Branca por James K. Polk. Nossos corpos construíram o Capitólio e o National Mall. O primeiro tiro da Guerra Civil foi disparado na Carolina do Sul, onde nossos corpos constituíam a maioria dos corpos humanos do estado. Eis aí o motivo da grande guerra. Isso não é segredo. Mas podemos fazer melhor, e encontrar o bandido confessando seu crime. 'Nossa posição é totalmente identificada com a instituição da escravatura', declarou o Mississippi ao deixar a União, 'o maior interesse material do mundo'."

"É isso que eu queria que você soubesse: na América, é tradição destruir o corpo negro; é uma herança. A escravidão não foi apenas o antisséptico emprestar do trabalho — não é tão fácil conseguir que um ser humano comprometa seu corpo contra seu próprio e elementar interesse. E assim a escravidão tem de ser ira casual e amputações aleatórias, o corte de cabeças e cérebros estourados sobre o rio enquanto o corpo procura escapar. É um estupro tão regular que chega a ser industrial. Não há um modo mais elevado de dizer isso. Não disponho de hinos de louvor, nem de velhos spirituals negros. O espírito e a alma são o corpo e o cérebro, que são destrutíveis — e, justamente por isso, tão preciosos. E a alma não escapou. O espírito não se alçou nas asas do gospel. A alma foi o corpo que alimentou o tabaco, o espírito foi o sangue que irrigou o algodão, e eles criaram os primeiros frutos do jardim americano. E garantiam-se os frutos batendo em crianças com lenha de fogão, descamando a pele com ferro quente, como se descasca o milho."

domingo, 8 de abril de 2018

Nos últimos dias

Exposições

Maria Auxiliadora, no Masp
Imagens do Aleijadinho, no Masp
Emanoel Araújo, no Masp
Véio, no Itaú Cultural
Esse obscuro objeto do desejo, na Fortes D'Aloia & Gabriel

Livros

Os Sertões
Entre o mundo e eu
Reflexos e Sombras

Filmes

Imagens do Estado Novo 1937-1945
Trash Humpers (no Mubi)
Let there be light
Uma mulher fantástica
Zama

Os Sertões (Final)

"Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados."

Canudos não se rendeu.

Canudos não se rendeu.

Canudos não se rendeu.

Repito mentalmente essa frase há quase uma semana. Ela está perto do fim de Os Sertões e ressoa.

Os Sertões é sobre a aniquilação de um líder popular. É sobre a origens das favelas do Rio de Janeiro. É sobre ocupação militar e resistência.

Canudos deu uma sova no exército. Você vai lendo Os Sertões e chega um novo capítulo, por exemplo, o da expedição Moreira César ou A Nova Luta. Você pensa: agora vai, a República vai massacrar Canudos e Euclydes da Cunha ainda vai enrolar por uns capítulos. Não vai. O exército vai tomar uma nova sova. Canudos só é derrotada no final, "por esgotamento completo".

Canudos não se rendeu.

Canudos não se rendeu.

Canudos não se rendeu.

Antônio Conselheiro, encontrado morto, foi desenterrado e teve sua cabeça decepada e analisada – segundo preceitos científicos da época que hoje sabemos que eram racistas.

Quando acharam seu corpo, fizeram a única foto conhecida do líder de Canudos:



Fico por aqui.

terça-feira, 20 de março de 2018

Os Sertões (II)

Com o avanço da leitura, retorno para mais algumas observações, sobre Os Sertões, que começaram ali embaixo.

E porque, com a intervenção militar no Rio, alguns paralelismos ganham interesse.

A intervenção ressoa no livro; o livro, na intervenção.

Os agrupamentos que chamamos de favelas surgem no Rio com a derrocada de Canudos. Morro da Favela foi um dos territórios do Conselheiro.

A rigor, a gênese da intervenção atual está descrita em Os Sertões.

*

A formação de Euclydes da Cunha na Escola Militar da Praia Vermelha e na Escola Superior de Guerra é um elemento importante. O autor é um militar, entende de batalha e se surpreende com o rigor do sertanejo. Também tem base para criticar o exército, para ver seus erros.

