domingo, 30 de outubro de 2011

"Os padres..."

"Os padres... Como os conheci? Na casa do vovô, creio; tenho a obscura lembrança de olhares fugidios, dentaduras estragadas, hábitos pesados, mãos suadas que tentavam me acariciar a nuca. Que nojo. Ociosos, pertencem às classes perigosas, como os ladrões e os vagabundos. O sujeito se faz padre ou frade só para viver no ócio, e o ócio é garantido pelo número deles. Se fossem, digamos, um em mil almas, os padres teriam tanto o que fazer que não poderiam ficar de papo para o ar comendo capões. E entre os padres mais indignos o governo escolhe os mais estúpidos, e os nomeia bispos.
Você começa a tê-los ao seu redor assim que nasce, quando o batizam; reencontra-os nma escola, se seus pais tiverem sido suficientemente carolas para confiá-lo a eles; depois, vêm a primeira comunhão, o catecismo, a crisma; lá está o padre no dia do seu casamento, a lhe dizer o que você deve fazer no quarto; e no dia seguinte, no confessionário, a lhe perguntar, para poder se excitar atrás da treliça, quantas vezes você fez aquilo. Falam-lhe do sexo com horror, mas todos os dias você os vê sair de um leito incestuoso sem sequer lavar as mãos, e vão comer e beber o seu Senhor, para depois cagá-lo e mijá-lo."
Umberto Eco, trecho de O cemitério de Praga. Tradução de Joana Angélica d'Ávila Melo. Record, 2011, p. 19-21.

***

A leitura d'O cemitério é perturbadora porque o protagonista é neurótico e paranoico, cheia de opiniões extremas: odeia italianos, franceses, alemães, judeus... Você, pra simplificar, discorda e ri. Aí, de repente, se pega concordando com algumas das ideias do amalucado. E aí a tal leitura ainda mais doentia: você se flagra na demência.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Your cosmic fire




Gravei um videozinho na instalação Your cosmic fire, do Olafur Eliasson, que está no Sesc Belenzinho.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Dr. Sketchy com Burlesque Take Over


A Dr. Sketchy Anti-Art School é uma sessão de modelo vivo com uma pegada de cabaret burlesco. Em vez de gente nua, as moças encenam uma história, um tema por vez. Em volta delas, muita gente vai desenhando -- ou fotografando, ou pintando, ou, como eu, rabiscando qualquer coisa só pra se divertir.

Criado em 2005 pela incrível Molly Crabapple, em NY, o Dr. Sketchy começou a rolar no Brasil há uns meses.

Fui numa sessão na escola de artes Quanta -- onde o Dr. Sketchy rola no primeiro sábado do mês, ali pelas 19h, com as garotas do Burlesque Take Over. Não é num bar (ahhh...), mas é bem bacana pra passar três horas desenhando.

O esquema é ágil: poses rápidas de 3, 5 e 10 minutos. No meio, brincadeiras -- como desenhar com a mão esquerda. Uma hora e meia passam voando.

O desenho deste post saiu de lá. Depois, vieram outros - criei um álbum no Flickr pra eles.
Pra mais informações sobre o Dr. Sketchy brasileiro, que não rola só na Quanta: http://drsketchysaopaulo.blogspot.com/

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Chicken Tikka Masala


Ontem à noite, publiquei no Instagram essa a foto aí. Tirei direto do meu prato, antes da primeira colherada, mas depois de ver o chef Greigor Carsley (do adorável e agora extinto Drake's) fazer bem na minha frente. Eu já tinha feito chicken tikka masala, mas o do Greigor é levemente mais adocicado, mais equilibrado, muito bom mesmo.


O crédito devido: tudo isso aconteceu uma atividade da Cultura Inglesa, onde voltei a estudar inglês depois de anos fora das salas de aula.

O mote: há pouco tempo, uma pesquisa revelou que o Chicken Tikka Masala destronou o fish'n'chips e se tornou o alimento mais consumido no Reino Unido.

A curiosidade: esta é a receita britânica mesmo. A indiana, que na verdade se originou na Indonésia, não tem molho.

Dito tudo isso: a querida Ana Ban mandou eu liberar a receita. Que não é minha, é do Greigor, e eu espero que ele não se importe de eu reproduzi-la aqui, traduzida e com alguns pitacos meus.

Chicken Tikka Masala (para seis pessoas)
100 ml de ghee (ou manteiga mesmo)
100g de cebolas picadas
10g de alho picado
50g de gengibre picado
20g de garam masala (pó feito com cardamomo, louro, pimenta preta, cominho, sementes de coentro, canela, cravo, açafrão. Cada família da Índia tem uma receita própria, então misture a seu gosto sem exagerar. Uma pessoa apressada no Brasil poderia substituir por aquele pó chamado de curry, embora eu não recomende)
uma colher de sopa de páprica
uma colher de sopa de chili em pó
500g de peito de frango cortados em cubos
200g de tomate em lata (eu geralmente faço com meu extrato de tomate)
200 ml de creme de leite fresco
100 ml de iogurte
uma colhe de sopa de mel
sal a gosto
folhas de coentro (opcional, mas só porque em São Paulo as pessoas são frescas e não comem coentro)

Método

Refogue a cebola no ghee em temperatura baixa até ela ficar translúcida, e então adicione o alho e o gengibre. Cozinhe por mais um minuto. Adicione o açúcar mascavo (que não está na lista original, deve ser uma colher!) e as especiarias (mas reserve metade do garam masala pra cozinhar com o frango, mais tarde).

Adicione o tomate e cozinhe até a água evaporar. Mexa bem.

Salteie o frango com o resto do garam masala e o ghee. Adicione o molho. Finalize com o creme de leite, o iogurte e o mel.

Sirva com arroz.

O arroz: é comum com açafrão. Eu tentaria com arroz thai ou basmati.

Bom apetite!

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

sábado, 17 de setembro de 2011

Steinberg fala sobre o Brasil


"Certa vez, estive no Brasil e subi o rio Amazonas e estive em lugares muito curiosos, como Pernambuco, Rio, São Paulo. O que mais me impressionou aconteceu numa praia distante, acho que foi em Pernambuco, talvez no Recife. Primeiro, vi um bode verde, depois vi uma galinha verde, depois um cachorro verde. Era uma coisa misteriosa ver tantos bichos verdes. Acabei descobrindo a razão. Havia uma cerca recém-pintada. E os bichos tinham se esfregado na tinta da cerca. Foi o que mais me impressionou. Eu devia falar sobre a injustiça social no Brasil, sobre a arte, o clima, sobre situações glamurosas, como a minha exposição por lá. Mas o cachorro verde, a galinha verde, foram as coisas realmente essenciais."
Saul Steinberg, c. 1954
(da exposição em cartaz na Pinacoteca)

domingo, 11 de setembro de 2011

Últimos dias

"E o reboot da DC, hm?"

