quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Desconfiômetro ligado, coração tranqüilo



Tá rolando um stress por causa da nova campanha do Estadão, cujo polêmico filme está aí em cima.

Tudo porque, na cabeça dos blogueiros, trata-se de uma campanha anti-blog, em que o jornalão estaria detratando todas as conquistas e vitórias digitais dos últimos anos.

O que, naturalmente, é uma bobagem.

Na minha cabeça, tá mais pra velha história da carapuça que veste bem. A campanha fala evidentemente do 99% de lixo que é a internet. Nem a agência nem o jornal me parecem capazes de acreditar que blogs são feitos por habilidosos macacos copistas.

Fiquei surpreso com o espanto generalizado. Surpreso mesmo, porque eu, com esse meu imenso coração sincero, esperava mais das cabeças digitais pensantes. Parece até que algo ali mexeu com a culpa de quem anda postando bobagem por aí -- e daí o fenômeno foi contaminando os outros.

E digo isso na boa, porque até então eu tava achando a campanha superbacana. Até porque, pra mim, a carapuça serviu: não vejo por que alguém beberia um dos vinhos recomendados na tag etílica aí ao lado. Eu não entendo lhufas de vinho. É óbvio que o caderno Paladar tem muito mais moral pra falar sobre vinhos do que eu.

Mas o jogo viraria, por exemplo, se eu fizesse um blog de quadrinhos. Eu daria um banho no Estadão, e também digo isso na boa, sem querer ofender ninguém. O fato é que, ainda que eu tivesse uma coluna sobre quadrinhos no Estadão, o meu suposto blog seria melhor que a coluna, por conta de tamanho e da maleabilidade de um blog.

O Universo HQ, por exemplo, dá um banho na cobertura de quadrinhos de qualquer jornal do país. E olha que tem uns jornalistas de HQ bons por aí.

Mas, se eu gosto de quadrinhos, o Estadão é um puta jornal para eu me informar sobre política, economia, informática e culinária. Não são assuntos que eu acompanho com voracidade, então, ele supre as minhas necessidades superbem. Verdade seja dita: o Estadão é, de fato, o melhor generalista de informação nacional diária do mercado.

Quando o Estadão mostra o macaco, ele solta um alerta: "Amigo leitor, tome cuidado com o senhor que lê por aí". E vende seu peixe: "Se porventura quiser uma informação mais confiável, eu tenho aqui". Quando separa informação boa da ruim, fica claro que ele conquista uns leitores. Mas, mais que isso, põe uma pulga atrás da orelha do leitor. Liga o desconfiômetro.

E, afinal de contas, ler qualquer coisa com o desconfiômetro ligado é, desde sempre, pré-requisito para a vida civilizada. Algo de que ninguém deveria ter medo.

Um comentário:

mutantismos disse...

Gostei do texto e acho que é mesmo a história da carapuça que veste bem.

No fim das contas, sempre penso na mesma frase: "tu pode fazer o que quiser, os outros podem comentar". Serve pros blogs, serve pra essa montanha de lixo na internet, serve até pro monte de blog bom que tem por aí também...

Eu, leitor voraz de blogs, curti a campanha. Achei inteligente, mesmo que o tiro possa sair pela culatra.

Abs!
Raul Krebs