terça-feira, 21 de outubro de 2014

Pelo voto nulo

1. É mentira que voto nulo é igual a se abster de uma escolha. Voto nulo é dizer que você não concorda com nada disso que está aí. Também é uma escolha. Isso é óbvio. Mas não parece.


2. É mentira que o voto nulo é uma saída fácil. Até pode ser. Mas até aí escolher entre Dilma ou Aécio também pode ser uma saída fácil e impensada. Inclusive, pros meus parâmetros, a virulenta paixão pelos candidatos têm mostrado que é bem cômodo simplesmente odiar um lado e escolher o outro. E digo mais: o clima de torcida destas eleições tem transformado qualquer escolha em uma escolha burra. Só depende do ângulo que se vê.


3. De qualquer maneira, votar é uma obrigação, mas a escolha é de cada um. A pessoa tem direito em votar em quem quiser, como quiser e com o nível de reflexão que quiser. (O cenário bélico destas eleições cria em mim uma tendência de simpatizar com o voto dos bobos, dos inocentes, dos avoados, dos que se deixam levar pelo coração.)


4. Vi muitos amigos que falaram muitíssimo mal de um candidato no primeiro turno virarem a casaca e passarem a apoiá-lo. É um direito. Cada um é livre pra fazer o que quiser. Mas, nessa, não contem comigo. Amigos: eu lembro do que vocês disseram sobre os candidatos que vocês adotaram.


5. Cada voto é um aval. Quando o próximo presidente mandar bater em manifestante, matar índio ou desmatar a Amazônia, ele vai bradar que teve X milhões de votos. São esses votos que vão legitimar os transgênicos, a condução desastrada da economia, o desprezo pelos direitos humanos, o estímulo desenfreado a setores ultrapassados da economia. Cada voto a mais é um avalzinho a mais pro horror. Bem pequeno. Mas é. O voto nulo diz: "não ao horror".


6. Dadas as opções, não vejo alternativa ao horror. Não acredito em "menos horror" nem em "mais horror". Não acredito em dar aval a "menos horror". Horror é horror, merece apenas repúdio.


7. Não acredito em candidato perfeito, o que significaria anular pra sempre, como uma regra. Mas acredito em candidato razoável, em candidato OK, em candidato que dá pra engolir. No primeiro turno, eu vi uma pequena porção de candidatos razoáveis. Não teria anulado. Mas acredito em limite para o que posso tolerar. Quero ter o direito de dizer que os candidatos do segundo turno estão além do meu limite de tolerância, e quero que outras pessoas possam dizer o mesmo sem serem perseguidas ou chamadas de covardes, direta ou indiretamente.


8. Sei que, neste contexto de virulência e torcida, o discurso a favor do voto nulo é frágil. O voto nulo não tem equipe de marketing, não tem time de social media. Também não tem representante no debate, não dá entrevistana TV, não tem adesivo nem cavalete de rua. (Por isso mesmo, é um discurso mais forte: é um discurso sobrevivente.)

9. Fala-se muito do porquê escolher um candidato, e pouco sobre dizer "não". Temos que aprender a dizer mais "não". A não apoiar, a não dar aval. Por isso, defendo o voto nulo.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

No cinema (9)

Tenho uma amiga que diz que, quando vejo um filme ruim, o meu humor piora por dias. E que um filme bom me deixa feliz, animado. Pode ser uma tragédia, não faz mal: se gosto do filme, fico feliz. Fiquei felizão quando vi O Anticristo. Her me deixa irritado até hoje só de pensar.

De tempos em tempos, tenho feito essas listas, e agora percebo que, acima de tudo, são de filmes que me deixaram feliz.

Aí vai mais uma leva:

Magia ao luar - Estamos em 2014. Ainda precisa falar que Woody Allen é sempre bom? Sério, se você não gosta, é melhor rever sua vida. Toda ela. Você tem problemas.



Amantes eternos - Um filme de vampiros de Jim Jarmusch cheio de piadas com referências litero-culturais. Com Tilda, Mia e Kit. Pra melhorar, só se eu ainda tivesse 17 anos.