Filmes
Submarino
Um conto chinês

Programa duplo Nelson Leirner
Assim é se lhe parece (documentário)
Nelson Leirner 1961 - 2011 - 50 anos (retrospectiva)

Instalação
Rio Oir, de Cildo Meirelles

HQ
Animal Man # 1
Action Comics # 1
Les yeux du chat

Evento
Lygia Fagundes Telles no Encontros de Interrogação

Revista
Vitória em Cristo, perfil de Silas Malafaia na Piauí (ver post anterior)

(Obrigado, Lielson, pela imagem.)

sábado, 10 de setembro de 2011

Elizete Malafaia

"Elizete [Malafaia, esposa de Silas] queria saber se eu acreditava em Deus, se era cristã, se já havia lido a Bíblia, se já havia ido a algum culto evangélico, se havia sido batizada na Igreja Católica. Respondi não a todas as perguntas. Falou-se sobre Deus e o Diabo. Ela afirmou que as forças do mal se empenham a todo instante em impedir que o mundo e o ser humano se aperfeiçoem. 'Eu não tenho problema com quem não é cristão, mas você pelo menos acredita no bem e no mal?' 'Não no sentido metafísico', respondi-lhe. Não houve mais perguntas."

Daniela Pinheiro, em momento iluminado da reportagem Vitória em Cristo, perfil do pastor Silas Malafaia que está na revista Piauí deste mês.
Aqui (pra assinantes e quando a revista estiver aberta para todos).

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Comic-Con Strikes Again!

San Diego Comic-Con 2011 - Day 3

Douglas Wolk me conquistou há uns anos, quando li seu Reading Comics. Encontrei ali um poço de sensatez sobre histórias em quadrinhos. Não é sempre que isso acontece. Num mundo dominado por fãs, trabalho e paixão se confundem com muita facilidade. As coisas se misturam demais - editores viram jornalistas, jornalistas viram criadores, criadores viram donos de lojas e por aí vai. É uma promiscuidade que, verdade seja dita, faz parte desse universo - e que, no fim das contas, traz mais benefícios que prejuízos. Mas que, de qualquer forma, acaba minando a objetividade. (Eu estava falando do mercado americano, mas, ao reler, me dei conta de que a descrição se encaixa direitinho pro Brasil.)

Mas Wolk era sensato. Tinha opiniões decentes. Não se deixava impressionar pelo sucesso de mercado. Tinha um bom gosto invejável pra selecionar bons quadrinhos (não me arrependi de nenhuma das dicas que peguei dele). Suas críticas não só comentavam a HQ mas, como deveria ser sempre, iluminavam a leitura.

Comecei a acompanhar o trabalho de Wolk - principalmente no New York Times, jornal no qual volta e meia ele escreve sobre quadrinhos no caderno dominical sobre livros. Também gosto muito de seus trabalhos hercúleos - como os blogs sobre a complexa série Final Crisis e sobre todas as HQs já publicadas do Judge Dredd.

Comic-Con strikes again! é seu novo livro. Um livrinho, na verdade, mais precisamente um Kindle Single, que é o formato de publicações rápidas para leitura digital, e que só estão à venda na Amazon mesmo.

(Nota: não é preciso ter um Kindle, pode-se ler em apps para iPad e para a maioria dos smartphones, em programas instalados em PC e Mac ou mesmo em webapps para Chrome e Safari.)

O que Wolk faz é levar o leitor a um passeio pela San Diego Comic-Con. Eu nunca fui e, sinceramente, não tenho vontade de ir a passeio, como alguns amigos eventualmente sugerem. A trabalho, como todo mundo que eu conheço vai, seriam outros quinhentos. Mas como turismo me parece mais roubada que a 25 de Março em véspera de Natal. Wolk confirma minha intuição: descreve os horrores das filas, os cosplayers mais medonhos, os fanatismos que certamente me deixariam irritado. Mas também fala de novidades - mesmo pra quem, como eu, leio sobre a Comic-Con hpa anos. Foi pelo livro que fiquei sabendo de várias sutilezas que, provavelmente, nem estando lá eu veria, como a mesa dos primeiros colecionadores de gibis (algo que me lembrou dos leitores brasileiros de Tex).

Tenho a impressão de que o livrinho rápido e barato vai encantar tanto os leitores de quadrinhos quanto os espectadores de cinema, já que os dois acompanham cada vez mais de perto a Comic-Con. Também me parece que será uma leitura proveitosa pros jornalistas que cobrem entretenimento, porque dá uma ideia geral de um evento cada vez mais importante.

Dito tudo isso, chegamos ao que importa no post: os trechos de Comic-Con strikes again que separei pra compartilhar aqui:

"Comic-Con is a bacchanalian 100-hour orgy of fandom, and fandom is all about cathexis: investing one’s energy and identity in a particular idea or person or thing. The genius of the pop culture of the past century is that it’s turned extendable brands into the objects of cathexis. A piece of popular entertainment is almost never only itself: if you find yourself attracted to it, it leads you to invest yourself into it with the promise that there’s more where that comes from."

"There are lines to get into the building, lines to get into panels and screenings, lines to buy 'limited-edition collectibles,' lines to get autographs, lines to get tickets to get autographs, lines to get food, lines to get across the street. There are lines to buy tickets for next year’s show. The first line you encounter is the very long one at the end of which you hand over your ticket. In return, they give you four things: a badge that gets you into the convention center; a 192-page catalogue of events, with a bound-in section of maps; a magazine with articles about a handful of show guests and media anniversaries; and the biggest goddamned shopping bag you have ever seen in your life, with a strap to convert it into a backpack so as to better display its billboard-sized ad for some movie or game or show."

"If you’re making the kind of media that people wear T-shirts about, you need fans, and you need the biggest fans first."

"These are the people who seek out their favorite artifacts of culture, and glom onto them, and live the life: reading, discussing, watching, rereading, thinking, decorating, dressing, collecting, rewatching, quoting, accessorizing. They post on message boards. They tweet. They tell their friends what they like.  The fact that it’s now harder than ever to buy tickets to the show and get a flight to San Diego and arrange for a place to stay just means that the people who pull it off are the most committed of all, and the most valuable tastemakers."