*

Destaco duas citações que extraí do capítulo sobre a chegada da expedição militar comandada por Moreira César:

"Se um grande homem pode impor-se a um grande povo pela influência deslumbradora do gênio, os degenerados perigosos fascinam com igual vigor as multidões tacanhas."

"O fetichismo político exigia manipansos de farda.

Escolheram-no para novo ídolo."

(sendo manipanso o próprio Moreira César. Hoje, temos candidatos a manipansos enviados pelo governo federal para todo lado.)

Nos últimos dias

Filmes

Amante por um dia
Maria Madalena
A cara que mereces (no Mubi)
Trama fantasma
Projeto Flórida
Lumière!

Livros

Hit makers - Como nascem as tendências
50 poemas de revolta

HQ

Uma irmã

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Os Sertões (I)

Fiz algumas notas de leitura de Os Sertões, que comecei a ler há alguns dias. Estou no fim da parte 2, O Homem.

Estou lendo uma edição velha que estava aqui em casa, cheia de erros de revisão. Caso alguém queira me acompanhar, creio que a edição Ubu/Sesc seja mais digna.

*

Lembro o tempo todo que meus professores de literatura sempre diziam que a gente devia pular os capítulos A Terra e O Homem e ir direto pra A Luta, que é quando Euclydes da Cunha conta sobre Canudos. Hoje, afirmo: discordo demais dessa ideia. A Terra é certamente mais duro, cheio de termos técnicos de geologia, mas tem lá sua beleza. O Homem, apesar de tudo, é maravilhoso, especialmente quando começa a falar do Antônio Conselheiro.

*

Euclydes da Cunha começa o livro muito mais racista do que eu podia imaginar. Não lembro de ter tido essa discussão na escola ou de ter visto em algum lugar – mas também nunca tinha me aprofundado em Os Sertões.

A frase famosa a respeito de o sertanejo ser, antes de tudo, um forte é dita com certo espanto, porque pra ele a mestiçagem enfraqueceria a genética do homem. Ou seja: pra Euclydes da Cunha, naquele momento, o sertanejo é, APESAR e não ANTES de tudo, um forte. Apesar de ser mestiço, parece dizer o jornalista, pois, pra ele, ser mestiço é ainda pior que ser negro ou índio. É quase uma surpresa a seus olhos que um mestiço possa se virar tão bem quanto os sertanejos. Os mestiços do Sudeste, que lhe são mais familiares, parecem ser mais piores. Mesmo feios, com aparência de preguiçosos, os sertanejos são muito capazes.

Esse racismo de Euclydes da Cunha vem da ciência eugenista da época, claro. Tenho pra mim que, de certa forma, essa visão vai esmaecendo na medida em que ele depara com o sertanejo, que lhe parece de fato um tipo extraordinário. É como se todas as bobagens eugenistas não batessem com a realidade que ele encontra no sertão e, aos poucos, fosse deixando pra lá sua ciência eugenista que, a rigor, não lhe serve pra nada. Até aqui, contudo, Euclydes da Cunha não chega a perceber conscientemente que as teorias eugenistas eram uma bobagem sem tamanho. Mas, sem querer passar pano, me parece que ele escreve como se, no fundo, desconfiasse disso.

(Insisto num ponto: essa é a impressão que tenho até aqui. Mais adiante, posso revisar esse olhar.)

*
Me chama muita atenção a influência de Francisco de Assis na figura e no imaginário de Antônio Conselheiro. São Francisco é, a seu modo, o molde que Antônio Maciel usa para se tornar um santo em vida. Antônio Conselheiro segue uma cartilha bem franciscana nos seus anos de formação: vive de esmolas, e só o suficiente pra sobreviver, dorme em tábuas ou no chão, faz um diálogo direto com Deus, sem intermédio da Igreja. Não por acaso, creio: Antônio, afinal de contas, é um Antônio, como o santo seguidor de Francisco. O rio que corta o sertão é o São Francisco.

Chuto, então, que Antônio Conselheiro se forjou um São Francisco, talvez não deliberadamente, mas talvez porque fosse a única forma que pudesse enxergar de ser, em vida, em pleno sertão, um homem santo.

(Para aprofundar em Francisco e poder comparar, recomendo ler Francisco de Assis, Vida de Um Homem, de Chiara Frugoni.)