Hélio Oiticica - Estava pra ver desde o Festival de Berlim do ano passado, mas todas as sessões ou estavam esgotadas ou coincidiam com sessões que eu já tinha – e tive a impressão de que uma hora teria que estrear no Brasil. Demorou, mas chegou, e valeu a pena: que retrato inspirador, que imenso artista que Oiticica foi.



O enigma chinês - Eu pirei com O albergue espanhol, na época. Bonecas russas não me pegou. Não revi nenhum dos dois, não me preparei para o desfecho. Mas O enigma chinês foi trazendo todos os filmes de volta, e eu me encantei, e saí feliz.

Quando tiver mais uns filmes pra comentar, volto aqui.

Os filmes anteriores, com alguns que seguem em cartaz, estão aqui.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

No cinema (8)

Parece que vem aí uma leva de ótimos filmes. Woody Allen, Jim Jarmusch... Antes de eles chegarem, separei uns filmes legais que vi no cinema pra comentar rapidinho aqui. Como sempre, só falo dos legais:



O mercado de notícias - A partir de uma peça de Ben Jonson sobre uma agência de notícias – impressionantemente contemporânea –, o diretor Jorge Furtado faz um documentário em que avalia o status do jornalismo no Brasil. Destaque para o monumental caso do Picasso do INSS. Vale também fuçar o site, que complementa o filme.




Amar, beber e cantar - O último filme de Alain Resnais. É tão plenamente bom que parte o coração de não podermos ver o que viria depois disso. Ao mesmo tempo, que linda despedida que é.

O melhor lance - Gostei mais depois que escrevi o texto pro Eh,Già!

Sobrevivente - Um filme is-lan-dês. Não é todo dia, hein? É baseado na história real de um pescador que naufraga, fica horas no mar gelado à toa e sobrevive à experiência.



O homem das multidões - Marcelo Gomes e Cao Guimarães fizeram um filme lindo sobre esse sujeito que é o homem mineiro urbano contemporâneo. Que grandes personagens são Juvenal e Margo. Não vou me cansar de dizer: um cinema que produz O homem das multidões, Riocorrente e Praia do Futuro no mesmo ano é um cinema maduro, por mais que uns e outros ainda façam cara feia.


Tem mais filmes nos posts anteriores:

No cinema (1 a 4)
No cinema 5
No cinema 6
No cinema 7

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Nota rápida sobre o dia de ontem



Em 4 de janeiro de 1966, o artista conceitual japonês On Kawara pintou o quadro acima, e desde então, criou a série Date paintings, em que pintou datas, num trabalho tão obsessivo quanto meditativo, um exemplo emocionante de dedicação a um processo. On Kawara pintava aos domingos. Se não conseguia acabar a pintura no dia em que começou, On Kawara a destruía. Ao longo dos anos, pequenas mudanças foram se tornando perceptíveis: a cor (predominantemente tons de cinza), a fonte, a inclusão ou não de pontos, espaços, vírgulas. Há também variações geográficas, com a posição dos elementos de acordo com a cultura em que o quadro é pintado.


On Kawara também tem uma série em que envia postais carimbados com a hora em que acordou (53 deles, endereçados ao colecionador Sylvio Perlstein, estão agora no Masp, junto com duas pinturas de data, na exposição temporária A inusitada). De forma permanente e ampla, há uma grande coleção de datas no Dia:Beacon, um museu importantíssimo que fica no subúrbio de Nova York. É emocionante.

Em telegramas, On Kawara avisava aos amigos: I'M STILL ALIVE.

Nesta quinta, soubemos da morte de On Kawara.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

No cinema (7)

Mais uma vez, separei uns filmes legais que vi no cinema pra comentar rapidinho aqui. Só dois, desta vez. Até que fui bastantes vezes ao cinema, mas acho que dei azar, ou a temporada tá fraca mesmo. O fato é que vi coisas desanimadoras. Mesmo assim, algumas pessoas me dizem que essas listas têm sido útil pra elas. Então sigo.