"These days, turning a comic book into a movie isn't enough; that happens all the time. The buzzword of Comic-Con 2011, the thing everybody in the business is talking about, is 'transmedia'."

"Star Wars is our holy writ. Star Trek, oddly, has become camp now--the sort of thing that old-school fans used to like--especially thanks to William Shatner’s slow slide into cheerful self-parody. But Star Wars holds us together."

"Every entertainment professional I know dreads Comic-Con at least a little bit, and most of them go anyway."

domingo, 4 de setembro de 2011

Últimos dias

 Charlotte Free no Terry Richardon's Diary <3

Filmes

Livros
A página assombrada por fantasmas - Antônio Xerxenesky
Comic-Con strikes again - Douglas Wolk

Site / Uma garota

Música
Firework - Glee Project

TV
Quarta temporada de Damages

(Me ocorreu agora que seria uma boa forma de acabar os domingos. Com sorte e persistência, vai melhorar.)

Uma pequena decepção


Acabo de ler o álbum Combate Inglório, lançado por estes dias pela pequena e simpática editora Gal. E tenho que ser franco e dizer: não gostei.

Pode ser que minha expectativa estivesse nas alturas, porque elogios dos mais respeitáveis precederam minha leitura. E porque a Gal vem geralmente lançando bons títulos (como Mundo Fantasma, que nada mais é que a versão nacional do Ghost World do Daniel Clowes, e que recomendo com entusiasmo). E porque o tradutor é o meu querido amigo Delfin - cujo trabalho parece ter sido bem competente, diga-se de passagem.


Combate Inglório é a edição brasileira de Blazing Combat, álbum que reúne os quatro únicos gibis da série de mesmo nome, que foi tirada de circulação nos anos 60, acusada de ser antiamericana e subversiva. Esse material ficou fora de circulação por décadas. Portanto, tem um valor histórico assegurado. Disso ninguém duvida.


Mas os roteiros me incomodam. Não é nem pela verborragia que marca as HQs americanas da época. Disso eu não gosto, mas OK, faz parte. O problema é outro: a sequência de histórias curtas com finais chocantes é cansativa, porque no terceiro ou quarto final chocante você não se choca mais. E aí dá-lhe história de guerra com final chocante que não choca. Veja bem: tenho certeza de que, pros adolescentes americanos dos anos 60, morrendo de medo de serem convocados pro Vietnã, era incrível. Mas nessas eu caí no sono duas vezes.

Aí vem a arte. São desenhos fabulosos. É o ponto alto de Blazing Combat. Se o roteiro ficou datado, a arte é um arraso. Tem Alex Toth, John Severin, Wally Wood, Al Williamson, uns caras de quem eu realmente curto o trabalho.

Mas aí, justamente aí, vem o ponto que mais me incomodou: a Gal conseguiu a façanha de publicar um álbum menor que o original da Fantagraphics. Em vez de 20 x 25 cm, 16,5 x 24 cm. Em vez de dar espaço pra arte respirar, de tratar como livro de arte, encolheu, sufocou, matou suas histórias. 

Eu já tinha visto o álbum que deu origem à versão nacional numa livraria. Folheei, achei bonitaço e deixei lá, pensando justamente que a versão nacional estava a caminho. Então comprei o livro da Gal pela internet. Quando chegou, veio a decepção. Dá vontade de voltar lá, de devolver, de acrescentar mais R$ 2,60 nos R$ 42 que paguei pra trocar pela edição americana - ou de trocar por algo mais legal mesmo.

***

Na contracapa, há uma citação do meu muso Douglas Wolk. Ele não chega a fazer um elogio direto, só diz: "Acho saudável adolescentes terem acesso a quadrinhos bem escritos e bem desenhados sobre a guerra, desde que estes passem a mensagem de que a guerra é fútil, estúpida e sem sentido".

Fui atrás da citação original: é de uma lista de dez séries de quadrinhos que deveriam ser publicadas para sempre. A editora, naturalmente, não citou a parte que diz que não é por ele, e sim pelo bem comum, que Wolk fez sua escolha.


Isso resume bem o que penso sobre Combate Inglório: deve ser uma boa HQ pros outros. Mas não é pra mim.

sábado, 20 de agosto de 2011

Quando eu cresci


Quero fazer um alerta. É sobre uma história em quadrinhos chamada Quando eu cresci.

Essa HQ foi publicada no Brasil no mês passado pela Ática, que é uma editora imensa de livros didáticos, mas não tem uma força correspondente naquele clubinho que podemos chamar de, sei lá, circuito literário. Pra deixar claro: é quem está nesse meio que ganha destaque em resenhas em jornais e revistas, aparece nas vitrines de livrarias, é acompanhada com atenção pelos 837 brasileiros que leem. A culpa não é do tal circuito literário. A rigor, a Ática não tem um catálogo essencialmente instigante. Não que não tenha coisas boas: tem clássicos, tem infanto-juvenis de Marcos Rey e Pedro Bandeira, tem adaptações de clássicos para quadrinhos, tem antologias interessantes... Mas quase todo o catálogo, senão todo, é feito para outro ambiente: o da escola, dos professores, das vendas para alunos e para o governo. A roupagem paradidática acaba, a despeito do gigantismo, deixando-a em segundo plano quando sai desse meio. Nesse cenário, Quando eu cresci deve ser adotada por escolas, vendida pro governo, lida por milhares de crianças e adolescentes, e isso é fascinante.

Só que Quando eu cresci é uma das obras de ficção mais bonitas que li este ano. E, sendo da Ática, pode ser um pouco mais difícil de ter um contato com ela. Não estamos na escola, não somos professores, não temos contato com o catálogo da editora. Um dos reflexos disso é que, nas últimas semanas, não vi o livro em destaque nas livrarias. Nem nas lojas nem nos sites. Mas merecia.

De verdade: o trabalho de Pierre Paquet e Tony Sandoval não deveria ficar perdido nessa massaroca de paradidáticos.

É um álbum muito bonito, com uma arte poderosíssima, como o quadro que colei acima apenas sugere. Fala sobre um garoto de 11 anos, Pepe, que vagueia por vários lugares diferentes, e em cada um deles encontra personagens diferentes. Como essa jornada é meio mágica, onírica, tenho pra mim que Pepe é primo do Pequeno Príncipe e de Alice. No subtexto dessa viagem descontrolada, algo maior está acontecendo: o fim da infância. Acabo de ler e já tenho ganas de reler. É lindo demais.

