Eduardo S. Nasi
Já foi blog de verdade com atualizações constantes. Agora é um lugar pra textos longos que não cabem no @eduardonasi. Os comentários são moderados e dependem de aprovação.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Para saber mais: 1922 e Ho-ba-la-lá
Quando eu era moleque, lançaram a revista Superinteressante. Era bem mais científica do que hoje - embora fosse mais amigável que os livros escolares, a pegada pop só veio mais tarde. Lembro de ter passado horas tentando entender a Teoria da Relatividade que um pôster me prometia decifrar. Às vezes, achava que tinha conseguido, mas aí uma cãibra cerebral me levava de novo à estaca zero.
Uma das coisas que me chamava atenção na Super era uma box no final de cada matéria: Para saber mais, dizia, e vinha uma recomendação de livros que complementariam o tema. Supostamente, a matéria era tão interessante que provocaria a vontade de o leitor se aprofundar. Era só o primeiro passo.
Na minha fantasia, era assim que funcionava. Hoje, fico com a impressão de que é mais uma bibliografia consultada pra fazer a matéria. Talvez tenha sido sempre assim. Talvez nem seja assim. Vai saber...
Lembrei disso porque, por acaso, li duas reportagens que saíram em livro nos últimos tempos. 1922 - A semana que não terminou, de Marcos Augusto Gonçalves, e Ho-ba-la-lá - À procura de João Gilberto, de Marc Fischer. Acaso mesmo. 1922 acaba de sair. Ho-ba-la-lá eu levei pra praia não pra ler, mas pra dar de presente pra uma pessoa. Que não pode ir. E aí lá estava ele, dando sopa. Engatei.
A rigor, os dois livros não tem quase nada em comum. São, em vários aspectos, antagônicas. 1922 é uma reportagem clássica. É resultado de muita pesquisa, de algumas entrevistas. Tem uma nobreza: o autor e seus pesquisadores reviraram arquivos, lidaram com pó, confrontaram versões. É um esforço que aparece pro leitor. Ao menos, pra um leitor como eu, que perde em conhecimento sobre a Semana de Arte Moderna pra qualquer normalista.
Ho-ba-ba-lá surgiu como resultado de uma paixão: o alemão Marc Fischer tomou o fora de uma garota e se apaixonou por João Gilberto. Veio ao Brasil para ouvi-lo cantar Ho-ba-ba-lá. Arma uma busca maluca por um notório recluso. A investigação tem idas e vindas - e umas descobertas pelo caminho. Fischer fascina-se, a certa altura, a ideia (compartilhada por muita gente) de que João é um vampiro, e chega ao ponto de cobiçar dicas do casalzinho de Crepúsculo, que está filmando no Rio na época. O que 1922 tem de meticuloso, Fischer tem de turbulento: às vezes, sente-se lost in translation e deixa o leitor com a mesma dúvida. Azar. É obra de um apaixonado que aceita se perder, divagar e sonhar.
A comparação entre os dois livros, insisto, vem do acaso. Não quero forçar um elo entre duas obras que se conectam apenas pelo rótulo de livro-reportagem e por tratarem de temas canônicos da cultura brasileira. Mas, em mim, os dois livros criaram um efeito bom: o de querer saber mais.
Em uma reportagem sobre movimentos culturais brasileiros na Super, os dois livros poderiam constar dos boxes. Mas isso é o de menos. O que me encanta é que, de certa forma, os dois livros encerram-se com seus próprios boxes nos apêndices.
Acabei 1922 com uma vontade imensa de chafurdar na bibliografia em busca de mais informações sobre a Semana de Arte Moderna (e de ir na exposição da Tarsila no CCBB do Rio, ela que não participou da Semana, mas é modernista e antropofágica). Ho-ba-ba-lá me deu vontade de ouvir mais João imediatamente - eu estava no avião mas, por sorte, tinha dois álbuns no meu celular.
Não lembro se cheguei algum dia a ir atrás dos livros da Super. Mas agora me parece que esse é um bom critério para avaliar uma reportagem: que ela não seja autocontida, que seja instigante, que leve o leitor adiante.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Mira e o vazio
"Eu diria que a linha, na maioria das vezes, apenas estimula o vazio. Não estou certa que a palavra estimula esteja correta. Algo assim. De qualquer modo, o que importa na minha obra é o vazio, ativamente, o vazio."
