domingo, 13 de setembro de 2015

Trecho

"O novo século está começando, nada mais será como antes. O mundo não retornará à sua origem. A laguna já não é um refúgio para o nascimento da vida. Tornou-se um lago mortal, o lago pesado e árido do sangue derramado. Vou caminhando pela areia, no meio das ruínas das cabanas. Talvez eu já esteja parecido com o velho John Nattick de minha infância, que costumava se plantar diante da água cinzenta da laguna no meio das carcaças dos barcos inúteis que ele não via mais. Será que um dia ainda aparecerá um menino para ouvir o lamento das ossadas, dos galhos? Às vezes, navios passam ao largo. Vejo seus altos mastros e as chaminés cuspindo fumaça. Atravessam a baía, indo para o sul. Procuram outros segredos, outras presas. Depois o mar volta a ficar vazio. Nenhum sinal, nenhum sopro. Como podemos esquecer, para que o mundo recomece? Por toda parte encontrei o túmulo de Araceli. Por toda parte as mesmas pedras, a mesma terra revolta. Lá longe, do outro lado do cabo, há uma cidade nova. Se eu prestar muita atenção, quem sabe consiga ouvir, trazidos pelo vento, a música, os risos, os gritos das crianças?"

Jean-Marie Gustave Le Clézio (tradução de Leonardo Fróes)
Pawana (p. 48-49, Cosac Naify, 2009, edição com ilustrações de Guazzelli)

segunda-feira, 25 de maio de 2015

EXTRA, EXTRA! CINCO DESENHOS E UMA PINTURA, OBRIGADO

Meus amigos Fabrício Carpinejar entraram num projeto maluco de salvar a Jornada de Passo Fundo, que está ameaçadíssima.
Não sei se todo mundo sabe o que é a Jornada: é um evento de literatura feito debaixo de uma lona de circo que reúne milhares de crianças e adolescentes no interior do Rio Grande do Sul, numa cidade chamada Passo Fundo. Tão delirante quanto isso. Tem funcionado assim por décadas, sob o comando rígido de uma professora chamada Tânia Rösing - que alguns acusam de ser rígida demais, e que outros dizem que é pela rigidez que mantém esse circo de pé. Mas, este ano, ano de crise, a Jornada corre sério risco de ser cancelada.
A dupla abriu um crowdfunding pra salvar a jornada. R$ 405 mil - possivelmente o maior de todos os crowdfundings já realizados no Brasil, provavelmente. A renda vai integralmente pra realização da Jornada.
É quase impossível dar certo. Por isso, não nos resta alternativa senão acreditar que vai dar certo.
Faz quase três anos que faço um desenho semanal pro Fabrício no site Vida Breve.
Pois bem: pra mostrar que eu acredito, vou dar cinco desses desenhos pros cinco primeiros apoiadores que me enviarem um comprovante de doação de R$ 250 para a Jornada. Isso mesmo: cinco desenhos originais que usei pra ilustrar os textos no Vida Breve. É uma forma de incentivar, de fazer a campanha crescer rápido e as pessoas passarem a ver que vai dar certo, e ajudarem ainda mais.
EXTRA! Como vocês podem conferir nos comentários abaixo, a querida Maria Tomaselli acaba de oferecer gentilmente um óleo em papel feito por ela, uma pintura certamente incrível, para o primeiro que enviar o recibo de uma doação de R$ 1000. Se você for comprar na galeria, pagará R$ 4 mil.
MAIS UMA ATUALIZAÇÃO: migramos os desenhos pro sistema de recompensas do Juntos.VC, porque dá mais visibilidade. Todo mundo interessado na campanha vai ver.
Claro que o crowdfunding pode dar errado. Aí você ganha o dinheiro de volta. Mas a gente não vai pedir o desenho de volta. Ele fica com você, como lembrança de quem um dia acreditamos juntos nessa ideia.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

No cinema (12)

Na minha cabeça, esta série de posts chamados No cinema serve para dar uns pitacos e ajudar amigos que querem ir ao cinema. Tanto que falo do que mais gosto, do que acho interessante de alguma forma. São recomendações, e são bem pessoais, então o que não recomendo não entra. Birdman, por exemplo: não entra. Aliás, já que estamos na época, já aviso: muita coisa do Oscar não entra, mesmo que eu tenha visto todos os indicados a melhor filme.