O texto original foi traduzido pela Carol Bensimon, uma jovem escritora de imenso talento, e por isso não posso nem dizer que me surpreendo ao deparar com fluidez e delicadeza. Há esse trecho, que não por acaso aparece na história no quadro que abre este post, que eu gostaria de reproduzir aqui. É sobre Pepe descobrindo o amor, e é dito por uma mocinha linda que ele encontra na jornada:

"Para começar: é verdade, você tem razão. Ninguém sabe por que nos apaixonamos.

Por outro lado, o amor é como um grande horizonte. Um dia você chega ao topo das montanhas e está apaixonado. Pouco importam os altos e baixos dos seus sentimentos em relação ao dono do seu coração, desde que ele continue no alto, vendo o horizonte de cima.

No entanto, no dia em que você desce a montanha e fica abaixo da linha do horizonte, seu amor nunca mais será o mesmo... O verdadeiro se apagou, até que haja um novo encontro..."

Talvez o mais frustrante de fazer um comentário rasteiro sobre um trabalho admirável é que não dá pra dar conta de toda a obra. Não quero aqui fazer uma crítica, não quero entrar nos pormenores e explorar os significados riquíssimos de cada cena de Quando eu cresci - prefiro deixar espaço pra que vocês leiam e então possamos fazer isso juntos no futuro.

Quero apenas reforçar a existência da história de Pepe, e avisar amigos e passantes de que vale a pena procurar por essa HQ, e fazer de tudo para não relegá-la apenas às leituras obrigatórias das escolas. Comprem, se precisarem, leiam e, se gostarem, como acho que vão gostar, recomendem aos amigos, emprestem, deem de presente.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Uau

Vi agora que foram dois posts em julho.

Memorável, não?

E agora? Voltaremos à falta de atualização habitual?

terça-feira, 26 de julho de 2011

“Cinco anos hoje, obrigado pela companhia”

Esta foto tem sido meu gelado pano de fundo no Twitter. Me deixa, eu curto.


Hoje faz cinco anos que eu entrei no Twitter. Data redonda. Jornalistas aprendem a gostar dessas coisas. Meu primeiro impulso é típico de alguém que não gosta de comemorar aniversário: dar uma de blasé e resumir tudo em um único tuíte. Algo como “Cinco anos hoje, obrigado pela companhia”. Mas não vou fazer isso. Porque comecei a fuçar, a lembrar de algumas coisas, a encontrar fragmentos perdidos no Gmail. Acabei achando que valeria a pena escrever essa história. É um tema que uma ou outra pessoa vem pedindo pra eu falar sobre. E, mesmo que pouca gente vá se interessar em ler tudo isto, organizar esses cinco anos é algo que eu estava devendo pra mim mesmo.

A primeira ideia que eu queria derrubar é a de que há algum tipo de pioneirismo em eu ter entrado no Twitter nos primórdios. Na época, eu tinha mania de entrar em qualquer rede social que aparecia pela frente, sem nenhum critério. Eu, como todo mundo, tinha tentado entrar no Facebook quando ele era fechado só para estudantes (não deu). Até hoje minha caixa de spam paga por isso, e provavelmente a de alguns amigos também (então aproveito para, constrangido, pedir desculpas).

Há exatos cinco anos, eu estava lendo a Wired sem compromisso e vi uma materinha que falava sobre o Twitter. Fiz o cadastro e entrei. Sem mistério algum. Nessa época, a Wired já fazia parte da minha vida fazia uma década. Nos anos 90, eu tinha até mesmo editado artigos da Wired em português quando era estagiário da revista de economia Amanhã, que comprara os direitos. Portanto, só reforça: não era nada fora do comum ler a Wired. Era o que todo mundo fazia, e faz até hoje.

Ok, o Twitter me chamou atenção por um conjunto de detalhes: era baseado em SMS e celular, um tema que na época eu considerava importantíssimo – e nisso, ao menos, eu estava certo, mas quem não apostava em celulares em 2006? Como todo mundo, eu tinha lido um pouco antes o Smart Mobs, do Howard Rheingold, e estava absolutamente estimulado pelas possibilidades da mobilidade. Na minha cabeça, o Twitter poderia ser o meu tão sonhado MoSoSo (desculpa pelo link, se eu explicar tudo só acabo amanhã) entre várias operadoras de celular – papel que acabou com Foursquare.

Quando entrei, fiquei tão entusiasmado que, na mesma noite, mandei esse e-mail aqui pra Giu Tatini, que na época estava começando a cuidar de uma recém criada editoria de Comunidades na Capricho. Pouco tempo depois, a editoria se mostrou uma aposta certeira e bem sucedida da Brenda Fucuta, mas suspeito que tenha sido não só pela inovação, mas também pelo clima altamente estimulante da equipe, que contagiava até quem, como eu, era chamado pra trocar ideias. Reparem no horário, mas também em como eu descrevi o Twitter:

From Eduardo Nasi

To Giuliana Tatini

Date 27 July 2006 01:05

Subject: twttr

Já viu isso?

twttr.com, mezzo blog, mezzo site de relacionamento q funciona online mas tb é abastecido por sms. o mais legal é q aceita torpedos do brasil, sim. não sei se vai pegar, mas se vc ajudar, ajuda. :)

beijoooooooooooooo

e.

Eduardo Nasi

MSN Spaces - spaces.msn.com/eduardonasi/


(Percebam também que, na época, como todo mundo, eu também era entusiasmado com o Messenger da Microsoft, e naquela época migrei meu blog pro Spaces.)

Deixa eu explicar o tal twttr.com. O Twitter era tão próximo do mundo dos celulares que tentava emplacar a abreviação TWTTR – na onda do RAZR, do ROKR, do PEBL (pra mim, até hoje o celular mais bonito que eu já tive). Não colou e logo mudaram, mas foi essa sigla que ficou na agenda do meu celular com um número para o qual eu deveria mandar um SMS para postar no Twitter. Isso porque, na época, você não precisava usar o site. Bastava mandar torpedos. Na prática, você recebia os SMSs de quem você seguia. Tudo SMS internacional (e, no começo, minha operadora não distinguia, ou seja, tava no plano, uma belezura). Era absolutamente simples e delicioso. Na prática, o TWTTR funcionava como um hub de torpedos, e em 2006, primórdios da internet móvel por aqui, os torpedos ainda eram absolutamente sexy e, ao mesmo tempo, já tinham se tornado muito baratos.

Aí as coisas começaram a mudar: a operadora começou a cobrar mais caro, o próprio Twitter cortou o envio de SMS internacional e tudo foi mudando. Aliás: o Twitter que eu considerara revolucionário tinha mudado tanto que não era mais o meu Twitter. Qualquer pretensão de pioneirismo que eu pudesse ter acabou nessa época.