Grande Hotel Budapeste - Wes Anderson sendo Wes Anderson. No começo, achei que não ia rolar. Não só porque a sessão em que fui estava cheia de gente incapaz de ficar quieta. Fiquei com preguiça daquela estetização toda do Wes Anderson. Mas aí a historinha do hotel fluiu. O filme me pegou.

A montanha Matterhorn - Um cara solitário encontra um cara estranho, que não fala quase nada, só imita uns bichos. Eles acabam se aproximando. Mais um bom filme holandês que chega por aqui este ano.

Com o fim da Copa, espero que essa temporada se renove. De qualquer forma, na semana que vem já tem retrospectiva do Sam Peckinpah no Cinesesc. E, pra quem passou um mês vendo jogo, tem mais dicas nos posts anteriores:

No cinema (1 a 4)
No cinema 5
No cinema 6

sábado, 21 de junho de 2014

No cinema (6)

De novo, separei uns filmes legais que vi no cinema pra comentar rapidinho aqui e, por tabela, recomendar. Vai que alguém cansou de Copa e quer ver um filme no fim de semana...



* Jogo das decapitações - O novo do Sergio Bianchi. Complicadíssimo, com muitas ideias para serem debatidas. Claramente não há opção à direita, e a esquerda ficou muito complicada. Eu mesmo acho complicadíssima a ideia presente de que as vítimas da ditadura são oportunistas que se deram bem. Sabe-se que não é assim, ou não é só assim. O Luiz Zanin Oricchio escreveu no Estadão que é capaz que a direita goste. Acho difícil. Também me incomoda que o filme tenha um tom de discurso moral. Ao mesmo tempo, tem o artista, Jairo Mendes, pai do protagonista, que se deu mal na ditadura. Aí há uma ideia de que a arte, ao menos, pode contestar e se salvar, mas que o verdadeiro artista libertário está sozinho e se perde. Como Riocorrente (que comentei há uns dias), Jogo das decapitações também captou no ar coisas que ainda viriam a acontecer depois das filmagens – manifestações e linchamentos inclusive. Enfim, tem um monte de coisas para discutir nesse filme do Bianchi, mas o xadrez político virou fla-flu e não parece que há clima para essas discussões. Vão abafar esse filme. Vão vendo.

* Coração de Leão - León é um cara com problema de crescimento. Tem 1,40 m, se a memória não me trai. Mas é sedutor, e atrai uma mina que fica toda ressabiada de sair com um cara mais baixo. Quando começou, achei que tinha caído numa roubada da temporada de Copa. Mas o filme me pegou, mesmo a mim, que não caio fácil por comédias. Poderia ser um filminho politicamente correto, talvez até seja, mas é convincente. Mais: é encantador. Em tempos de efeitos especiais computadorizados, o jogo de câmeras pra fazer o ator encolher é notadamente artificial, porque cinema é ilusão. Lembrou muito L'homme à la tête de caoutchouc, do Méliès. Depois de assistir, vejam se não é exatamente isso:


* Vic + Flo viram um urso - Vic saiu da prisão e foi ficar na casa de um tio entrevado. Flo é uma ex-criminosa que vai morar com ela numa cabana no meio do mato, perto de uma cidadezinha que leva todo jeito de ser a Twin Peaks francesa. Denis Côté levou o Urso de Prata em Berlim.

* Antes do inverno - Um neurocirurgião casado começa a receber flores. Seu casamento está em crise. Sua mulher e seu melhor amigo flertam. Aparece uma garota. Envelhecer não é mole. Mesmo na França.

* Dominguinhos - Um documentário feito quase que só com cenas de arquivo. Bonito, sensível.

* O menino e o mundo - Enrolei muito pra ver. Vi agora, empurrado pelo fato de que ganhou o Festival de Annecy. Tenho a impressão de que quem gosta de desenho pira, seja animado ou não.