Mira Schendel. Frase na parede da exposição Através, que está na Caixa Cultural da Praça da Sé, em São Paulo, até o dia 26. A foto foi tirada por mim na exposição.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
Meu mantra para 2012
“Contrary to the belief of a small industry that has grown up around a supposed Mayan prophecy, the world won’t end in 2012. But at times it will feel as if it is about to.”
Daniel
Franklin, no editorial da The Economist - The World in 2012
domingo, 30 de outubro de 2011
"Os padres..."
"Os padres... Como os conheci? Na casa do vovô, creio; tenho a obscura lembrança de olhares fugidios, dentaduras estragadas, hábitos pesados, mãos suadas que tentavam me acariciar a nuca. Que nojo. Ociosos, pertencem às classes perigosas, como os ladrões e os vagabundos. O sujeito se faz padre ou frade só para viver no ócio, e o ócio é garantido pelo número deles. Se fossem, digamos, um em mil almas, os padres teriam tanto o que fazer que não poderiam ficar de papo para o ar comendo capões. E entre os padres mais indignos o governo escolhe os mais estúpidos, e os nomeia bispos.
Você começa a tê-los ao seu redor assim que nasce, quando o batizam; reencontra-os nma escola, se seus pais tiverem sido suficientemente carolas para confiá-lo a eles; depois, vêm a primeira comunhão, o catecismo, a crisma; lá está o padre no dia do seu casamento, a lhe dizer o que você deve fazer no quarto; e no dia seguinte, no confessionário, a lhe perguntar, para poder se excitar atrás da treliça, quantas vezes você fez aquilo. Falam-lhe do sexo com horror, mas todos os dias você os vê sair de um leito incestuoso sem sequer lavar as mãos, e vão comer e beber o seu Senhor, para depois cagá-lo e mijá-lo."
Umberto Eco, trecho de O cemitério de Praga. Tradução de Joana Angélica d'Ávila Melo. Record, 2011, p. 19-21.
***
A leitura d'O cemitério é perturbadora porque o protagonista é neurótico e paranoico, cheia de opiniões extremas: odeia italianos, franceses, alemães, judeus... Você, pra simplificar, discorda e ri. Aí, de repente, se pega concordando com algumas das ideias do amalucado. E aí a tal leitura ainda mais doentia: você se flagra na demência.
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Your cosmic fire
Gravei um videozinho na instalação Your cosmic fire, do Olafur Eliasson, que está no Sesc Belenzinho.
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Dr. Sketchy com Burlesque Take Over
Dr. Sketchy com Burlesque Take Over, originally uploaded by Eduardo Nasi.
Pra mais informações sobre o Dr. Sketchy brasileiro, que não rola só na Quanta: http://drsketchysaopaulo.blogspot.com/
terça-feira, 20 de setembro de 2011
Chicken Tikka Masala
Ontem à noite, publiquei no Instagram essa a foto aí. Tirei direto do meu prato, antes da primeira colherada, mas depois de ver o chef Greigor Carsley (do adorável e agora extinto Drake's) fazer bem na minha frente. Eu já tinha feito chicken tikka masala, mas o do Greigor é levemente mais adocicado, mais equilibrado, muito bom mesmo.
O crédito devido: tudo isso aconteceu uma atividade da Cultura Inglesa, onde voltei a estudar inglês depois de anos fora das salas de aula.
O mote: há pouco tempo, uma pesquisa revelou que o Chicken Tikka Masala destronou o fish'n'chips e se tornou o alimento mais consumido no Reino Unido.
A curiosidade: esta é a receita britânica mesmo. A indiana, que na verdade se originou na Indonésia, não tem molho.
Dito tudo isso: a querida Ana Ban mandou eu liberar a receita. Que não é minha, é do Greigor, e eu espero que ele não se importe de eu reproduzi-la aqui, traduzida e com alguns pitacos meus.