O serviço não se popularizou no país a tempo de criar um senso de comunidade, de pertencimento. Ou seja: não tinha quase ninguém lá, e quem estava não postava com muita frequência ou não era muito próximo de mim. Daquela época, lembro da Flavia Durante, do Hector Lima e de um japonês que foi meu primeiro seguidor, persistente por muitos anos, mas depois de um tempo sumiu. Não tinha celebridades nem Follow Friday.

Além disso, não havia mecanismos eficientes de conversa. Lembro vagamente de receber um e-mail do Biz Stone anunciando funções básicas como o de responder e o de hashtags, e mais vagamente ainda de outro dizendo que algumas pessoas haviam criado o RT.

A essas alturas, sem muitos seguidos e seguidores pra compartilhar, passei a tuitar apenas esporadicamente. Foram dois anos assim, olhando de longe, escrevendo raramente, acompanhando os amigos que iam descobrindo a ferramenta.

Até que cheguei à Campus Party de 2009. Ali eu senti que o Twitter havia amadurecido, e que merecia uma nova atenção, que foi o que fiz: entrei na minha conta no EEEPC e comecei a tuitar. Encontrei um Twitter bem diferente, baseado em site e aplicativos. E já com algumas celebridades. Não era um @aplusk, mas eu sou mais o @stephenfry mesmo. O serviço de SMS tinha sido escanteado – imagine como seria hoje receber um torpedo pra cada atualização da timeline e ficará fácil de entender por que a mudança foi fundamental pro crescimento. Mas os campuseiros estavam animadíssimos, tuitando sem parar. E aí sim: a rede estava pronta pra interferir na cultura global.

Twitter retomado, tinha chegado a hora de pôr em prática a ferramenta.

A experiência mais empolgante nessa época foi com o perfil do site de quadrinhos Universo HQ. O Sidney Gusman, editor do site, havia criado o perfil e usava com relativo sucesso na época para tuitar as notícias logo pela manhã. Era uma forma evidente e fácil de ampliar o número de leitores. Numa entrega de prêmio HQ Mix, experimentei pela primeira vez o livestream, eu com o EEEPC plugado num canto do palco e o Sidão com um celular na plateia. Na prática, ninguém sabia direito quem estava fazendo o quê. O perfil ali começou a ganhar duas coisas que viraram uma marca do @universohq: uma personalidade e um ar de mistério. Uns dias depois, assumi a tarefa de fazer o perfil por uma temporada. Foi um barato para experimentar. Acho que minha maior contribuição ali foi a de dar uma personalidade pro perfil, que na minha cabeça sempre foi uma versão nerd do Puck de Sonhos de uma noite de verão, o que naturalmente teve uma leve mudança quando outros colegas assumiram o papel. O @universohq passou a interagir mais com leitores, a atazanar editoras, a divulgar autores. Esse personagem ficou tão dissociado de mim que, enquanto a diretoria de uma editora brigava comigo por fazer matérias que supostamente comprometiam as vendas de um de seus títulos mais caros, o perfil – ou seja, eu – estimulava os leitores a encontrarem o preço mais baixo do título no varejo, retuitando os resultados e incrementando as vendas do álbum. Eu que não ia abrir a boca.

Depois de uns meses, totalmente sem tempo, tive que abrir mão do @universohq, mas fico feliz que os sucessores tenham não só mantido o anonimato, mas também ampliado a mitologia. Além do mais, as coberturas pelo Twitter do HQ Mix se tornaram uma tradição.

Mas a história que até hoje me surpreende quando eu penso nela é a do meu querido amigo Carpinejar. O Fabro hoje tem mais de 100 mil seguidores, mas não queria entrar no Twitter de jeito nenhum. Na época, ele já tinha o hábito de escrever palavras com cabelos na parte de trás da cabeça, mas seu barbeiro ainda não tinha pegado o jeito. Foi escrever PERIGO. Saiu PFRIGO. A Cinthya, sua namorada, decifrou: PFRIGO quer dizer Poeta Frigo, um pseudônimo. Daí criamos, eu e ela, o @pfrigo. Com foto do Fabro. Adicionamos os amigos dele. Começamos a tuitar frases aleatórias tiradas de seus textos. Tudo a contragosto do Fabro, mas com uma saída: enviamos login e senha para o e-mail dele. Se quisesse, poderia assumir o perfil quando quisesse, e continuar dali. Em poucos dias, @pfrigo tinha se transformado em @Carpinejar. Mais uns meses, tinha se tornado livro, personalidade e tudo o mais.

Enquanto essas coisas rolavam em perfis paralelos, o Twitter ia mudando aos poucos a minha vida. O melhor, sem demagogia, juro, foi a troca com leitores e seguidos. Tive um privilégio por estas bandas: pouca incomodação, muita gente legal, inteligente, divertida. Por causa dessas pessoas, li livros, assisti a filmes, ouvi músicas, fui a shows, a peças de teatro, li sobre o mundo, conheci gente bacana... De verdade: aprendi muito, amadureci um pouco, e agradeço a #todososenvolvidos por isso. :)

Os leitores deste blog talvez digam que nem tudo foi exatamente positivo. Já tivemos fases bastante ativas no passado, mas o espaço acabou largado às moscas, mesmo que eu me culpe constantemente por não escrever mais aqui. Mesmo assim, tenho a impressão de que a concisão compulsória do Twitter tenha me tornado mais zeloso pelo texto: por exemplo, estou demorando demais pra escrever este post. Ou talvez tenha feito eu perder o hábito de escrever textos longos, o que é pior. Vai que os leitores preferem mesmo que eu seja menos prolixo.

Curioso que até pelo jantar de hoje eu devo ao Twitter. A tapioca só foi possível porque reencontrei no Twitter uma velha amiga, e ela me deu a massa de mandioca de presente.

Como eu ia dizendo lá no começo, antes de fazer um tratado tão longo que garantiria zero de leitura até o final, jornalistas gostam de datas redondas. Quando eu vivia disso, o motivo era simples: era uma chance de escrever sobre algo que eu gostava ou sentia que devia, mas não caberia na pauta de outra forma. Se fosse festa, eu não estaria comendo tapioca velha que achei na geladeira. Mas faz cinco anos hoje, e eu queria mesmo agradecer pela companhia.

Obrigado, pessoal.

domingo, 3 de julho de 2011

Amar é crime


Li entre a madrugada e a manhã de hoje o Amar é crime, novo livro do Marcelino Freire.