Mais filmes nos posts anteriores:
No cinema (1 a 4)
No cinema 5

domingo, 15 de junho de 2014

No cinema (5)

Exceto em jogos do Brasil, os cinemas não param de funcionar durante a Copa. Mas ficam mais vazios, e as distribuidoras lançam filmes com menos marketing – mas não necessariamente menos qualidade. Há, por exemplo, uma quantidade de documentários em cartaz que é coisa rara de se ver.

A última Copa que acompanhei tinha o Naranjito como mascote, e acho que só acompanhei os desenhos animados do Naranjito mesmo. Então estou curtindo bastante esta temporada mais amena no cinema.

Acho que já tem filme bom o suficiente pra fazer uma quinta lista de filmes legais que vi no cinema (as anteriores eu publiquei no Facebook e compilei aqui):


Transmedia storytelling: stencil ao lado de um cinema que passa Riocorrente

* Riocorrente - Há uns meses, saquei uma coisa do ato de retratar no desenho ou na pintura: o retratista revela defeitos que o retratado sabe que tem (ou que acha que tem, pois só ele atribui como defeito), mas finge que ninguém mais pode ver. Pode ser uma pinta, uma papada, o formato do rosto. A fotografia, por sua natureza, digamos, realista, segue iludindo o retratado. Com a intermediação do filme, pode parecer que o tal defeito passou batido pelo fotógrafo (mas certamente não passou, lembre-se de que estamos falando apenas do delírio do retratado). Num desenho ou numa pintura, a mediação humana é evidente: alguém desenhou / pintou aquele defeito, portanto, viu.

Recuperei essa ideia porque Paulo Sacramento (O prisioneiro da grade de ferro) fez de Riocorrente um poderoso retrato de São Paulo. E é um retrato como um desenho, como uma pintura. Mesmo sendo filme. Sacramento escolhe mostrar o Tietê. E o cara pobre sufocado pela falta de alternativas. E o crack. E a arte escondida nos cemitérios. E o clima das manifestações. É um retrato que os moradores de São Paulo talvez não gostem de ver. Quem acha que a cidade é perfeita vai se incomodar. Como bem definiu meu amigo Marcos Carlini: é desconsertante.

* O lobo atrás da porta - Quando escrevi sobre Praia do futuro, falei dessa ideia de que eu cresci num país que ou só fazia "filme ruim" ou, mais tarde, simplesmente não fazia filmes. E disse que era muito incrível viver agora num país que tinha o Karim Aÿnouz. O que eu não sabia é que teria ainda Riocorrente e este O lobo atrás da porta em cartaz simultaneamente com Praia do Futuro. Que alegria imensa ver uma coisa dessas. Que momento!

O filme do Fernando Coimbra é, digamos, um thriller conjugal: a filhinha do casal é levada por uma estranha na saída da creche, e o mistério só será resolvido quando o delegado fuçar na relação deles. Digamos: de certa forma, é uma versão dark de Nelson Rodrigues.

* Que estranho chamar-se Federico - O grande Ettore Scola estava aposentado, mas interrompeu seu descanso para fazer uma homenagem a seu amigo Fellini. Há cenas com atores recontando a vida dos dois misturadas com desenhos e trechos de filmes. Acho que classificam como documentário, mas eu partiria pra uma nova definição: é uma memória. (Escrevi sobre pro Eh,Già!, mas ainda não saiu. Está aqui.)

Mr. May

* Uma vida comum - Não sei por que traduziram assim. Still life, o título original, quer dizer "natureza morta", e tem muito mais a ver com a história de Mr. May, um dedicado funcionário público londrino encarregado de cuidar da morte de pessoas que não têm ninguém. Até porque há umas naturezas mortas espalhadas ao longo de todo o longa. É um pequeno grande filme, de sair da sessão abalado. (Vou escrever sobre pro Eh,Già! também.)

Mengele e Wakolda
* O médico alemão - Vivendo escondido no sul da Argentina, o cientista nazista Mengele se encanta com uma argentininha chamada Wakolda, que tem problemas de crescimento. E começa a fazer experimentos com ela e com sua família. É uma espécie de Lolita com doses cavalares de demência.