Volto outra hora.


terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Sobre prioridades

Diante da possibilidade de adquirir uma das arlesianas de Van Gogh, o irmão de Matisse preferiu usar o dinheiro pra comprar uma bicicleta sem corrente.
Amélie, mulher de Matisse, penhorou um anel de esmeralda, um de seus favoritos, para comprar As banhistas, de Cézanne. Perdeu o prazo de resgate e nunca recuperou a joia. O casal ficou com a pintura por 37 anos. Amélie não captava muito o que tinha ali, mas sabia que era importante, e era mesmo: Matisse foi profundamente influenciado por esse convívio com o quadro.
Acho que essa historinha diz muito sobre amor e sobre prioridades.



(Essa história está no Matisse, Uma vida e foi publicada originalmente no Facebook em 9 de agosto de 2016.)

sábado, 17 de fevereiro de 2018

sábado, 27 de janeiro de 2018

Nos últimos dias

Filmes

Me chame pelo seu nome
Ex Libris - New York Public Library, de Frederick Wiseman
The Post
O artista do desastre

Livros

Winter, de Karl Ove Knausgaard
Poesia de Anna Akhmátova

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Corujas

“The owl is nothing other than this: a soundless and highly effective bird of prey. If the true task of poetry is revelation, this is what it should reveal, that reality is what it is. That the forest, with its dense spruces and its snow-covered floor, is real. That the falling dusk is real. That the owl taking off from the branch and flying across the field is real. That its soundless wingbeats are real, that the invisible and to us inaudible sound waves that reach its ears are real. That the abrupt change in its flight is real, that the swoop down towards the ground with its claws first is real, that the mouse that the claws dig into is real. That the red of the blood against the grey-white of the mouse’s pelt is real as the wings beat and the owl rises through the darkness and in between the tree trunks, which a moment later it vanishes among.”
Karl Ove Knausgaard, em Winter.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Verde e Amarelo

"Até mesmo a bandeira nacional, a despeito das interpretações surgidas a posteriori (que explicavam o verde como uma referência às matas do país, e o amarelo como uma alusão às riquezas minerais), seguia ostentando seus vínculos com a tradição imperial: o verde, cor heráldica da Casa Real Portuguesa de Bragança; o amarelo, cor da Casa Imperial Austríaca de Habsburgo. Além disso, o desenho republicano reaproveitou o losango da bandeira imperial, apenas retirando o brasão monárquico com as armas imperiais aplicadas e introduzindo o lema positivista de 'Ordem e Progresso'."

Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Starling em Brasil: uma biografia

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Philip Roth

"I am, as you indicate, no stranger as a novelist to the erotic furies. Men enveloped by sexual temptation is one of the aspects of men’s lives that I’ve written about in some of my books. Men responsive to the insistent call of sexual pleasure, beset by shameful desires and the undauntedness of obsessive lusts, beguiled even by the lure of the taboo — over the decades, I have imagined a small coterie of unsettled men possessed by just such inflammatory forces they must negotiate and contend with. I’ve tried to be uncompromising in depicting these men each as he is, each as he behaves, aroused, stimulated, hungry in the grip of carnal fervor and facing the array of psychological and ethical quandaries the exigencies of desire present. I haven’t shunned the hard facts in these fictions of why and how and when tumescent men do what they do, even when these have not been in harmony with the portrayal that a masculine public-relations campaign — if there were such a thing — might prefer. I’ve stepped not just inside the male head but into the reality of those urges whose obstinate pressure by its persistence can menace one’s rationality, urges sometimes so intense they may even be experienced as a form of lunacy. Consequently, none of the more extreme conduct I have been reading about in the newspapers lately has astonished me."