Vamos ao que entra:



* O jogo da imitação - É um filme interessantíssimo. Não só pela história do matemático gay reprimido que inventou o computador e ajudou os Aliados a vencerem a II Guerra, mas também porque é um filme que consegue ser bom mesmo que com uma direção pífia. Todo o resto é tão bom que a gente mal percebe que o as engrenagens não estão bem calibradas.

* A teoria de tudo - Não sei se é uma onda passageira, mas simpatizo com essas comédias românticas protagonizadas por grandes cientistas e com atuações monumentais. Aqui, no caso, com a direção de James Marsh, que é mais conhecido por documentários memoráveis como Man on wire e Project Nim.

* Timbuktu - Tem duas categorias geralmente que valem a pena no Oscar: filme estrangeiro e documentário. Timbuktu concorre na primeira. É sobre a repressão islâmica nos subúrbios de Timbuktu. Forte, dolorido.

* Amor, plástico e barulho - Quando digo que o cinema pernambucano é um dos melhores do mndo, é por causa de filmes como este, que acompanha os bastidores de uma banda de música brega meio fracassada. Aqui, como em Timbuktu, há um lado documental interessantíssimo, mesmo sendo ficção.



* Belle et Sebastién - Um filminho francês fofo de garoto e cachorro – baseado na série que deu origem ao nome da banda escocesa. Admito que é um golpe baixo unir crianças e cachorros, ainda mais nos Alpes e combatendo nazistas. Mas funciona bem.

* Selma - As pessoas implicaram com os fatos históricos deturpados de Selma. Mas, como filme, é outra cinebiografia interessante. Não chega a ser um 12 anos de escravidão, mas mostra o racismo sem nenhuma dó.

Os demais filmes comentados do Oscar e todos os No Cinema anteriores estão aqui.

domingo, 25 de janeiro de 2015

No cinema (11)

Na minha cabeça, esta série de posts chamados No cinema serve para dar uns pitacos e ajudar amigos que querem ir ao cinema. Tanto que falo do que mais gosto, do que acho interessante de alguma forma. Faço de vez em quando, perco uns filmes pelo caminho. Inclusive perdi vários entre o último post e hoje. Alguns que não queria perder, como As aventuras do avião vermelho, feito por tantos queridos amigos, ou O ciúme, que considerei um acontecimento.

Ao mesmo tempo, foram dias mornos. Não tinha tanta coisa interessante acontecendo nas telas.

Retomo hoje, com um cenário bem diferente. Há filmes bons aos montes. Ao mesmo tempo, a temporada de Oscar está começando, e os cinemas, por tabela, lotando. Imagino que isso leve mais amigos aos cinemas. Aliás, amigos: se forem, vão logo, se atentem pras pré-estreias, evitem deixar pra quando o boca-a-boca do Oscar lotar demais as sessões...

Se ajudar, aí vai:




Grandes Olhos - Tim Burton foi o diretor que me ensinou na prática que existem diretores. Vi Beetlejuice quando saiu, no extindo Baltimore, em Porto Alegre. Pirei. Eu mal sabia que existiam diretores, mas entendi que queria ver tudo que fosse como Beetlejuice. Dois anos depois, veio o Batman, outro Beetlejuice, e entendo que deveria ver todos os filmes desse cara, o que efetivamente fiz. Segui fazendo isso a vida toda, e passei a procurar Beetlejuices de outras pessoas. Até hoje, eu e Tim Burton nos damos muito bem, a despeito de ele nem saber que eu existo. Vejo todos os filmes como se fossem novos Beetlejuices, e eles são. Tim Burton faz filmes pra mim, e naturalmente este filme novo não poderia ser sobre outro tema senão artes visuais. Não que eu concorde com tudo, mas eu converso sobre tudo que está ali. Especialmente a cena do supermercado. Depois disso tudo, acho que ficou claro: eu vejo os filmes de Tim Burton de uma forma muito especial, e não acho que todo mundo vá ter uma reação tão empolgada como a minha. Mas espero que mais alguém tenha, e não poderia não recomendar. E insistir.