* Amazônia eterna - Ainda não é o grande documentário sobre a Amazônia (que está pra ser lançado), e sim um documentário mais focado na economia sustentável da floresta, que parte da interessante ideia de que a melhor forma de preservá-la no mundo atual é fazendo com que ela renda dinheiro.

* Tim Lopes - Histórias de Arcanjo - Outro documentário. Mostra Bruno Quintella em busca do pai, o jornalista Tim Lopes. Acho que especialmente os jornalistas vão curtir.

* Junho - É o documentário da TV Folha. Eu até esperava menos: achei bem amarrado, sem se esquivar da covardia da própria Folha em condenar os protestos e abrir espaço pra PM trucidar há um ano. O maior problema do filme está fora dele: parece que nós é que esquecemos de junho do ano passado.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Exposições para levar / recomendar a estrangeiros

Já vi acontecer algumas vezes: um estrangeiro chega ao Brasil, e aí o paulistano, cheio de orgulho, leva-o ao Masp.
Nada contra o Masp, pelo contrário. Vou sempre. Mas o Masp é um museu muito calcado em coleções europeias e norte-americanas. É tímido pra quem tem um Metropolitan, um Louvre ou um Prado por perto. O turista é cordial, fica feliz pela atenção, agradece.
Claro que estou generalizando, e há turistas que não são de cidades grandes e outros que são de países que não têm um Masp e nunca puderam ir a um museu etc. Ou tem um cara que é fanático por Renoir ou Van Gogh ou Turner (exemplo: hipoteticamente, eu iria no Masp, sim). Mas enfim: de forma geral, há opções que me parecem mais interessantes pra levar um turista, ou mesmo pra recomendar. Até porque, em época de Copa, um turista não tem tempo nem disposição de ir a muitos museus.
Separei algumas exposições que vi em São Paulo como sugestões:
foto roubada do site do mam
* A vontade construtiva na coleção Fadel, no MAM-SP - Essa eu acho a mais legal. Tem modernistas, tem concretistas, neoconcretistas, formalistas. Ninguém concorda com ninguém. A briga por quem trouxe realmente o modernismo pro Brasil é travada ali a tapa, a chute, com dedo no olho. Não tem tudo, mas tem tudo o que precisa pra entender a dinâmica da arte no Brasil no século passado. Mas provavelmente você vai precisar dar uma ajudinha.
* Transarquitetônica, de Henrique Oliveira + Vânia Mignone + acervo, no MAC-USP (no prédio em que era o Detran) - Acho que esse trabalho do Henrique Oliveira rende bastante pra um estrangeiro. A pintura da Vânia Mignone eu curto demais. E o acervo tá com coisas boas, como o Hudinilson Jr., Leon Ferrari, Volpi... Eu já tinha ido no novo MAC duas vezes (e mais uma em que tava faltando luz), mas agora tem mais andares preenchidos, e tá bem interessante. Mesmo pra quem mora em SP, tá merecendo uma visita atenta.

Boltanski, foto roubada por mim mesmo
* Boltanski 19 924 458 +/-, de Christian Boltanski, no Sesc Pompeia - É a mais paulistana de todas (e já ia me esquecendo dela). Num dos galpões da Lina, prédios feitos com caixas, mais sons e rios não deixam dúvida: o artista recriou São Paulo.

* Um trágico nos trópicos, de Iberê Camargo, no CCBB - Esse eu tinha até esquecido, mas a Lili lembrou nos comentários. Eu, meio como todo mundo de Porto Alegre, é meio habituado a ver muito Iberê com frequência. É incrível ver Iberê fora de lá: ao ver as pessoas fascinadas, nos lembramos do nosso próprio fascínio perdido.

