domingo, 3 de julho de 2011

Amar é crime


Li entre a madrugada e a manhã de hoje o Amar é crime, novo livro do Marcelino Freire.

Tudo muito rápido. Tava no computador, falando sobre Kindle com um amigo no Skype. Mencionamos o livro do Marcelino justamente por isso: editado por uma editora pequena brasileira, está lá no catálogo da Amazon. É um dos poucos títulos em português por lá neste momento em que a maioria das editoras daqui insistem no famigerado sistema de DRM da Adobe, blá blá, blá. Tem o Marcelino (e outros títulos da simpática Edith), uns clássicos, o Paulo Coelho, títulos de selos da Ediouro como o 1822 do Laurentino Gomes e a biografia do Lobão, uns desconhecidos, não vai muito além disso.

O papo com o amigo ia se encerrando, e eu decidi que ia ler o livro do Marcelino logo depois. Entrei no site, tirei da WishList e, antes de desligar o Skype, Amar é crime já estava esperando por mim na mesa de cabeceira. Maravilha.

Comecei a ler pela introdução de Ivan Marques. Veio o susto. Por algum motivo, há uns hífens perdidos no meio de palavras. Tem um "res-gatar", um "per-dida", um "agres-siva", por aí vai. Cheguei a pensar que não ia rolar. Tipo uma goiaba vistosa e cheirosa por fora, mas toda bichada por dentro.

Nada disso. Acabei a introdução, o problema sumiu. Está só no texto do Ivan Marques mesmo, e creio que a editora possa corrigir nas próximas semanas. ****ATUALIZAÇÃO IMPORTANTE: Nos comentários, o Marcelo Barbão diz que o problema já foi resolvido, e que o livro consertado deve estar na Amazon nos próximos dias. Não é ótimo?

Ufa. Bora seguir leitura.

O tema do livro não chega a ser simples: a amor. Todo mundo já escreveu sobre o amor. Existem sebos inteiros tomados de livros de Barbara Cartland, de Júlias, Sabrinas e Biancas sobre o amor. E todos os poetas. E todos os outros livros, filmes, peças, músicas...

Só que, aos poucos, fui me dando conta de como o Marcelino estava tratando o tema. Não era um amor qualquer, e sim o amor de hoje. Totalmente contemporâneo.

Uma hora é uma menina abusada pelo avô, noutra é um padre que se envolve com um garoto, a moça bonita que pega o velho rico, o primeiro casal gay que adotou uma criança no Brasil. Tudo isso que a gente vê por aí vira assunto.

O amor, portanto, não é só romântico. Daí que é crime: porque é violento, porque ameaça, causa briga, sufoca, mata, abusa, cansa, exaure.

Aí não tem nada de novo, claro. Ao falar do livro no Twitter, enquanto escrevia este texto, recebi uma mensagem de Josefina Neves Mello falando que tudo isso está na Odisseia. Está mesmo. Édipo mata o pai pra comer a mãe. Está no Nelson Rodrigues também. Nos russos, claro. Em muitos lugares, sempre que alguém resolve escancarar que essa coisa de relacionamento não é essa moleza toda que as comédias românticas do cinema tentam pintar por aí.

No Libertinagem, Manuel Bandeira publicou seu Poema tirado de uma notícia de jornal.
Pois bem: em Amar é crime, Marcelino fez seus contos tirados do Facebook, do Twitter, do G1.

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Falar de Manuel Bandeira a uma hora dessas? Pois é:
Poema tirado de uma notícia de jornal
João Gostoso era carregador de feira-livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado

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Atualização em 4 de julho - O próprio Marcelino acabou comentando este comentário por ver nele a primeira crítica literária totalmente digital. Só deve ser se considerar Kindle, problemas de formatação, que o livro de papel saiu depois etc. Vale mesmo pra salientar o ineditismo da Edith, enfim uma editora que não aposta só no modelo da Adobe, que é bem mais chatinho de usar...

3 comentários:

barbao disse...

Olá Nasi. Sou o Marcelo Barbão, editor dos ebooks. Obrigado pela citação e pelas dicas de erros. Eles já foram corrigidos. A Amazon demora uns dias para fazer a troca, mas em pouco tempo os ebooks já estão perfeitos. Peço desculpas a quem comprou com esses erros de formatação.
Abraços
Barbão

Maitan disse...

Ainda não li o novo livro do Marcelino, mas, por favor, dizer que tudo isto está na Odisséia?!

Convenhamos... Abramos os olhos para o nosso tempo. O homem não é o mesmo. O modo como a gente lida com os mesmos temas é outro. A vida é outra...

Eduardo Nasi disse...

Barbão, já atualizei ali no post. Acho que dá até mesmo pra atualizar o arquivo pelo administrador do Kindle quando o novo entrar. Aviso.

Maitan, não tem Twitter na Odisseia, claro. E eu não acho que tenhamos mudado tanto na essência. Só o entorno mudou. Mas é o que eu vejo, talvez não cheguemos a um consenso.