domingo, 13 de setembro de 2015

Trecho

"O novo século está começando, nada mais será como antes. O mundo não retornará à sua origem. A laguna já não é um refúgio para o nascimento da vida. Tornou-se um lago mortal, o lago pesado e árido do sangue derramado. Vou caminhando pela areia, no meio das ruínas das cabanas. Talvez eu já esteja parecido com o velho John Nattick de minha infância, que costumava se plantar diante da água cinzenta da laguna no meio das carcaças dos barcos inúteis que ele não via mais. Será que um dia ainda aparecerá um menino para ouvir o lamento das ossadas, dos galhos? Às vezes, navios passam ao largo. Vejo seus altos mastros e as chaminés cuspindo fumaça. Atravessam a baía, indo para o sul. Procuram outros segredos, outras presas. Depois o mar volta a ficar vazio. Nenhum sinal, nenhum sopro. Como podemos esquecer, para que o mundo recomece? Por toda parte encontrei o túmulo de Araceli. Por toda parte as mesmas pedras, a mesma terra revolta. Lá longe, do outro lado do cabo, há uma cidade nova. Se eu prestar muita atenção, quem sabe consiga ouvir, trazidos pelo vento, a música, os risos, os gritos das crianças?"

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Thomas Demand e o artista que não se reinventa todo dia



"The standard, canonized approach would have been to invent art each day anew - to change these things every day whenever the rule became visible. But for me, this also meant that if I could do everything, I could choose to do only one thing. It's similar to language: if you use a different language every day, you lose the nuances and colors that are possible when you speak a language particularly well. And when it happens, it basically means that you're only able to employ headlines, because you're picking a new language every day. However, it's the nuances that are important to me."

Thomas Demand, em entrevista a Hans Ulrich Obrist, no livro dedicado a ele na The Conversation Series.

***

Colei as duas imagens neste post para contextualizar o trabalho de Thomas Demand, que não é muito conhecido fora do universo da arte contemporânea.

As imagens são, a rigor, as obras. Demand expõe as fotografias. São imagens feitas a partir de outras imagens, que não só já existiam, mas também tiveram alguma circulação nos meios de comunicação de massa. A janela acima, por exemplo, é feita a partir da foto de uma loja em que um garoto foi assassinado depois de ser explorado sexualmente. A imagem ao lado foi criada a partir do quarto de hotel em que Whitney Houston foi encontrada morta.

Não é por acaso ou preciosismo que digo que as imagens foram criadas a partir de outras imagens. É que elas foram mesmo. Demand reconstrói em estúdio esses espaços, em tamanho natural. Tudo em papel colorido, de diversas cores e formato. Isso mesmo: tudo que você vê na imagem é papel.

Em junho, visitei seu estúdio de Berlim com um grupo de estudos. Vi isso tudo ao vivo, o que não é comum: o trabalho de Demand é a imagem gerada. É isso que aparece na exposição. Depois da fotografia, todo o modelo é descartado. Ainda assim, ver esse modelo é fascinante. Até as dobras da toalha são feitas em papel. Para parecer tecido, Demand usa uma técnica que aprendeu na Itália, numa paróquia sem dinheiro que fazia as vestimentas de seus santos com papel.

Foram anos de pesquisa até encontrar a técnica. Não me parece que sejam anos de repetição, mas de trabalho intenso, de pesquisa séria, de aprofundamento. Por isso, destaquei o trecho durante a leitura, e decidi compartilhá-lo. Eu diria até que essa consistência não é algo que eu costume ter no meu próprio trabalho, ou que me interesse na hora de criar. Mas ao menos é alguém que vai um pouco na contramão do discurso corrente e chato que reduz a importância de artistas que não são novidadeiros.

domingo, 15 de setembro de 2013

Um supermercado na Califórnia, de Allen Ginsberg

Não acho que ninguém precisa de mais uma versão em português para Um supermercado na Califórnia, de Allen Ginsberg. Há uma do Cláudio Willer, que, se a memória não falha, está no Uivo, Kaddish e outros poemas, da L&PM. Há outra, do Rodrigo Garcia Lopes. Achei uma também uma tradução aparentemente portuguesa, muito copiada por aí, sempre sem crédito. Há outras.

Mas tava mexendo com esse poema e, no processo de estudá-lo, acabei fazendo a minha própria. Ei-la:


Um supermercado na Califórnia


     O quanto que pensei em você esta noite, Walt Whitman, enquanto
eu caminhava calçada debaixo das árvores com uma dor de cabeça
olhando conscientemente para a lua cheia.
    Na minha faminta exaustão, comprando imagens, eu fui
a um supermercado de frutas de cores berrantes, sonhando com suas enumerações!
    Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras
comprando à noite! Corredores cheios de maridos! Esposas nos
abacates, bebês nos tomates! - e você, Garcia Lorca, o que
você está fazendo junto às melancias?