Tudo muito rápido. Tava no computador, falando sobre Kindle com um amigo no Skype. Mencionamos o livro do Marcelino justamente por isso: editado por uma editora pequena brasileira, está lá no catálogo da Amazon. É um dos poucos títulos em português por lá neste momento em que a maioria das editoras daqui insistem no famigerado sistema de DRM da Adobe, blá blá, blá. Tem o Marcelino (e outros títulos da simpática Edith), uns clássicos, o Paulo Coelho, títulos de selos da Ediouro como o 1822 do Laurentino Gomes e a biografia do Lobão, uns desconhecidos, não vai muito além disso.

O papo com o amigo ia se encerrando, e eu decidi que ia ler o livro do Marcelino logo depois. Entrei no site, tirei da WishList e, antes de desligar o Skype, Amar é crime já estava esperando por mim na mesa de cabeceira. Maravilha.

Comecei a ler pela introdução de Ivan Marques. Veio o susto. Por algum motivo, há uns hífens perdidos no meio de palavras. Tem um "res-gatar", um "per-dida", um "agres-siva", por aí vai. Cheguei a pensar que não ia rolar. Tipo uma goiaba vistosa e cheirosa por fora, mas toda bichada por dentro.

Nada disso. Acabei a introdução, o problema sumiu. Está só no texto do Ivan Marques mesmo, e creio que a editora possa corrigir nas próximas semanas. ****ATUALIZAÇÃO IMPORTANTE: Nos comentários, o Marcelo Barbão diz que o problema já foi resolvido, e que o livro consertado deve estar na Amazon nos próximos dias. Não é ótimo?

Ufa. Bora seguir leitura.

O tema do livro não chega a ser simples: a amor. Todo mundo já escreveu sobre o amor. Existem sebos inteiros tomados de livros de Barbara Cartland, de Júlias, Sabrinas e Biancas sobre o amor. E todos os poetas. E todos os outros livros, filmes, peças, músicas...

Só que, aos poucos, fui me dando conta de como o Marcelino estava tratando o tema. Não era um amor qualquer, e sim o amor de hoje. Totalmente contemporâneo.

Uma hora é uma menina abusada pelo avô, noutra é um padre que se envolve com um garoto, a moça bonita que pega o velho rico, o primeiro casal gay que adotou uma criança no Brasil. Tudo isso que a gente vê por aí vira assunto.

O amor, portanto, não é só romântico. Daí que é crime: porque é violento, porque ameaça, causa briga, sufoca, mata, abusa, cansa, exaure.

Aí não tem nada de novo, claro. Ao falar do livro no Twitter, enquanto escrevia este texto, recebi uma mensagem de Josefina Neves Mello falando que tudo isso está na Odisseia. Está mesmo. Édipo mata o pai pra comer a mãe. Está no Nelson Rodrigues também. Nos russos, claro. Em muitos lugares, sempre que alguém resolve escancarar que essa coisa de relacionamento não é essa moleza toda que as comédias românticas do cinema tentam pintar por aí.

No Libertinagem, Manuel Bandeira publicou seu Poema tirado de uma notícia de jornal.
Pois bem: em Amar é crime, Marcelino fez seus contos tirados do Facebook, do Twitter, do G1.

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Falar de Manuel Bandeira a uma hora dessas? Pois é:
Poema tirado de uma notícia de jornal
João Gostoso era carregador de feira-livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado

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Atualização em 4 de julho - O próprio Marcelino acabou comentando este comentário por ver nele a primeira crítica literária totalmente digital. Só deve ser se considerar Kindle, problemas de formatação, que o livro de papel saiu depois etc. Vale mesmo pra salientar o ineditismo da Edith, enfim uma editora que não aposta só no modelo da Adobe, que é bem mais chatinho de usar...

segunda-feira, 7 de março de 2011

Notas sobre Berlin Alexanderplatz



Foi motivado por uns dias que passei em Berlim no fim do ano passado que comecei a ver Berlin Alexanderplatz, a magistral série feita para TV pelo grande diretor alemão Rainer Werner Fassbinder.

Achei que seria difícil de encontrar. Mesmo em Berlim, havia apenas uma caixa - sem legendas em nenhuma língua que servisse pra mim. Nas lojas, vendedores garantiam que não havia nenhuma outra versão em parte alguma do mundo.

Mas há.

Uma delas é a caixa da Criterion, aquele selo americano que lança maravilhas do cinema. Essa é para colecionadores e em quem tem fetiche pela coleção da Criterion. Não é o meu caso.

A surpresa pra mim é que havia esse tempo todo uma edição brasileira, bem mais em conta, pela Versátil. Minha busca inicial por aqui deve ter sido bem displicente, porque não havia encontrado.

Então cá estou eu assistindo a Berlin Alexanderplatz em DVD com legendas em português e a um preço equivalente ao da caixa alemã.

***

Ainda não acabei. Comecei em janeiro e ontem vi o capítulo 11. Não é uma série pra se ver de uma sentada. Tipo Lost, que você assiste a uma temporada em um fim de semana.

Em tese, daria. São 13 episódios e um epílogo, cada um com um pouco mais de uma hora. Total: 15 horas, divididas em seis DVDs -- com extras.

Mas não dá. Acho difícil aguentar. E Berlin Alexanderplatz demanda um tempo pra ser digerido. Porque Fassbinder faz uma obra densa e profundamente reflexiva.

A vida do ex-presidiário Franz Biberkopf na Berlin da década de 1920 é sofrida. E doída. Bieberkopf tenta se reeguer. Não consegue. Se filia a todo tipo de canalha, de nazistas a assaltantes. Não consegue.

As relações de Bieberkopf com as mulheres é penosa. Intensas e violentas. Só roubada, diria o outro.


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Outro dia, assistindo apenas ao episódio 9, tuitei umas frases da série. Busquei lá, colo aqui:


"Às vezes a vida é curta demais pra eternidade dos sofrimentos."

"Acho isso estranho. Que se possa falar a favor e contra uma coisa ao mesmo tempo."

"Não viu que não tenho um braço? Esse é o preço que paguei por trabalhar."

"Os socialistas não conquistaram o poder político. Foi o poder político que conquistou os socialistas."



***


Em termos de série: Berlin Alexanderplatz está entre as melhores que já vi. Brigando com Twin Peaks.

O Franz Bieberkopf de Günter Lamprecht me lembra Tony Soprano, até fisicamente, pela opulência.

Pra alguém aí, outro dia, defini que Berlin Alexanderplatz é como se fosse Sopranos ou Mad Men, mas só com as melhores cenas.