Chicken Tikka Masala (para seis pessoas)
100 ml de ghee (ou manteiga mesmo)
100g de cebolas picadas
10g de alho picado
50g de gengibre picado
20g de garam masala (pó feito com cardamomo, louro, pimenta preta, cominho, sementes de coentro, canela, cravo, açafrão. Cada família da Índia tem uma receita própria, então misture a seu gosto sem exagerar. Uma pessoa apressada no Brasil poderia substituir por aquele pó chamado de curry, embora eu não recomende)
uma colher de sopa de páprica
uma colher de sopa de chili em pó
500g de peito de frango cortados em cubos
200g de tomate em lata (eu geralmente faço com meu extrato de tomate)
200 ml de creme de leite fresco
100 ml de iogurte
uma colhe de sopa de mel
sal a gosto
folhas de coentro (opcional, mas só porque em São Paulo as pessoas são frescas e não comem coentro)
Método
Refogue a cebola no ghee em temperatura baixa até ela ficar translúcida, e então adicione o alho e o gengibre. Cozinhe por mais um minuto. Adicione o açúcar mascavo (que não está na lista original, deve ser uma colher!) e as especiarias (mas reserve metade do garam masala pra cozinhar com o frango, mais tarde).
Adicione o tomate e cozinhe até a água evaporar. Mexa bem.
Salteie o frango com o resto do garam masala e o ghee. Adicione o molho. Finalize com o creme de leite, o iogurte e o mel.
Sirva com arroz.
O arroz: é comum com açafrão. Eu tentaria com arroz thai ou basmati.
Bom apetite!
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Últimos dias
Marina Abramovic em "The artist is present"
Exposições
As aventuras da linha, de Saul Steinberg
Oneness, de Mariko Mori
Livro
Tree of Codes, de Jonathan Safran Foer
Quadrinhos
Optic Nerve # 12, de Adrian Tomine
Álbum
Fôlego, de Filipe Catto
Game
The artist is present
por
Eduardo Nasi
às
16:49
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sábado, 17 de setembro de 2011
Steinberg fala sobre o Brasil
"Certa vez, estive no Brasil e subi o rio Amazonas e estive em lugares muito curiosos, como Pernambuco, Rio, São Paulo. O que mais me impressionou aconteceu numa praia distante, acho que foi em Pernambuco, talvez no Recife. Primeiro, vi um bode verde, depois vi uma galinha verde, depois um cachorro verde. Era uma coisa misteriosa ver tantos bichos verdes. Acabei descobrindo a razão. Havia uma cerca recém-pintada. E os bichos tinham se esfregado na tinta da cerca. Foi o que mais me impressionou. Eu devia falar sobre a injustiça social no Brasil, sobre a arte, o clima, sobre situações glamurosas, como a minha exposição por lá. Mas o cachorro verde, a galinha verde, foram as coisas realmente essenciais."
Saul Steinberg, c. 1954(da exposição em cartaz na Pinacoteca)
domingo, 11 de setembro de 2011
Últimos dias
"E o reboot da DC, hm?"
Filmes
Submarino
Um conto chinês
Programa duplo Nelson Leirner
Assim é se lhe parece (documentário)
Nelson Leirner 1961 - 2011 - 50 anos (retrospectiva)
Instalação
Rio Oir, de Cildo Meirelles
HQ
Animal Man # 1
Action Comics # 1
Les yeux du chat
Evento
Lygia Fagundes Telles no Encontros de Interrogação
Revista
Vitória em Cristo, perfil de Silas Malafaia na Piauí (ver post anterior)
(Obrigado, Lielson, pela imagem.)
por
Eduardo Nasi
às
22:42
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Criado em 2005 pela incrível Molly Crabapple, em NY, o Dr. Sketchy começou a rolar no Brasil há uns meses.
Fui numa sessão na escola de artes Quanta -- onde o Dr. Sketchy rola no primeiro sábado do mês, ali pelas 19h, com as garotas do Burlesque Take Over. Não é num bar (ahhh...), mas é bem bacana pra passar três horas desenhando.
O esquema é ágil: poses rápidas de 3, 5 e 10 minutos. No meio, brincadeiras -- como desenhar com a mão esquerda. Uma hora e meia passam voando.
O desenho deste post saiu de lá. Depois, vieram outros - criei um álbum no Flickr pra eles.