     Eu te vi, Walt Whitman, sem crianças, velho fuxiqueiro recluso,
fuçando nas carnes do freezer e encarando os garotos do
hortifruti.
    Ouvi você perguntando a eles: Quem matou as
costeletas? Por quanto saem as bananas? Você é meu Anjo?
    Perambulei de um lado pra outro nas pilhas brilhantes de latas
seguindo você, e sendo seguido na minha imaginação pelo segurança
da loja.
    Percorremos juntos os corredores largos em nossa
charmosa e solitária degustação de alcachofras, pegando cada acepipe
congelado, e nunca passando no caixa.

    Aonde estamos indo, Walt Whitman? As portas se fecham em
uma horas. Qual caminho a sua barba aponta nesta noite?
    (Eu toco no seu livro e sonho com uma odisseia num
supermercado e me sinto absurdo.)
    Vamos caminhar a noite toda por ruas solitárias? As
árvores juntam sombra com sombra, luzes saem das casas, vamos os dois estar
sozinhos.

    Vamos andar sonhando com a América do amor perdida
passar por carros azuis nas avenidas, retornando para nossa cabana silenciosa?
    Ah, querido pai, barba grisalha, velho e recluso professor de coragem,
que América era a sua quando Caronte parou de navegar sua balsa e
você foi para uma margem com névoas e ficou olhando o barco
desaparecer nas margens negras do Lete?

Berkeley, 1955



A seguir, a versão original:


A Supermarket in California

          What thoughts I have of you tonight, Walt Whitman, for
I walked down the sidestreets under the trees with a headache
self-conscious looking at the full moon.
          In my hungry fatigue, and shopping for images, I went
into the neon fruit supermarket, dreaming of your enumerations!
          What peaches and what penumbras!  Whole families
shopping at night!  Aisles full of husbands!  Wives in the
avocados, babies in the tomatoes!--and you, Garcia Lorca, what
were you doing down by the watermelons?

          I saw you, Walt Whitman, childless, lonely old grubber,
poking among the meats in the refrigerator and eyeing the grocery
boys.
          I heard you asking questions of each: Who killed the
pork chops?  What price bananas?  Are you my Angel?
          I wandered in and out of the brilliant stacks of cans
following you, and followed in my imagination by the store
detective.
          We strode down the open corridors together in our
solitary fancy tasting artichokes, possessing every frozen
delicacy, and never passing the cashier.

          Where are we going, Walt Whitman?  The doors close in
an hour.  Which way does your beard point tonight?
          (I touch your book and dream of our odyssey in the
supermarket and feel absurd.)
          Will we walk all night through solitary streets?  The
trees add shade to shade, lights out in the houses, we'll both be
lonely.

          Will we stroll dreaming of the lost America of love
past blue automobiles in driveways, home to our silent cottage?
          Ah, dear father, graybeard, lonely old courage-teacher,
what America did you have when Charon quit poling his ferry and
you got out on a smoking bank and stood watching the boat
disappear on the black waters of Lethe?


Berkeley, 1955

sábado, 7 de setembro de 2013

Um poema sobre pintura





Taí um poema que fala sobre artes visuais, sobre Pollock, lido por Al Filreis na introdução de seu curso de poesia americana moderna e contemporânea:



"830 Fireplace Road"
John Yau

(Variations on a sentence by Jackson Pollack)
"When I am in my painting, I'm not aware of what I'm doing"
When aware of what I am in my painting, I'm not aware
When I am my painting, I'm not aware of what I am
When what, what when, what of, when in, I'm not painting my I
When painting, I am in what I'm doing, not doing what I am
When doing what I am, I'm not in my painting
When I am of my painting, I'm not aware of when, of what
Of what I'm doing, I am not aware, I'm painting
Of what, when, my, I, painting, in painting
When of, of what, in when, in what painting
Not aware, not in, not of, not doing, I'm in my I
In my am, not am in my, not of when I am, of what
Painting "what" when I am, of when I am, doing, painting.
When painting, I'm not doing. I am in my doing. I am painting.