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Saiu em português o livro que serviu de base para Fassbinder, de Alfred Döblin. Pela Martins Fontes. Fiquei curioso.


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Também me perguntam sobre Berlin Alexanderplatz em si, a real, a de verdade. Que é uma praça bastante central em Berlim.

Há várias imagens dela aqui no Google.

Há uma estação de trem e acesso às duas redes de metrô da cidade - U-Bahn e S-Bahn, uma atendia à antiga Berlim Oriental e outra à Ocidental.

Há uma série de magazines e um shopping center, além de pequenas lojas e uns vendedores ambulantes.

Há a antena de TV que, na falta de outros cartões postais, ganha destaque no horizonte de Berlim.

E é uma ligação entre dois pontos centrais dessa cidade que foi dividida por décadas: o bairro de Mitte, cool e tal, que os guias hão de descrever como "de vida noturna agitada", e os lados da Ilha dos Museus e da avenida sofisticada Unter den Linden.

Tudo isso em volta de um imenso de piso de laje, com pouco verde e poucas árvores.

É na crueza espartana que as duas Berlin Alexanderplatz, a série e a praça, se unem.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Eaí? / Revista Atlântida

Volta e meia estudantes, pesquisadores e até ex-colegas me perguntam sobre onde conseguir edições de duas revistas que a gente fez lá na RBS: a Eaí? e a Revista Atlântida (2ª gestão).

Pra comprar não deve ser fácil.

Mas, pra pesquisa, a boa notícia é que, em Porto Alegre, deve ser bem fácil de encontrar esses exemplares. Ao contrário de editora, rádio não tem arquivo de revistas. E o núcleo em que a Eaí? estava alocada na RBS acabou extinto.

Ciente de que, se não fizesse nada, ninguém ia se preocupar em preservar nada disso, eu mesmo ocupei meus últimos dias na Redação em fazer quatro pacotes de revistas e distribuí-los em lugares de fácil acesso e que preservam a memória. O que eu nunca tinha feito é contar na internet onde eles estão, pra que alguém pudesse encontrar.

Só que não adianta nada eu fazer isso e não deixar a informação no Google. Então aí vai:

1. Arquivo da Zero Hora. É o mais completo de todos. Inclui todas as edições das duas revistas com CD, mais algumas provas de gráfica, mais os exemplares que tínhamos da primeira fase da Revista Atlântida (editado por uma empresa parceira da RBS um tempo antes da nossa versão). É a mais completa possível e a que tende a ser melhor preservada, mas também deve ser a mais inacessível. Por isso, se for para uma pesquisa simples, sugiro as opções abaixo:

2. Museu Hipólito José da Costa, Biblioteca da Fabico (UFRGS) e Biblioteca Central da PUCRS - Coleções completas da nossa série da Revista Atlântida e coleção completa do Eaí?. Sendo que no museu eu levei pessoalmente, e nas bibliotecas eu pedi pra levarem lá.

É isso.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

O meu Oscar

Outro dia, brinquei no Twitter que, na iminência de a Academia fazer uma grande bobagem na escolha dos Oscars, este ano eu mesmo ia determinar os vencedores.

A brincadeira acabou gerando algumas cobranças, coisas do tipo "E aí, cadê a lista?". Então a lista está aí.

Como ainda não vi todos os filmes, decidi estabelecer uns critérios:


1) Só voto em filme que vi.

2) Os filmes que não vi eu vou marcar em cinza.

3) Os vencedores estão em negrito.

4) Posso decidir não conceder prêmio a ninguém neste ano. Ou decretar empate. Porque é o MEU Oscar, então eu distribuo como quiser as estatuetas.


Por favor, entenda: não é uma prévia. Sei lá quem vai ganhar. Nem me importa. Não dou bola pra Oscar. Alguns dos melhores filmes que vi nessa temporada sequer foram indicados. É o caso de Somewhere e do ...tall dark stranger, do Woody Allen, só pra ficar nos que estão em cartaz.

E é aquilo: Guerra ao Terror, vencedor do ano passado, é um ótimo filme pra dormir: chato, ajuda a pegar no sono. Repetitivo, você não perde nada se cochilar por cinco minutos.

Em tempo: ao encerrar minha votação, fiquei com a sensação de que ter visto Inception no Imax acabou dando uma certa vantagem nas categorias técnicas. Por exemplo: Incontrolável tem um som incrível num cinema meia boca. É uma corrida de locomotivas, pô! Mas ainda assim Inception leva o prêmio. Faz parte.

Enfim, a lista:

Best Motion Picture of the Year

127 Hours (2010): Christian Colson, Danny Boyle, John Smithson

Black Swan (2010): Mike Medavoy, Brian Oliver, Scott Franklin

The Fighter (2010): David Hoberman, Todd Lieberman, Mark Wahlberg

Inception (2010): Christopher Nolan, Emma Thomas

The Kids Are All Right (2010): Gary Gilbert, Jeffrey Levy-Hinte, Celine Rattray

The King's Speech (2010): Iain Canning, Emile Sherman, Gareth Unwin

The Social Network (2010): Scott Rudin, Dana Brunetti, Michael De Luca, Ceán Chaffin

Toy Story 3 (2010): Darla K. Anderson

True Grit (2010): Ethan Coen, Joel Coen, Scott Rudin

Winter's Bone (2010): Anne Rosellini, Alix Madigan


Best Performance by an Actor in a Leading Role

Javier Bardem for Biutiful (2010)

Jeff Bridges for True Grit (2010)

Jesse Eisenberg for The Social Network (2010)

Colin Firth for The King's Speech (2010)

James Franco for 127 Hours (2010)


Best Performance by an Actress in a Leading Role

Annette Bening for The Kids Are All Right (2010)

Nicole Kidman for Rabbit Hole (2010)

Jennifer Lawrence for Winter's Bone (2010)

Natalie Portman for Black Swan (2010)

Michelle Williams for Blue Valentine (2010)


Best Performance by an Actor in a Supporting Role

Christian Bale for The Fighter (2010)

John Hawkes for Winter's Bone (2010)

Jeremy Renner for The Town (2010)

Mark Ruffalo for The Kids Are All Right (2010)

Geoffrey Rush for The King's Speech (2010)


Best Performance by an Actress in a Supporting Role

Amy Adams for The Fighter (2010)

Helena Bonham Carter for The King's Speech (2010)

Melissa Leo for The Fighter (2010)

Hailee Steinfeld for True Grit (2010)

Jacki Weaver for Animal Kingdom (2010)