Selfie roubadíssima no Miguel Rio Branco
* Teoria da cor, de Miguel Rio Branco, na Estação Pinacoteca - Miguel nasceu na Espanha, mas é brasileiro. É um imenso fotógrafo. Esta exposição é uma retrospectiva que parte do seu uso de cores. Tem obras antigas, outras mais novas, algumas que estão no pavilhão dedicado a ele em Inhotim. Aproveite e já emende com o acervo da Estação Pinacoteca e com o da própria Pinacoteca (e de uma olhadinha no Grupo Zero, que já estando lá não custa).
E mais:
* Se o cara tá em Porto Alegre, tem umas dicas aqui.
* Se ele vai pra BH, tem Inhotim.
* Indicando sem ter visto: Richard Serra no IMS do Rio, com a casa modernista totalmente recuperada pra abrigar os desenhos do Serra.
* Em São Paulo, ainda vai abrir a exposição dOsgemeos.

Se quiser deixar dicas, os comentários tão aí pra isso.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Cinco exposições em Porto Alegre

Post que escrevi no Facebook há duas semanas. Dentro do possível, atualizei pro blog, mas não mexi muito, pra ficar como registro.

Amigos de Porto Alegre eventualmente reclamam que as coisas de que falo aqui nem sempre servem, que vários filmes que comento nunca estreiam nos cinemas de lá, que não é fácil vir pra São Paulo toda hora. Pois vou aproveitar que Porto Alegre está com uma agenda de exposições absolutamente incrível pra compensar as reclamações.

Jailton Moreira, Rotação
1) Percevejo, de Jailton Moreira, no glorioso Museu do Trabalho
Vou começar pela mais complicada, porque, pra resumir, gosto demais do Jailton e sou muito grato a ele por coisas que vão de orientações a respeito de Ticianos do começo da carreira em um refeitório de uma igreja em Padova até dicas de sabores de tramezzini. E aí eu poderia dizer "descontem", mas nesse caso não vale. O Jailton é um cara que usa o mundo como atelier, então me parece que tanto os Ticianos quanto os tramezzini fazem parte desse processo de criação, que depois é editado (uma palavra bem feliz que surgiu num debate sobre a exposição que rolou sábado. Eu não sei como definir e, na verdade, não tenho o menor interesse em definir o que tem na exposição. Só quero dizer que é comovente.

2) O tamanho do mundo, de Vik Muniz (curadoria de Lígia Canongia), no Santander Cultural.
Eu gosto do Vik Muniz. É verdade que já tive mais entusiasmo com o trabalho dele. Hoje, me incomoda que, depois de entender a sacada, eu não tenha muito pra onde ir na obra. Deve ser a velhice. Mas ainda assim essa é uma grande exposição. Tem bastantes trabalhos novos - e me encanta especialmente a série de castelos de areia. E tem trabalhos antigos - entre eles, Cloud Cloud, primeiro trabalho de Muniz que conheci, em um programa de TV da época, e que continuo achando arrebatador.

3) Ensaio sobre a Dávida, de Nuno Ramos (curadoria de Alberto Tassinari), na Fundação Iberê Camargo

Dois filmes - Dádiva 1 - copod'águaporvioloncelo e Dádiva 2 - cavaloporPierrô - falam sobre a dádiva no sentido proposto por Marcel Mauss, em que as trocas ocorrem em um sistema sem valor monetário, e portanto trocar um copo d'água por um violoncelo ou um cavalo por um pierrô são atitudes absolutamente cabíveis. Achei bom demais. Bom demais mesmo.


Em tempo: as outras duas exposições que estão na Fundação valem muito a pena.


EXPOSIÇÕES QUE FECHARAM ANTES DE EU PUBLICAR ESTE TEXTO NO BLOG:

4) A força do tempo, de Ricardo Chaves, na Casa De Cultura Mario Quintana
O Kadão é editor de fotografia da Zero Hora. Trabalhei com ele lá. É um imenso fotógrafo: era certo que, se ele entrava no jogo, a foto seria um acontecimento. Ver esse trabalho reunido é bastante impressionante. Por conta da qualidade do seu trabalho no fotojornalismo, Kadão estava nos lugares que importavam. E, às vezes, em ocasiões ainda mais especiais, fez os lugares em que estava se tornarem importantes.

