domingo, 13 de setembro de 2015

Trecho

"O novo século está começando, nada mais será como antes. O mundo não retornará à sua origem. A laguna já não é um refúgio para o nascimento da vida. Tornou-se um lago mortal, o lago pesado e árido do sangue derramado. Vou caminhando pela areia, no meio das ruínas das cabanas. Talvez eu já esteja parecido com o velho John Nattick de minha infância, que costumava se plantar diante da água cinzenta da laguna no meio das carcaças dos barcos inúteis que ele não via mais. Será que um dia ainda aparecerá um menino para ouvir o lamento das ossadas, dos galhos? Às vezes, navios passam ao largo. Vejo seus altos mastros e as chaminés cuspindo fumaça. Atravessam a baía, indo para o sul. Procuram outros segredos, outras presas. Depois o mar volta a ficar vazio. Nenhum sinal, nenhum sopro. Como podemos esquecer, para que o mundo recomece? Por toda parte encontrei o túmulo de Araceli. Por toda parte as mesmas pedras, a mesma terra revolta. Lá longe, do outro lado do cabo, há uma cidade nova. Se eu prestar muita atenção, quem sabe consiga ouvir, trazidos pelo vento, a música, os risos, os gritos das crianças?"

Jean-Marie Gustave Le Clézio (tradução de Leonardo Fróes)
Pawana (p. 48-49, Cosac Naify, 2009, edição com ilustrações de Guazzelli)