Best Achievement in Directing

Darren Aronofsky for Black Swan (2010)

Ethan Coen, Joel Coen for True Grit (2010)

David Fincher for The Social Network (2010)

Tom Hooper for The King's Speech (2010)

David O. Russell for The Fighter (2010)


Best Writing, Screenplay Written Directly for the Screen

Another Year (2010): Mike Leigh

The Fighter (2010): Scott Silver, Paul Tamasy, Eric Johnson, Keith Dorrington

Inception (2010): Christopher Nolan

The Kids Are All Right (2010): Lisa Cholodenko, Stuart Blumberg

The King's Speech (2010): David Seidler


Best Writing, Screenplay Based on Material Previously Produced or Published

127 Hours (2010): Danny Boyle, Simon Beaufoy

The Social Network (2010): Aaron Sorkin

Toy Story 3 (2010): Michael Arndt, John Lasseter, Andrew Stanton, Lee Unkrich

True Grit (2010): Joel Coen, Ethan Coen

Winter's Bone (2010): Debra Granik, Anne Rosellini


Best Animated Feature Film of the Year

How to Train Your Dragon (2010): Dean DeBlois, Chris Sanders

L'illusionniste (2010): Sylvain Chomet

Toy Story 3 (2010): Lee Unkrich


Best Foreign Language Film of the Year

Biutiful (2010): Alejandro González Iñárritu(Mexico)

Kynodontas (2009): Giorgos Lanthimos(Greece)

Hævnen (2010): Susanne Bier(Denmark)

Incendies (2010): Denis Villeneuve(Canada)

Hors-la-loi (2010): Rachid Bouchareb(Algeria)


Best Achievement in Cinematography

Black Swan (2010): Matthew Libatique

Inception (2010): Wally Pfister

The King's Speech (2010): Danny Cohen

The Social Network (2010): Jeff Cronenweth

True Grit (2010): Roger Deakins


Best Achievement in Editing

127 Hours (2010): Jon Harris

Black Swan (2010): Andrew Weisblum

The Fighter (2010): Pamela Martin

The King's Speech (2010): Tariq Anwar

The Social Network (2010): Kirk Baxter, Angus Wall


Best Achievement in Art Direction

Alice in Wonderland (2010): Robert Stromberg, Karen O'Hara

Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 1 (2010): Stuart Craig, Stephenie McMillan

Inception (2010): Guy Hendrix Dyas, Larry Dias, Douglas A. Mowat

The King's Speech (2010): Eve Stewart, Judy Farr

True Grit (2010): Jess Gonchor, Nancy Haigh


Best Achievement in Costume Design

Alice in Wonderland (2010): Colleen Atwood

Io sono l'amore (2009): Antonella Cannarozzi

The King's Speech (2010): Jenny Beavan

The Tempest (2010/II): Sandy Powell

True Grit (2010): Mary Zophres


Best Achievement in Makeup

Barney's Version (2010): Adrien Morot

The Way Back (2010): Edouard F. Henriques, Greg Funk, Yolanda Toussieng

The Wolfman (2010): Rick Baker, Dave Elsey


Best Achievement in Music Written for Motion Pictures, Original Score

127 Hours (2010): A.R. Rahman

How to Train Your Dragon (2010): John Powell

Inception (2010): Hans Zimmer

The King's Speech (2010): Alexandre Desplat

The Social Network (2010): Trent Reznor, Atticus Ross


Best Achievement in Music Written for Motion Pictures, Original Song

127 Hours (2010): A.R. Rahman, , Dido("If I Rise")

Country Strong (2010): Tom Douglas, Hillary Lindsey, Troy Verges("Coming Home")

Tangled (2010/I): Alan Menken, Glenn Slater("I See the Light")

Toy Story 3 (2010): Randy Newman("We Belong Together")


Best Achievement in Sound Mixing

Inception (2010): Lora Hirschberg, Gary Rizzo, Ed Novick

The King's Speech (2010): Paul Hamblin, Martin Jensen, John Midgley

Salt (2010): Jeffrey J. Haboush, William Sarokin, Scott Millan, Greg P. Russell

The Social Network (2010): Ren Klyce, David Parker, Michael Semanick, Mark Weingarten

True Grit (2010): Skip Lievsay, Craig Berkey, Greg Orloff, Peter F. Kurland


Best Achievement in Sound Editing

Inception (2010): Richard King

Toy Story 3 (2010): Tom Myers, Michael Silvers

TRON: Legacy (2010): Gwendolyn Yates Whittle, Addison Teague

True Grit (2010): Skip Lievsay, Craig Berkey

Unstoppable (2010): Mark P. Stoeckinger


Best Achievement in Visual Effects

Alice in Wonderland (2010): Ken Ralston, David Schaub, Carey Villegas, Sean Phillips

Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 1 (2010): Tim Burke, John Richardson, Christian Manz, Nicolas Aithadi

Hereafter (2010): Michael Owens, Bryan Grill, Stephan Trojansky, Joe Farrell

Inception (2010): Chris Corbould, Andrew Lockley, Pete Bebb, Paul J. Franklin

Iron Man 2 (2010): Janek Sirrs, Ben Snow, Ged Wright, Daniel Sudick


Best Documentary, Features

Exit Through the Gift Shop (2010): Banksy, Jaimie D'Cruz

GasLand (2010): Josh Fox, Trish Adlesic

Inside Job (2010): Charles Ferguson, Audrey Marrs

Restrepo (2010): Tim Hetherington, Sebastian Junger

Waste Land (2010): Lucy Walker, Angus Aynsley


Best Documentary, Short Subjects

Killing in the Name (2010): Jed Rothstein

Poster Girl (2010): Sara Nesson, Mitchell Block

Strangers No More (2010): Karen Goodman, Kirk Simon

Sun Come Up (2010): Jennifer Redfearn, Tim Metzger

The Warriors of Qiugang (2010): Ruby Yang, Thomas Lennon


Best Short Film, Animated

Day & Night (2010): Teddy Newton

The Gruffalo (2009) (TV): Jakob Schuh, Max Lang

Let's Pollute (2011): Geefwee Boedoe

The Lost Thing (2010): Shaun Tan, Andrew Ruhemann

Madagascar, carnet de voyage (2010): Bastien Dubois

Best Short Film, Live Action

The Confession (2010/IV): Tanel Toom

The Crush (2010): Michael Creagh

God of Love (2010): Luke Matheny

Na Wewe (2010): Ivan Goldschmidt

Wish 143 (2009): Ian Barnes, Samantha Waite