Jackson Pollack wrote: "When I am in my painting, I'm not aware of what I'm doing. It's only after a sort of 'get acquainted' period that I see what I have been about. I have no fears about making changes, destroying the image, etc., because the painting has a life of its own."

terça-feira, 9 de julho de 2013

O filme e a novela

"Nunca se deveria comparar um filme com uma peça de teatro ou um romance. O que mais se aproxima é uma novela, cuja regra geral é conter uma só ideia que termina de ser expressa no momento em que a ação atinge seu ponto dramático culminante.
Você deve ter reparado que raramente uma novela é deixada em repouso, o que a aproxima de um filme. Essa exigência implica a necessidade de um sólido desenvolvimento de enredo e a criação de situações pungentes que decorram desse próprio enredo, devendo todas acima de tudo, ser apresentadas com habilidade visual. Isso nos leva ao suspense, que é o modo mais poderoso de prender a atenção do espectador, seja o suspense de situação, seja o que incita o espectador a se indagar: 'E agora, o que vai acontecer?'."

Alfred Hitchcock em entrevista a François Truffaut, em publicada na íntegra em Hitchcock Truffaut, que saiu aqui pela Companhia das Letras.

domingo, 7 de julho de 2013

Picolé de Limão

Acho a Bruna Beber uma baita poeta. Parece que, com a Flip, enfim ela vai ganhar um reconhecimento popular - ontem, na Folha, a coluna da Raquel Cozer contou que ela esgotou na livraria do festival. O editor, faceiro, a chamava de "nosso Leminski".

Mas tenho que confessar (pode ser coisa minha) que fico mais feliz lendo Bruna Beber que Leminski.

Enfim: saiu por esses dias o novo livro dela, Rua da Padaria. É formidável. De lá tirei este poema: 

picolé de limão

pensando rápido
a vida é desgraçada 

– o primeiro rádio 
ganhei no bicho

meu primeiro amor 
achei no lixo 

o primeiro tiro 
levei no bingo 

meu melhor amigo 
conheci na cadeia 

a primeira ambição 
um palito premiado – 

pensando lento 
que graça.  

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Dois poemas de Lilian Aquino




Corte

Decidiu raspar os cabelos
ela mesma
Sua intimidade com tesouras
e objetos pontiagudos
lhe dá esse ar
louco, redemoinho.
E careca
é mais fácil sangrar.



Plástico

Não existem quadros
nas paredes da minha
casa

e são muitos os espaços
em branco
que vejo
então
em volta

no entanto
no quadrado habitado
minha família
é pintada diariamente
a óleo


***

Os dois poemas estão no livro de estreia de Lilian Aquino, Pequenos afazeres domésticos, publicado pela Patuá em 2011. A indicação foi da Jeanne Callegari, que acompanha bem mais que eu os novos poetas brasileiros.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Cinco trechos de The perks of being a wallflower



Era pra ser um livrinho bobo pra adolescentes. Uma amiga diz que eu deveria ter lido aos 22. Eu acho que deveria ter lido aos 16. Talvez seja isso mesmo. Mas, pra mim, The perks of being a wallflower, de Stephen Chbosky, foi uma bomba H. Devastadora. Um golpe baixíssimo. Saí perturbado. Do livro e, depois, do filme, que é de onde saiu a imagem deste post.

Selecionei cinco citações pra compartilhar neste post. Pra mim, elas fizeram todo o sentido do mundo:

"Charlie, we accept the love we think we deserve."

"To tell you the truth, I love Sam. It’s not a movie kind of love either. I just look at her sometimes, and I think she is the prettiest and nicest person in the whole world."

"Nobody can be as big as the Beatles because the Beatles already gave it a 'context.' The reason they were so big is that they had no one to compare themselves with, so the sky was the limit."

"It’s just that I don’t want to be somebody’s crush. If somebody likes me, I want them to like the real me, not what they think I am."

"So, I guess we are who we are for a lot of reasons. And maybe we’ll never know most of them. But even if we don’t have the power to choose where we come from, we can still choose where we go from there. We can still do things. And we can try to feel okay about them."

***

Em tempo: o livro, traduzido como As vantagens de ser invisível, saiu em português há uns anos pela Rocco.