5) Território da Folha - Paisagens de Teresa Poester (curadoria de Eduardo Veras), no MACRS (que fica na CCMQ)
O Edu Veras também trabalhou comigo na ZH. Se trabalhar numa redação é legal pelas pessoas em volta, o Edu era uma das pessoas que fazia o trabalho valer a pena. Nos encontramos por acaso na exposição do Jailton, e ele me contou que tinha feito essa curadoria da Teresa Poester pro MAC. Só trabalhos com paisagens, de várias fases, de muitos anos. Corri pra ver. Eu não lembrava direito do trabalho da Teresa, tinha mais uma lembrança meio amorfa. Desta vez, os trabalhos bateram com uma força imensa. Ainda vou ver o que vai sair daí.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Filmes no Netflix

Já faz uns meses que eu fiz uma pequena lista de filmes não-óbvios para se ver no Netflix. Era uma seleção bem simples, mas rendeu bastante. Até hoje, me pedem mais. Mas é aquilo: uma lista dessas só funciona se torna possível depois que se vê bastantes filmes, então leva um tempo pra renovar o estoque de assunto. Até porque a ideia não é recomendar O lobo de Wall Street – é óbvio que é pra ver, não preciso dizer isso pra ninguém. Mas acho que agora tenho um conjunto interessante:

* Dear Mr. Watterson - Bill Watterson, criador de Calvin & Haroldo, é um cartunista recluso. Sempre evitou imprensa. Queria que seu trabalho falasse por si. Este documentário persegue Watterson respeitosamente, indo atrás das informações públicas a respeito dele, sem nunca abordá-lo. (Este ano, Watterson saiu um pouco da toca. Entre outras coisas, deu uma entrevista em áudio pro documentário Stripped. Mas, na boa, Dear Mr. Watterson é melhor.)

* Good Ol'Freda - Freda foi a secretária dos Beatles (e coordenadora do fã-clube) ao longo de toda a carreira da banda. Neste documentário, essa mulher que é uma figura abre seu coração pela primeira vez. É um barato.

* A Thirsty World - Falta água no mundo, não só na Cantareira. Este documentário é sobre isso. Tem muita coisa que eu não sabia. Por exemplo, em 2008, acabou a água de Barcelona.



* Interior. Leather Bar. - Diz a lenda que o filme Cruising, aqui conhecido como Parceiros da Noite, teve 40 minutos de cenas de sexo sadomasô gay cortadas entre sua estreia no Festival de Berlim e sua estreia comercial. James Franco, quem mais?, resolve refilmar esses devassos 40 minutos perdidos em um documentário maravilhoso. Sinceramente? Eu programaria pra ver com uma sessão dupla de Cruising – que não tem no Netflix, mas tem num DVD da Lume.

* Habemus Papam - Uma hora dessas tenho que escrever sobre esse filme do Nanni Moretti pro Eh,Già!. Mas, com um papa como esse picareta do Francisco pagando de diretor de marketing do Vaticano, melhor nem esperar pra ver.



* Carlos - É uma série de TV baseada em fatos reais (mas não muito, porque os fatos disponíveis eram poucos e obscuros) com apenas três episódios sobre um terrorista venezuelano que atacou a OPEP em plenos anos 70. Os três são dirigidos pelo Olivier Assayas (do maravilhoso Depois de Maio). É uma das melhores coisas já produzidas pra TV. É um dos melhores filmes do Netflix. Não tem nada melhor nesta lista.

* Sleeping Beauty - Uma mocinha bonita é paga pra dormir sedada na companhia de homens. Filme adorável. Passou meio batido nos cinemas aqui.

* Terms and conditions may apply - Um documentário fascinante sobre os contratos de uso de sites como o Google e o Facebook (onde esta lista está hospedada) e o quanto nós abrimos nossos dados até mesmo à NSA ao aceitá-los.

* Blackfish - Documentário sobre maltratos a orcas no Sea World – e as mortes de humanos que são decorrentes desses maltratos.

* Tales of the Night - Animação linda, linda, linda. Pra quem tem criança e espera que elas vejam algo decente. Ou pra quem quer ver um filme lindo.