Acima das Nuvens - Assayas talvez seja meu Tim Burton mais recente. Comecei a vê-lo há três ou quatro anos, já busquei filmes do passado. É um grande diretor. Leio por aqui que consideram um filme menor dele. Não vejo como poderia ser maior algo dessa magnitude. Assayas, Kristen Stewart e Juliette Binoche puxam nosso tapete a toda hora.

Até que a Sbórnia nos separe - É um desenho animado que é uma confluência de gênios e heróis. Nico, Hique, Otto Guerra, Guazzelli, Maia... É incrível não só que este filme exista, que tenha surgido mesmo em condições tão adversas, sobre as quais nem preciso versar, mas que também seja tão maravilhoso. Já tinha visto numa sessão improvisada no IED, e agora o vi em condições adequadas. Que imensa obra-prima.

O abutre - A imprensa diz que é sobre a imprensa, o que deve ser apenas uma questão de narcismo. A imprensa é só o cenário. É um grande filme sobre a patologia das corporações.

O crítico - Filme argentino que está passando meio batido. Mas é uma comédia romântica interessantíssima sobre um crítico que não aceita ser ele mesmo um clichê.



Depois da chuva - Vi na Mostra de 2013 e não achei que ainda ia estrear em circuito. É um filme ao mesmo tempo jovem e poderoso. É um filme que não foge do debate político, que fala de liberdade abertamente. Não acho que esteja atraindo muita gente, mas não sei de quem, tendo visto, não tenha gostado.

Homens, mulheres e filhos - Nas resenhas, atacam o diretor Jason Reitman. Acusam-no de luddista, dizem que não é mais hora de falar mal de internet. Esquecem que o filme abre com uma ode à tecnologia e aos grandes avanços da humanidade, com a Voyager. É um filme interessantíssimo sobre a forma como usamos a tecnologia. É sobre nós, os maluquinhos viciados em grupos de Whatsapp.

Ida - Pequena joia polonesa em P&B. Certamente o filme mais sutil e delicado em cartaz, e ainda assim cheio de escolhas corajosas.

As férias do pequeno Nicolau - Como seu antecessor, uma delícia de filme infantil. 

Leviatã - O que é esse Leviatã? Que grandioso. Tão distante de nós, por ser a Rússia, mas tão próximo. Poderia ganhar uma versão brasileira. No litoral paranaense, quem sabe? Nossos problemas são da mesma estirpe.

Livre - Achei que seria um embuste. Adorei. Vibrei. Saí do cinema a fim de dar a volta na Islândia a pé. Fiquei pensando em Cheryl Strayed por dias e dias. De vez em quando ela me volta.

O segredo das águas - Um dos filmes mais soturnos da Mostra do ano passado. Bem bom, com momentos memoráveis.

Whiplash - Adorei ver o filme. Vibrei. Me diverti horrores. Mas depois o filme foi se revelando um Karatê Kid com jazz, um Rocky cool. Mesma estrutura. Difamei o filme por todo canto. E então me dei conta, numa discussão meio torta com a Graziela, de que eu estava errado. Esses filmes todos eram sobre uma pessoa que precisa de autoconfiança. Whiplash não tem nada a ver com autoconfiança. É sobre trabalho duro mesmo. E isso é inédito. Enfim, não amei. It's not my tempo, mas tem algo nesse filme.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Diálogos recorrentes sobre cinema argentino

- Você viu Relatos Selvagens?
- Vi, gostei bastante.
- Você não amou?
- Não amei. Gostei, gostei bastante, mas acho que o filme tem uma certa preguiça em explorar esses impulsos selvagens. Ele só relata mesmo, mas fico com a sensação de que deveria expl...
- Mas então você não gostou?

*

- E o Darin! Você não ama o Darin?
- Amar, amar, não. É um otimo ator, mas...
- Por que você não gosta do Darin?

*

- O cinema argentino é o melhor do mundo, né?
- Eu não diria assim. Eu acho bom, mas...
- Mas quem faz cinema como eles? 
- Sei lá, esses filmes argentinos que estouram seguem bem a cartilha americana. Não que não sejam bons, são, mas...
- Imagina! Os americanos só fazem filme de ação! O Brasil tinha que parar de fazer porcaria e olhar pro cinema argentino. Quem é que faz cinema como eles, hein? Tu não me respondeu... Diz um lugar que faça cinema melhor que a Argentina! Só um. 
- Pernambuco.